Carne suína ainda esbarra no varejo para capturar valor no Brasil, aponta Alexandre Mendonça de Barros
Mesmo em um ambiente que combina mercado interno aquecido, custos de alimentação mais favoráveis e perspectiva de encarecimento da carne bovina, a carne suína ainda encontra resistência para capturar mais valor no varejo brasileiro. A avaliação foi feita pelo economista Alexandre Mendonça de Barros durante palestra no FNDS Collab, realizada em 4 de março, em São Paulo, e gravada pela suínoBrasil.
Segundo Alexandre, a principal trava não está apenas na granja nem no atacado, mas na ponta final da cadeia. Na leitura apresentada por ele, quando o preço do suíno sobe ao produtor, essa alta é transmitida quase integralmente ao atacado ao longo dos meses seguintes. O problema aparece no passo seguinte: do atacado para o varejo, o repasse perde força e velocidade, porque o consumidor ainda não aceita a carne suína com o mesmo grau de fidelidade observado em cortes bovinos.
“Quando sobe no atacado e o varejo tenta repassar essa alta proporcional para o consumidor, o consumidor se nega a aceitar ela”, afirmou. Na análise do economista, isso ajuda a explicar por que a carne suína ainda não consolidou o mesmo poder de preço de outras proteínas no mercado brasileiro, apesar de já apresentar avanços importantes de competitividade e imagem.
O limite do repasse
Alexandre mostrou, com base em estudos econométricos apresentados na palestra, que a transmissão de preços entre produtor e atacado tende a ser quase completa, mas a passagem do atacado para o varejo é bem menor. De acordo com ele, se o preço no atacado sobe, o varejo não consegue repassar integralmente esse movimento ao consumidor final, o que revela um limite importante para a valorização da proteína suína na gôndola.
Na prática, isso significa que a carne suína ainda opera em um espaço intermediário: já não é vista apenas como proteína de ocasião, mas também ainda não alcançou, de forma ampla, o status de item essencial e incontornável da cesta do brasileiro. “Talvez um dia a carne suína seja tão essencial quanto a carne bovina. Hoje, o consumidor ainda muda de proteína”, resumiu.
Boi mais caro abre espaço, mas não resolve tudo
A leitura de Alexandre é de que a carne bovina deve continuar mais cara nos próximos meses, sustentada por menor oferta, mercado internacional firme e preços historicamente elevados nos Estados Unidos. Esse cenário, segundo ele, tende a favorecer a carne suína no consumo doméstico, sobretudo porque o brasileiro já começa a aceitar melhor produtos como picanha suína, filé mignon suíno e outros cortes com apelo mais próximo do universo bovino.
Na palestra, ele afirmou que esse movimento pode abrir espaço relevante para a suinocultura nos próximos anos. A conta apresentada pelo economista é que uma queda do consumo per capita de carne bovina no Brasil poderia transferir parte importante dessa demanda para a carne suína. Ainda assim, ele fez um alerta: essa oportunidade não garante, por si só, valorização automática do setor.
“O único risco do cenário é a oferta seguir crescendo”, afirmou. Na visão dele, se a produção de suínos avançar em ritmo mais forte do que a absorção do mercado interno e das exportações, o setor pode limitar seu próprio potencial de preço, mesmo em um contexto favorável de custos e substituição de proteínas.
Competitividade não basta sem construção de valor
Ao longo da apresentação, Alexandre também destacou que o momento é positivo para a formação de custos das proteínas animais, especialmente diante da perspectiva de preços mais comportados para milho e farelo de soja. Mas o ponto central de sua análise para a suinocultura foi outro: competitividade, sozinha, não resolve o desafio de capturar valor.
A mensagem que ficou da palestra é que o setor pode estar diante de uma oportunidade rara de ganhar espaço no prato do brasileiro, mas ainda precisa avançar em posicionamento, leitura de consumo e construção de valor no varejo para transformar essa janela em preço mais consistente. Em outras palavras, o desafio da carne suína no Brasil já não é apenas produzir bem ou competir em custo. É convencer o consumidor a aceitar, na gôndola, um novo patamar de valor para a proteína.
