Colibacilose pós desmame: quando a comensal de torna patogênica
Ygor Henrique de Paula1; Izabel Cristina Tavares2
1Doutorando em Produção e nutrição de não-ruminantes – UFLA. Membro da linha de pesquisa Animal Science and Intestinal Health – ASIH.
2 Graduanda em Medicina Veterinária – UFLA. Membro da linha de pesquisa Animal Science and Intestinal Health – ASIH.
O desmame é considerado um dos momentos mais estressantes na vida dos suínos, podendo causar alterações no funcionamento do intestino e do sistema imunológico, o que leva à redução do consumo alimentar, do crescimento e da saúde geral dos leitões (Campbell; Crenshaw; Polo, 2013).
Nas 2ª a 3ª semanas que se seguem ao desmame, os leitões tornam-se mais vulneráveis a infecções microbianas, principalmente devido à imaturidade do sistema imune e à retirada repentina do leite materno — fonte essencial de nutrientes e proteção imunológica para a leitegada (Luppi, 2017; Castro et al., 2022). Como consequência, os leitões ficam mais propensos ao desenvolvimento de doenças no período pós-desmame, como a colibacilose.
A colibacilose suína é uma infecção provocada pela Escherichia coli (E. coli), uma bactéria Gram-negativa que representa não só um risco significativo para a produção de suínos, mas também uma preocupação para a saúde pública, devido ao potencial zoonótico de algumas de suas cepas (Barros et al., 2023). Por sua frequência e impacto, esse agente infeccioso é tema recorrente entre sanitaristas e produtores, já que pode comprometer seriamente os sistemas de criação.
Nesse contexto, a colibacilose está entre os principais desafios enfrentados pela suinocultura global, sendo responsável por consideráveis prejuízos econômicos ligados à:
- Morbidade
- Mortalidade
- Menor desempenho zootécnico e
- Aumento nos custos com tratamentos (Luppi, 2017; Barros et al., 2023).
O período pós-desmame é frequentemente relacionado à forma mais grave de infecção intestinal por E. coli, que se manifesta por morte súbita ou diarreia severa (Fairbrother e Nadeau, 2019).
Embora E. coli seja uma bactéria comensal normal do trato gastrointestinal, ela tem o potencial de causar doenças tanto locais quanto sistêmicas. Os principais subtipos de E. coli incluem:
- Enterotoxigênica (ETEC)
- Enteropatogênica (EPEC)
- Entero-hemorrágica (EHEC)
- Enteroagregativa (EAEC)
- Enteroinvasiva (EIEC),
- Produtora de toxina Vero ou semelhante à Shiga (VTEC ou STEC) e
- Aderente difusa (DAEC).
Dentre esses, as fímbrias F4 (K88) e F18 da ETEC são os agentes etiológicos mais comuns responsáveis pela diarreia pós-desmame em suínos (Luppi, 2017; Fairbrother; Nadeau, 2019; Sha et al., 2024).
O trato gastrointestinal é um ecossistema complexo que abriga uma grande quantidade de microrganismos com diversas atividades metabólicas, começando a ser colonizado desde o nascimento dos suínos (Pandey et al., 2023). Esse ecossistema varia de acordo com a idade, a dieta e outros fatores presentes nos intestinos dos suínos (Luo et al., 2022).
Assim, o estresse do desmame e as mudanças na dieta podem facilmente alterar a microbiota intestinal dos leitões, tornando-os mais suscetíveis a infecções por bactérias patogênicas (Mahmud et al., 2023).
Embora E. coli seja uma das primeiras bactérias a colonizar os intestinos dos leitões ao nascimento, a microbiota intestinal pode ser afetada pelo aumento de sua abundância durante o período pós-desmame (Wang et al., 2019).
É importante ressaltar que, para que a infecção se estabeleça, não basta apenas a colonização pelo agente; são necessárias também condições ambientais predisponentes e fatores específicos do hospedeiro.
Curiosamente, estudos já demonstraram a presença de cepas de ETEC em 16,6% dos suínos assintomáticos durante a fase de lactação, em 66% na fase de creche e em 17,3% nos animais em terminação. Além disso, essas cepas podem ser eliminadas nas fezes de suínos clinicamente saudáveis (Luppi, 2017; Nielsen et al., 2022; Barros et al., 2023).
A diarreia costuma se manifestar como um líquido amarelado ou acinzentado, com duração de até uma semana, levando à desidratação e perda de peso. Ao longo de alguns dias, grande parte dos animais de um mesmo lote podem ser afetados, com taxas de mortalidade que podem chegar a 25%.
A ocorrência de surtos varia entre as granjas, mas os picos são mais comuns nas três primeiras semanas após o desmame. Animais que morrem em decorrência da diarreia pós-desmame causada por E. coli geralmente apresentam boa condição corporal, mas estão intensamente desidratados, com olhos fundos e sinais de cianose. O estômago costuma estar distendido, contendo ração. O intestino delgado aparece dilatado, levemente edemaciado e com áreas de hiperemia. O conteúdo intestinal varia entre líquido e mucoso, com um odor característico. O mesentério encontra-se fortemente congesto.
Nos casos mais tardios de surto, os suínos apresentam-se emagrecidos e com odor intenso de amônia. Quando a cepa de ETEC envolvida também produz a toxina Stx2e, as lesões características da doença do edema tendem a ser leves ou até ausentes (Fairbrother; Nadeau, 2019).
A imunidade contra infecções entéricas causadas por E. coli é predominantemente humoral, através de anticorpos, e, no início, é fornecida por meio da imunidade passiva, através do colostro materno.
Esse primeiro tipo de proteção destaca-se como um dos diversos benefícios cruciais promovidos pela prática adequada de colostragem. Além disso, a proteção é sustentada posteriormente pelos anticorpos lactogênicos presentes no leite materno da porca. À medida que os leitões se desenvolvem, a imunidade passa a ser mantida por respostas imunes intestinais locais ativas. Esse processo é fundamental para garantir a proteção intestinal duradoura contra infecções bacterianas (Rooke; Bland, 2002).
A imunidade protetora contra a E. coli baseia-se na presença de anticorpos específicos que reconhecem e neutralizam antígenos de superfície da bactéria. Entre esses, destacam-se as adesinas fimbriais, como F4, F5, F6 e F41, que são as principais responsáveis pela adesão da bactéria às células epiteliais intestinais, permitindo a colonização e a infecção.
Anticorpos direcionados à cápsula polissacarídica da ETEC também têm demonstrado ser protetores, pois dificultam a capacidade da bactéria de interagir com as células intestinais e, consequentemente, de causar danos (Pereira et al., 2015; Duan et al., 2020).
No contexto da produção suinícola, a resistência antimicrobiana entre as cepas de E. coli tem se tornado um problema persistente e crescente, afetando diretamente o controle e tratamento das infecções.
Estudos têm mostrado que a ocorrência de cepas multirresistentes de E. coli é cada vez mais comum, o que torna o manejo das infecções mais complexo e oneroso para os produtores (Castro et al., 2022). A resistência antimicrobiana, compromete a eficácia dos tratamentos, exigindo abordagens alternativas e mais rigorosas. Além disso, a tendência crescente da expressão de um fenótipo multirresistente tem sido um ponto de atenção, dado que muitas cepas de E. coli demonstram resistência a três ou mais antimicrobianos diferentes, o que aumenta consideravelmente o risco de falhas terapêuticas e prolonga os períodos de doença nas granjas (Garcias et al., 2024).
Diante dessa situação, é fundamental adotar estratégias de controle que não dependam exclusivamente do uso de antimicrobianos. O uso excessivo de antibióticos não só favorece o aumento da resistência, como também prejudica o equilíbrio da microbiota intestinal dos suínos, incentivando a proliferação de bactérias patogênicas.
Assim, a implementação de medidas preventivas não medicamentosas, como vacinação e programas nutricionais com aditivos como:
- Prebióticos
- Probióticos
- Simbióticos
- Ácidos orgânicos e
- Fitogênicos
é crucial para prevenir e controlar surtos de colibacilose (Castro et al., 2022; Sha et al., 2024).
Essas práticas são essenciais para assegurar a saúde dos animais e a sustentabilidade da produção suinícola. Além disso, as instalações devem ser minuciosamente limpas de matéria orgânica e desinfetadas antes da chegada de novos lotes, pois a gestão adequada do ambiente é uma estratégia eficaz para reduzir a pressão de infecção nos galpões.
O manejo dos leitões desmamados deve minimizar o estresse ambiental e outras formas de estresse, como a mistura desnecessária das leitegadas, temperatura, transporte e a alojamento.
Por fim, programas de seleção genética podem ser aprimorados para escolher suínos que não possuam receptores específicos nas células epiteliais intestinais para as fímbrias F4 e F18, principais fatores de virulência transportados pela E. coli (Castro et al., 2022; Fairbrother; Nadeau, 2019).
Em resumo, a colibacilose continua a ser uma das principais causas de diarreia pós-desmame, representando um desafio significativo para a suinocultura e gerando importantes perdas econômicas.
A E. coli, uma bactéria naturalmente presente no trato gastrointestinal dos suínos, encontra no período de desmame o ambiente propício para se proliferar devido ao estresse e à vulnerabilidade imunológica dos animais.
Embora existam várias estratégias de controle, como o uso de aditivos nutricionais, vacinação e tratamentos com antibióticos, o foco principal deve ser nas medidas de biossegurança. Garantir práticas adequadas de limpeza, desinfecção, colostragem, ambiência e minimizar o estresse durante o desmame prepara os leitões para enfrentar esse período crítico, reduzindo a pressão de infecção e aumentando suas chances de sucesso. A implementação eficaz dessas medidas, aliada a abordagens preventivas e terapêuticas adequadas, é essencial para garantir a saúde dos animais e maximizar o desempenho produtivo, resultando em um aumento na produtividade e na rentabilidade da suinocultura.
- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS : Sob consulta aos autores.
Colibacilose pós desmame causa diarreia leitões reduz desempenho exige prevenção nutricional sanitária e manejo adequado. Colibacilose pós desmame causa diarreia leitões reduz desempenho exige prevenção nutricional sanitária e manejo adequado.
