Do registro às quarentenas: cinco decisões que moldaram a suinocultura gaúcha
A suinocultura gaúcha não virou referência por acaso. Em entrevista à suínoBrasil o ex-presidente da ABCS José Adão Braun organiza a memória do setor como uma sequência de decisões encadeadas – cada uma empurrando a seguinte
O efeito combinado foi a passagem de um sistema fragmentado para outro, com governança mais clara, genética padronizada e controles sanitários robustos.
“Foi um aprendizado contínuo; quando uma engrenagem entrou, a próxima ficou inevitável”, resume.
Registro genealógico: fim da adivinhação
Segundo Braun, a virada começou no papel, com o registro genealógico. Em vez de apostar no “bom de olho”, granjas passaram a documentar origem e desempenho. O registro deu base objetiva à seleção, reduziu heterogeneidade e melhorou previsibilidade de lote.
“Sem registro não há conversa séria sobre genética”, afirma Braun.
O ganho imediato foi a redução de ruído na ponta: decisões técnicas passaram a apoiar-se em dado e histórico, não em percepção.
Profissionalização de dentro para fora
Com o registro, veio a necessidade de organização. Sede própria, equipe técnica e processos transformaram a Associação em instituição com agenda. Padronizar rotinas e atendimento ao produtor qualificou o diálogo com frigoríficos e poder público, segundo nos conta o ex-presidente.
“Quando a casa está em ordem, a pauta chega com outra legitimidade”, diz Braun.
Segundo ele, a arrumação interna elevou a capacidade de influir nas negociações e de responder a crises.
Capilaridade e foco no território
A criação da entidade estadual separou papéis: a nacional manteve a coordenação de cúpula; a gaúcha assumiu o chão do estado, conhecendo mapa de granjas, demandas locais e urgências sanitárias.
O desenho deu capilaridade, encurtou resposta e organizou pressão em agendas de preço, abastecimento e infraestrutura.
“O que é do RS fica com quem pisa no RS”, sintetiza.
A criação da associação foi um marco para a suinocultura gaúcha.
Escala e novo equilíbrio de forças
Na sequência, a integração reposicionou a cadeia. Frigoríficos e grupos de genética internalizaram parte das decisões técnicas e financeiras, oferecendo previsibilidade de alojamento e abate em troca de desempenho e padronização.
“Praticamente acabou o produtor independente de reprodutores”, observa Braun.
A conversa no campo mudou: autonomia cedeu lugar à gestão de eficiência – conversão, mortalidade, ambiência e bem-estar passaram a definir metas, bônus e renovação de contrato.
Sanidade como passaporte
O susto de um surto inicialmente tratado como peste suína africana – depois descartado – deixou lição permanente.
“Antes não precisava tanta quarentena; hoje, o controle é muito grande”, diz Braun.
O objetivo é simples e estratégico: reduzir o risco de introdução de patógenos e preservar a reputação sanitária que sustenta mercados e crédito.
O que falta fazer
A linha do tempo aponta para uma agenda de continuidade:
- Reforço de capacitação da mão de obra,
- Uso consistente de dados de lote para negociação com integradoras,
- Atualização constante de biossegurança.
O protagonismo do produtor migrou do “dono do reprodutor” para o gestor de eficiência. Quem dominar essa linguagem técnica tende a ganhar poder de barganha dentro do sistema.
Estação Quarentenária de Cananéia (EQC): parceria público-privada que sustenta a biossegurança da genética suína (QR Code para o vídeo https://abegs.com.br/diferencial-sanitario/estacao-quarentenaria-de-cananeia/ )
A unidade de suínos passou a operar nesse formato a partir de 2014 e, desde 2015, entrou em rota de modernização e ampliação por meio de uma parceria público-privada entre MAPA, ABEGS e ABCS. O protocolo de intenções firmado em 2015 viabilizou reformas e ampliações; um novo acordo de cooperação em 2020 sustentou a etapa seguinte, com entregas inauguradas em 2021, aumentando a capacidade e reduzindo filas para a renovação genética das granjas.
O isolamento geográfico de Cananéia e o controle rigoroso de acesso, exames e rastreabilidade sustentam o papel da EQC como “filtro sanitário” da genética suína importada no país.
Registro: da memória ao desempenho
Para José Adão Braun, ouvido pela suínoBrasil, o registro genealógico tirou a seleção de suínos do “bom de olho” e levou previsibilidade ao lote. Ao documentar origem e desempenho, as granjas reduziram heterogeneidade e ganharam base para decisões que vão da genética ao manejo.
“Sem registro não há conversa séria sobre genética”, diz. A partir dali, outras engrenagens ficaram inevitáveis – estrutura, integração e, mais tarde, as quarentenas que blindam o rebanho.
