A abertura da programação técnica do XX Encontro da ABRAVES-PR, nesta terça-feira (11/03), em Toledo (PR), levou ao palco uma discussão que foi além da comunicação e alcançou temas centrais para a leitura do país, do ambiente institucional e das condições de desenvolvimento.
Primeira palestra do primeiro dia do evento, a apresentação “Pensamento crítico na era da (des)informação”, com Fernando Schüler, propôs uma reflexão sobre desinformação, respeito às regras, segurança jurídica e confiança nas instituições. A condução do debate coube a Tom Kramer, que puxou a conversa para um terreno de forte conexão com o momento brasileiro e com a necessidade de qualificar o olhar sobre temas complexos.
Ao longo da exposição, Schüler associou a fragilidade das regras e a erosão da previsibilidade a um ambiente de desconfiança que afeta decisões, compromete investimentos e reduz a disposição de apostar no futuro. A argumentação apresentada mostrou que a perda de referências institucionais não atinge apenas o campo político ou jurídico, mas gera consequências concretas sobre economia, planejamento e capacidade de avançar.
Outro ponto forte da fala foi a crítica ao patrimonialismo e às relações informais de poder. Ao diferenciar o lobby formal e transparente (que, segundo ele, faz parte da democracia) de práticas baseadas em acesso privilegiado, conexões pessoais e atalhos nas relações com o Estado, Schüler construiu uma crítica direta a uma cultura política que, em sua visão, distorce a concorrência e enfraquece a lógica republicana.
Nesse contexto, reforçou que não se pode naturalizar um ambiente em que empresas que seguem a regra, focam em produtividade e atuam dentro da legalidade sejam prejudicadas por relações promíscuas entre poder econômico e poder político.
Na sequência, a palestra avançou para uma discussão mais estrutural sobre os caminhos do Brasil. Schüler contrapôs visões distintas de país: de um lado, uma leitura mais centrada em Estado protagonista, ampliação de transferências e resistência a privatizações; de outro, uma abordagem mais orientada a Estado regulador, responsabilidade fiscal, abertura econômica e participação privada em setores estratégicos.
A exposição mostrou que, para ele, essa disputa de concepção segue no centro das decisões nacionais e ajuda a explicar por que o país frequentemente oscila entre agendas incompatíveis entre si. Como exemplo, o palestrante recorreu a temas como saneamento, concessões e privatizações para defender que metas claras, contratos de longo prazo e capacidade de investimento podem gerar ganhos concretos de eficiência e entrega.
A linha argumentativa apresentada indicou que parte das resistências brasileiras a reformas estruturais ainda se ancora mais em disputas ideológicas do que em avaliação objetiva de resultados. Ao abrir o XX Encontro da ABRAVES-PR com essa provocação, a entidade colocou já no primeiro painel uma agenda de grande densidade para o público presente em Toledo.
Em um setor acostumado a trabalhar com técnica, gestão, metas e tomada de decisão baseada em evidências, a discussão sobre pensamento crítico, desinformação e confiança institucional dialogou de forma direta com o contexto de um país em que previsibilidade, regra clara e estabilidade seguem sendo ativos decisivos também para quem produz.
