Uma granja controla a entrada de pessoas, higieniza veículos e filtra o ar, mas recebe ração diariamente. Essa rotina pode manter uma via de exposição a vírus se o alimento e sua cadeia de abastecimento ficarem fora do programa de biosseguridade. O alerta foi apresentado pelo pesquisador Scott Dee durante o World Nutrition Forum 2026, organizado pela dsm-firmenich em Kuala Lumpur (Malásia), em cobertura exclusiva do grupo editorial agriNews Brasil.
Dee, identificado nos anais com vínculos à Universidade de Minnesota e à Pipestone Veterinary Services, reuniu evidências sobre a sobrevivência e a transmissão de vírus por alimentos para suínos. Para quem decide sobre sanidade, compras e fabricação de rações, a discussão envolve avaliar a origem dos ingredientes e proteger o produto até sua chegada à granja.
O surto que levou a investigação até o silo
O pesquisador relatou episódios de diarreia epidêmica suína em granjas que já adotavam diferentes barreiras sanitárias nos Estados Unidos. A investigação encontrou um ponto em comum entre propriedades afetadas: o fornecimento de ração a partir de silos associados aos primeiros animais doentes.
Amostras de poeira coletadas nas paredes internas desses silos continham o vírus da diarreia epidêmica suína, o PEDV. O trabalho descrito nos anais demonstrou também infectividade em suínos que consumiram o material. A evidência avançava, portanto, além da identificação de material genético viral.
A partir daí, os estudos passaram a investigar quais ingredientes poderiam preservar os vírus e por quanto tempo. Em modelos que reproduziam condições de transporte internacional, determinados agentes mantiveram a infectividade em algumas das matérias-primas avaliadas. O farelo de soja se destacou como matriz favorável à sobrevivência de diferentes vírus nas condições experimentais.
Isso não significa que todo lote de farelo esteja contaminado. O risco depende da combinação entre agente, ingrediente e condições de exposição. Os próprios anais reconhecem limitações da evidência de campo e o uso frequente de inoculação experimental nos estudos.
O tratamento precisa chegar até a entrega
Nas perguntas do público, Dee abordou um problema que aproxima a pesquisa da rotina das fábricas: o tratamento térmico pode reduzir o risco, mas o alimento pode voltar a ser contaminado nas etapas seguintes. Transporte, descarga e movimentação precisam fazer parte da avaliação sanitária.
Os anais discutem quatro abordagens de mitigação: redução mecânica da contaminação por procedimentos como sequenciamento de lotes e flushing, tratamento térmico, uso de agentes químicos e armazenamento sob condições definidas. A escolha depende das evidências disponíveis para cada vírus e processo.
Ao comentar produtos para mitigação, o pesquisador recomendou verificar os dados que sustentam sua eficácia. O resultado obtido com uma formulação e uma condição de uso não autoriza tratar toda uma categoria de aditivos como equivalente.
Quatro vias precisam entrar na mesma estratégia
Dee apresentou a biosseguridade de nova geração como um programa que integra quatro frentes: animais e sêmen, pessoas e materiais, aerossóis e ração. O objetivo é reduzir a possibilidade de que uma rota desprotegida comprometa o investimento feito nas demais.
Um estudo citado nos slides, publicado no Journal of the American Veterinary Medical Association em 2024, registrou risco de novas infecções pelo vírus da síndrome reprodutiva e respiratória suína (PRRSV) de 8,6% e 9,2% em dois anos consecutivos no sistema avaliado. Os resultados dizem respeito à abordagem integrada de biosseguridade; não medem isoladamente o efeito de um aditivo na ração.
A implicação para a gestão é direta: a avaliação sanitária da alimentação começa na seleção de fornecedores e acompanha fabricação, transporte e recebimento. Incluir essas etapas no programa da granja permite examinar uma via de entrada de patógenos que, por fazer parte da rotina diária, pode receber menos atenção do que merece.
