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Lactação em foco: como a condição corporal das fêmeas ativas determina a produção de leite e o sucesso da leitegada

Escrito por: Bruno Bracco Donatelli Muro - Laboratório de Pesquisa em Suínos da FMVZ/USP , Rafaella Fernandes Carnevale

Condição corporal de matrizes: impacto no leite e nos leitões

Flávia Stievano de Souza Tavares¹, Rafaella Fernandes Carnevale¹,², Erich Herzogenrath Cavaca Inácio¹, Iris Alves de Jesus¹, Bruno Bracco Donatelli Muro¹, Cesar A. P. Garbossa¹ 

¹Departamento de Nutrição e Produção Animal, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo, Pirassununga – BR; ²Faculty of Veterinary Medicine, Ghent University, Ghent – BE.  

 A condição corporal das matrizes suínas é um indicador de seu estado nutricional e metabólico, diretamente relacionada aos resultados produtivos e reprodutivos, desde a função ovariana, até o peso ao nascimento dos leitões e posterior produção leiteira (Muro et al., 2023). Assim, reflete a quantidade de reservas corporais que podem ser mobilizadas para atender períodos de elevada demanda energética, como a lactação (Muro et al., 2023).  

Considerando que o leite é a principal fonte de energia e nutrientes para os leitões durante a fase inicial da vida (Schenkel et al., 2010), sua qualidade e quantidade são determinantes críticos para a sobrevivência e desempenho da leitegada (Klobasa et al., 1987), podendo ser modulados pelo estado metabólico das porcas (Costermans et al., 2020). Diante disso, este artigo discute como variações na condição corporal das fêmeas suínas impactam a produção e composição do leite, resultando em repercussões no crescimento e uniformidade dos leitões. 

Em sistemas modernos de produção, caracterizados pelo aumento do tamanho das leitegadas decorrente do avanço genético, observa-se também uma maior pressão sobre a sobrevivência neonatal, com incremento nas taxas de mortalidade. 

Nesse contexto, mesmo com a adoção de práticas de manejo sanitário mais eficientes, a produção de leite tem sido apontada como um dos principais fatores limitantes do crescimento, desenvolvimento e sobrevivência dos leitões (Gu e Li, 2003). Hojgaard et al. (2020) demonstram que tanto o volume quanto a composição do leite materno exercem efeito direto sobre o ganho de peso da leitegada até o desmame, sendo a taxa de crescimento durante a lactação amplamente explicada pela ingestão de leite. 

Adicionalmente, leitões com maior consumo de leite apresentam maior deposição de gordura corporal e maior peso ao desmame, características que se refletem em maior consumo de ração e melhor desempenho na fase de creche. Como consequência, esses animais também apresentam redução no tempo necessário para atingir o peso de abate, estimada em média em 8,6 dias (Hojgaard et al., 2020; Wolter et al., 2001). 

No que se refere às matrizes, a produção de leite pode representar até 80% de suas exigências nutricionais durante a lactação (De Bettio et al., 2016), sendo essas demandas ainda mais intensificadas à medida que aumenta o número de leitões desmamados (Costermans et al., 2020). Entretanto, a seleção genética voltada à eficiência alimentar tem sido associada à redução do consumo voluntário de ração (Bergsma et al., 2009), tornando a ingestão frequentemente insuficiente para sustentar a síntese láctea.

Como consequência, ocorre a mobilização de reservas corporais para suprir o déficit energético (Schenkel et al., 2010; Costermans et al., 2020). Quando a energia metabolizável proveniente da dieta e da mobilização dessas reservas não atende às exigências da fêmea, observam-se prejuízos no crescimento e desenvolvimento da leitegada. 

Dessa forma, o manejo nutricional voltado à obtenção de uma condição corporal ideal das matrizes ao parto é fundamental para a rentabilidade da produção suinícola, estando relacionado ao aumento da sobrevivência dos leitões (Farmer, 2022), retorno à atividade reprodutiva após o desmame (Schenkel et al., 2010) e maior longevidade das fêmeas (Monteiro et al., 2025) 

 Entre as técnicas utilizadas para essa avaliação, o escore de condição corporal (ECC) é um método visual composto por uma escala de 1 a 5, amplamente empregado na rotina produtiva por sua fácil aplicação, apesar de sua natureza subjetiva (Maes et al., 2004). De acordo com a revisão conduzida por Muro et al. (2023), valores intermediários de ECC, entre 3,0 e 3,5 ao parto, são considerados ideais. No entanto, pequenas variações nesses valores podem ocorrer em função da genética das matrizes e estratégia nutricional adotada, sem necessariamente comprometer o desempenho dos animais (Muro et al., 2023). 

Por sua vez, uma avaliação mais precisa e objetiva da condição corporal pode ser realizada por meio de parâmetros quantitativos, destacando-se a espessura de toucinho (ET). Tal variável reflete a quantidade de gordura corporal e está diretamente relacionada ao desempenho lactacional das porcas (Wang et al., 2016). Embora a literatura reporte intervalos distintos de ET considerados ideais, valores extremos são associados à prejuízos produtivos e reprodutivos (Wang et al., 2016; Muro et al., 2023). Nesse contexto, uma recomendação conservadora baseada na comparação entre estudos seria manter as porcas e leitoas com ET entre 16 e 20 mm e 15 e 19 mm, respectivamente (Muro et al., 2023).  

De forma complementar, a profundidade de lombo (PL) é outro parâmetro relevante, já que é um indicador objetivo da massa muscular que fornece informações importantes sobre o estado metabólico das fêmeas (Muro et al., 2023). Durante a lactação, a captação de aminoácidos pelo tecido mamário é intensificada, de modo que o metabolismo proteico assume um papel importante tanto na síntese de proteínas do leite como na manutenção das funções metabólicas e hormonais (Trottier et al., 1997).

Contudo, a mobilização excessiva de proteína corporal está associada a prejuízos na produção e na composição do leite, além de comprometer os resultados reprodutivos subsequentes das porcas (Muro et al., 2023). Apesar de seu potencial como variável preditora do desempenho das matrizes, ainda são escassos os estudos que definem limites ideais de PL.  

Em teoria, fêmeas com maiores reservas corporais no início da lactação dispõem de maior capacidade de mobilização energética, sustentando altos níveis de produção leiteira (Costermans et al., 2020). Thongkhuy et al. (2020) demonstraram que o aumento de 1 mm de espessura de gordura durante a gestação resultou em um incremento de 271 g/dia na síntese de leite nos dez primeiros dias de lactação.

Outros autores também relataram maior teor de gordura no leite de porcas com maior ET ao parto, repercutindo em maior peso dos leitões ao desmame e maior ganho de peso diário da leitegada (Amdi et al., 2013; Muro et al., 2023). Tal resultado pode ser atribuído tanto à fatores atuantes no período gestacional, quanto ao maior percentual de gordura total no leite e ao seu perfil mais insaturado, refletindo a composição do tecido adiposo materno (Amdi et al., 2013). 

A importância de ter reservas suficientes de ET já está bem estabelecida, bem como os prejuízos do excesso de espessura de gordura dorsal. Fêmeas consideradas obesas têm um aumento da exigência energética de manutenção (Costermans et al., 2020), redução do consumo voluntário de ração (Thongkhuy et al., 2020) e substituição do tecido mamário por gordura (Muro et al., 2023). 

Como consequência, têm-se uma diminuição dos recursos disponíveis e queda no desempenho lactacional desses animais (Costermans et al., 2020). Uma ET exacerbada também tem sido associada ao aumento da ocorrência de distocias, redução da taxa de ovulação subsequente e aumento do intervalo desmame-estro (Schenkel et al., 2010; De Bettio et al., 2016; Thongkhuy et al., 2020).

Além disso, fêmeas gordas apresentam maior mobilização de reservas corporais durante a lactação, refletida em perdas acentuadas de ET, também prejudicial ao desempenho subsequente, uma vez que está associado ao aumento de leitões natimortos e redução do tamanho da próxima leitegada (Schenkel et al., 2010, Dumniem et al., 2025).  

Em contrapartida, porcas com uma condição corporal abaixo do ideal, consideradas magras, apresentam reservas corporais insuficientes para atender às elevadas exigências energéticas do período lactacional, resultando em menor produção de leite e maior mortalidade neonatal (Zhou et al., 2018; Muro et al., 2023). Thongkhuy et al. (2020) demonstraram que uma baixa espessura de toucinho ao final da gestação (ET = 11,5 ± 1,1 mm, aos 109 dias) pode comprometer o desenvolvimento adequado da glândula mamária, resultando em reduções significativas na produção média de leite, que podem atingir até 19% em comparação a fêmeas em condição corporal adequada ao parto (King, 2000). 

A mobilização de reservas corporais, bem como a dieta, também influenciam a composição do leite (Costermans et al., 2020). A síntese dos principais componentes do leite tem início nas semanas finais de gestação e se estende por toda a lactação (Thongkhuy et al., 2020), refletindo as características do tecido mobilizado em relação à proporção de gordura e proteínas (Costermans et al., 2020). 

Nos estágios iniciais do período lactacional, a produção de leite e sua composição estão mais associados às reservas corporais acumuladas pelas matrizes ao longo da gestação do que ao nível de ingestão alimentar (King, 2000). À medida que a lactação avança, os substratos utilizados para a síntese passam a depender tanto do consumo de ração quanto da mobilização de reservas (Thongkhuy et al., 2020).

Dessa forma, restrições no consumo de alimento ou mobilização excessiva de tecidos resultam não apenas em redução do volume total de leite produzido, mas também nos teores de proteína e gordura do leite, comprometendo o crescimento dos leitões (Costermans et al., 2020). O leite apresenta, em média, 18,2% de sólidos totais, sendo aproximadamente 6,4% de gordura, 5,9% de lactose e 5,1% de proteína total (Klobasa et al., 1987).  

No que se refere ao perfil lipídico do leite, Amdi et al. (2013) demonstraram diferenças qualitativas associadas à condição corporal das fêmeas. De forma comparativa entre as categorias avaliadas experimentalmente aos 110 dias de gestação, fêmeas magras (ET = 14,4 mm) produziram leite com menor teor de gordura total e maior proporção de ácidos graxos saturados, enquanto porcas gordas (ET = 19,0 mm) apresentaram um perfil lipídico mais insaturado (Amdi et al., 2013).

Essas diferenças refletem a origem da gordura utilizada na síntese láctea, uma vez que porcas magras dependem predominantemente da dieta como fonte lipídica, ao passo que fêmeas gordas utilizam uma combinação de fontes exógenas e endógenas, por meio da mobilização do tecido adiposo (Amdi et al., 2013).

Considerando a dependência do metabolismo neonatal em relação à gordura como principal fonte de energia (Metzler-Zebeli, 2021) e limitada capacidade digestiva dos leitões para esse tipo de molécula (Gu e Li, 2003), um leite com maior proporção de ácidos graxos insaturados favorece o aproveitamento energético e crescimento inicial da leitegada, em função de sua maior digestibilidade (Gu e Li, 2003; Amdi et al., 2013; Muro et al., 2023). 

Portanto, a condição corporal configura-se como fator central na determinação do desempenho lactacional das fêmeas suínas, influenciando diretamente o volume e composição do leite produzido. Ao longo da lactação, a mobilização de reservas corporais, associadas ao consumo alimentar, modula a síntese láctea e reflete o estado nutricional e metabólico das fêmeas, bem como sua capacidade de atender às exigências nutricionais da leitegada.

Leitões de porcas que iniciam a lactação em condição corporal adequada apresentam melhor desempenho, com efeitos que se estendem da fase pré-desmame ao tempo de abate, além de um melhor desempenho reprodutivo nos ciclos subsequentes. Assim, estratégias de manejo nutricional que assegurem uma condição corporal compatível com as elevadas   são essenciais para otimizar a produção e a composição do leite e maximizar o desempenho da leitegada. 

 Referências bibliográficas: 

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