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Especial 75 anos: Os marcos que transformaram a suinocultura na Castrolanda

A história da suinocultura na Castrolanda é, acima de tudo, uma história de transformação. Ao longo de mais de 60 anos, a forma de produzir, gerir e comercializar suínos na cooperativa passou por uma sucessão de mudanças técnicas e institucionais que explicam como uma produção inicialmente paralela a outras atividades agropecuárias, se consolidou como uma cadeia especializada, tecnificada e integrada à indústria.

A produção de suínos foi uma prática existente desde o início da colônia Castrolanda, porém, como atividade complementar à produção da bovinocultura leiteira e a agricultura dentro das propriedades. Em 1966, a suinocultura começou a ganhar força comercial, impulsionada pela então Cooperativa Central de Laticínios do Paraná (CCLPL), formada pelas cooperativas Batavo (hoje Frísia), Capal e Castrolanda.

A CCLPL trouxe apoio para o desenvolvimento da atividade através da contratação dos primeiros técnicos, formando uma comissão central. Naquele período, a produção média era de 131 toneladas por ano.

Mauro Cezar de Faria, Gerente Executivo de Negócios Pecuária da Castrolanda, explica que “quando existia a central, a venda era da cooperativa. Ela era sócia da central e a produção de suínos daqui seguia para o frigorífico da central”.

O cooperado Roelof Rabbers, suinocultor há cerca de 50 anos, acompanhou a atividade desde o início.

“Eu comecei com a suinocultura quando meu tio tinha importado criadeiras da Holanda, no final dos anos 50. Ele gostava muito e eu morava bem próximo dele, achava uma atividade bonita. Nós chegamos a trocar duas novilhas por cinco criadeiras novas. A gente começou a criar solto, meu pai tinha um barracão. Chegamos a ter 80, 100 matrizes soltas na década de 70”, relembra.

A suinocultura era conduzida em sistema de ciclo completo, modelo em que a mesma propriedade concentra todas as etapas da produção: reprodução, maternidade, creche e terminação.

Em 1973, Roelof Rabbers conta que participou de uma viagem técnica ao Rio Grande do Sul e a Santa Catarina, incentivada pelo governo estadual, para conhecer sistemas mais avançados de produção.

“Fomos para ver como a suinocultura estava se desenvolvendo. Passamos por Chapecó e lá já tinha inseminação, frigorífico forte, empresas estruturadas como Aurora, Sadia e Perdigão. Foi ali que a gente começou a ver como a atividade ia evoluir”, recorda Roelof.

Dois anos depois, em 1975, o avanço da Castrolanda e o crescimento do número de produtores integrados ao quadro social ampliaram a presença da cooperativa nas comunidades de Castro e Piraí do Sul. A partir deste crescimento, a Castrolanda foi levada à indústria da transformação, unindo-se à Batavo (hoje Frísia) e Capal, na criação da Cooperativa Central Agropecuária Campos Gerais (Coopersul), para promover esmagamento de soja. Nesse contexto, registros contidos no livro comemorativo de 70 anos da Castrolanda, apontam que pequenos e médios produtores de suínos passaram a ter acesso as melhores tecnologias da época, especialmente em Piraí do Sul.

 

Já em 1978, a estruturação técnica ganhou um novo marco com a oficialização da granja demonstrativa, do Centro de Treinamento para Pecuaristas (CTP), instalada na Fazenda Capão do Cipó, em Castro. Inicialmente voltado à bovinocultura de leite, o centro diversificou sua atuação e passou a oferecer formação prática também em suinocultura, além de outras cadeias agropecuárias, ampliando o conhecimento técnico para produtores da região.

Neste mesmo ano, Roelof reflete sobre um breve período de dificuldade na produção, por conta da chamada Peste Suína Africana, que exigiu adaptação dos produtores.

“Nos anos 76, 78, começou alguns altos e baixos, de repente veio a praga suíno-africana, que dificultou as coisas. Mas fomos superando e evoluindo, construímos uma maternidade, tudo lá chácara do meu pai, até 1983, que eu iniciei a atividade sozinho aqui na propriedade”, explica.

Em 1998, encerrou-se a atuação da Cooperativa Central de Laticínios do Paraná como cooperativa. A estrutura passou a funcionar como holding das cooperativas singulares, Castrolanda, Batavo (hoje Frísia) e Capal, além da empresa de capital, Batávia S/A e associadas, Parmalat Brasil e Central Agromilk. Dessa forma, a holding foi nomeada como Batávia S/A. Para os produtores de suínos, no entanto, as mudanças mais significativas viriam nos anos seguintes.

Em fevereiro de 2000, a Batávia S/A foi desmembrada. A área de carnes (aves e suínos) teve 51% de suas ações adquiridas pela Perdigão Agroindustrial S/A. Em março de 2001, a Perdigão adquiriu os 49% restantes e passou a controlar integralmente a operação.

Segundo Mauro, esse período marcou uma transição no modelo de comercialização na Castrolanda.

“Depois da venda da Batávia S/A, uma parte dos suínos era vendida para a Perdigão, outra parte para a Sadia e outra seguia para o mercado spot, que era o mercado livre. Em seguida, a Sadia saiu daqui da região e a Perdigão deixou de ser um comprador nosso, ela tinha o processo dela de integração. Então nós passamos a atuar somente no mercado livre com a venda de suínos”, explica.

Posteriormente, a venda foi concentrada em um pool de suínos entre Castrolanda, Batavo (hoje Frísia) e Capal.

Quando Lurdenis Aparecida Valenga ingressou na Castrolanda, em 2001, esse era o cenário encontrado.

“Nós não tínhamos um sistema 100% implementado na estrutura administrativa para ter um controle dentro das propriedades. Cada produtor dizia o que tinha disponível, e a gente precisava compilar essas informações para saber o que existia para comercializar”, relembra a Supervisora Administrativa da área de suínos.

Segundo ela, esse período marcou o início da implantação de sistemas internos para consolidar informações das granjas e dar previsibilidade comercial à produção.

“Foi quando começamos a colocar um sistema para que eles lançassem todos os dados. Foi uma quebra de paradigma. Quando o produtor passou a lançar cobertura, parto, nascidos, desmamados, ele começou a enxergar a granja com números e ver que isso gerava ganhos para ele”, destaca Lurdenis.

Em maio de 2005, a Castrolanda inaugurou, em Castro, a primeira Unidade Produtora de Leitões (UPL), criada para modernizar o setor e garantir maior controle sanitário. O modelo representou uma mudança estrutural no sistema produtivo.

Até então, predominava o ciclo completo. Com a UPL, uma parte da produção passou a ser segmentada: a cooperativa concentrou as etapas de reprodução, gestação, maternidade e produção de leitões, enquanto os cooperados passaram a receber os animais para a fase de terminação.

Lurdenis identifica esse momento como o principal ponto de evolução da atividade.

“Quando a UPL começou, a Castrolanda passou a estruturar de fato o setor de suinocultura. Foi ali que começamos a ter assistência técnica própria, que até então era terceirizada”, afirma.

Segundo Mauro, esse foi o 1° movimento mais estratégico da cooperativa dentro da cadeia.

“O ponto mais importante foi quando a Castrolanda assumiu a parte mais sensível do processo, que é a produção de leitões. É onde o investimento é mais alto e a necessidade de mão de obra especializada é maior”, explica.

Em 2012, tiveram início as obras de terraplanagem para a construção do frigorífico de suínos no Distrito Industrial I, em Castro. Três anos depois, em outubro de 2015, Castrolanda, Frísia e Capal, em um movimento de intercooperação, lançaram a marca Alegra, junto da Unidade Industrial de Carnes.

A inauguração da unidade consolidou também uma nova etapa da suinocultura na Castrolanda, a industrial, agregando escala, previsibilidade e inserção em mercados internacionais.

Em setembro de 2019, foi inaugurada, em Piraí do Sul, a segunda Unidade Produtora de Leitões (UPL II), estruturada dentro das normas nacionais de bem-estar animal e voltada à integração entre manejo, sanidade e nutrição.

Em 2023, a marca Alegra foi adquirida pela Aurora Coop, tornando a Castrolanda uma cooperativa associada. A partir desse movimento, a cooperativa passou a operar vinculada ao sistema da Aurora em Castro, com participação de 50% no abate da Aurora no Paraná.

Esta associação representou uma nova mudança para a atividade: a redução da exposição ao mercado spot e a entrada em um ambiente de maior previsibilidade comercial.

“Com o sistema Aurora hoje, esse impacto fica diluído, já que se trata de um sistema muito grande, com menor exposição à mudança de preços”, pontua Lurdenis.

Para Mauro, esse foi o segundo grande marco estrutural da história da atividade.

“O primeiro foi assumir a produção de leitões. O segundo foi se associar a maior cooperativa de produção de suínos do Brasil. E para isso, foram feitos investimentos para suportar esse crescimento”, resume.

Hoje, a suinocultura da Castrolanda opera majoritariamente em sistema segmentado, com 4 UPLs próprias. As UPLs concentram a produção de leitões, que são entregues aos cooperados após serem descrechados, para a fase de terminação, onde permanecem até atingirem entre 120 e 130kg.

Com as UPLs sendo unidades especializadas, os leitões passaram a ter uma origem única e específica, além de idades padronizadas dentro da mesma estrutura. O resultado foi ganho em uniformidade e redução de risco sanitário.

Roelof viveu essa mudança na prática. Há dois anos, deixou o ciclo completo e passou a operar apenas com terminação.

“Antes tudo acontecia aqui. Tinha leitão pequeno, suíno grande. Hoje vem lote padronizado, tudo do mesmo tamanho, mesma idade, ração padronizada. Isso é importante principalmente na sanidade”, relata. Segundo ele, a mudança reduziu a variabilidade dentro da granja e tornou o manejo mais eficiente. “Quando você separa as fases, melhora o ambiente e melhora o desempenho. A suinocultura moderna vai para isso”, reflete.

De acordo com Euler Philipp Schwanz Kiefer, Coordenador de Produção de Suinocultura Castrolanda, a mudança permite uma gestão completa da performance de produção. Hoje a assistência acompanha o lote do começo ao fim. Não é só corrigir questões na propriedade, é monitorado todo manejo, sanidade, ambiência, estrutura e desempenho para garantir padrão produtivo.

Euler explica que o acompanhamento ocorre por checklist técnico e análise de conformidade nas propriedades, com foco em biosseguridade, estrutura e aderência aos padrões exigidos.

Sistemas automatizados de alimentação, por exemplo, permitem entregar volumes exatos de ração por matriz ou lote, o que reduz desperdício e melhora a conversão alimentar. Já o controle de ambiência, com temperatura, ventilação e aquecimento ajustados, auxilia na redução de estresse, melhora o bem-estar e impacta diretamente o desempenho do suíno.

Essa evolução também pode ser vista através dos números. Em 2025, foram produzidas mais de 48 mil toneladas de suínos e comercializadas mais de 380 mil cabeças.

A história da suinocultura na Castrolanda continua. Ela é construída diariamente por pessoas dedicadas a buscar o melhor da cadeia produtiva, que traçam um futuro sempre em direção ao crescimento sustentável.

 

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