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Especialista da MSD Saúde Animal desmistifica o uso de vacinas combinadas na suinocultura

Em um cenário onde a eficiência produtiva e o bem-estar animal são indissociáveis, as vacinas combinadas (multivalentes) consolidam-se como ferramentas estratégicas na suinocultura moderna. Elas reduzem o número de aplicações, o tempo de manejo e o estresse animal, além de facilitar a adesão aos programas vacinais nas granjas. No entanto, a adoção plena dessa tecnologia, que já une tripla proteção em um único frasco, ainda enfrenta barreiras culturais e desinformação técnica sobre sua eficácia e segurança.

De acordo com a médica-veterinária Isis Pasian, coordenadora técnica da unidade de negócio de Suinocultura da MSD Saúde Animal, as vacinas combinadas ainda geram dúvidas e percepções equivocadas justamente por reunirem diferentes antígenos em uma única formulação. São questões associadas à eficácia, segurança, ocorrência de reações e à duração da imunidade conferida.

“É comum encontrar afirmações generalizadas que não consideram os princípios básicos da imunologia, as características específicas de cada patógeno ou as evidências científicas que embasam o desenvolvimento e o licenciamento desses produtos”, explica.

Para clarificar as informações sobre as vacinas combinadas, a profissional separou os principais mitos sobre o tema. Acompanhe:

Vacina combinada e vacina conjugada são sinônimos
Nada disso! Vacinas combinadas ou multivalentes contém, em um único produto, vários antígenos na mesma formulação. Um exemplo é a recém-lançada vacina Circumvent® CML, da MSD Saúde Animal, que combina a proteção para Circovírus Suíno Tipo 2, Mycoplasma hyopneumoniae e Lawsonia intracellularis. É a primeira e única vacina que protege contra três dos principais causadores de doenças em suínos com uma única injeção.

Já vacinas conjugadas são desenvolvidas para melhorar a resposta imunológica contra antígenos que, sozinhos, estimulam pouco o sistema imune, como alguns polissacarídeos bacterianos. Para isso, esses antígenos são ligados a uma proteína carreadora, permitindo a ativação de uma resposta imune dependente de células T e a formação de memória imunológica.

Ou seja, são criadas para ajudar o organismo a reconhecer ameaças que normalmente gerariam uma resposta fraca, induzindo uma defesa mais eficaz e duradoura. Um exemplo clássico em humanos é a vacina conjugada contra Haemophilus influenzae tipo b (Hib), amplamente utilizada em programas de imunização infantil.

Apesar de serem eficientes, não existem atualmente vacinas conjugadas utilizadas comercialmente em larga escala na suinocultura.

Vacina combinada ‘sobrecarrega’ o sistema imune
Mito! Desde o nascimento, o leitão é naturalmente exposto à microbiota intestinal, aos antígenos ambientais e aos patógenos respiratórios e entéricos. Essa exposição ocorre sem colapso do sistema imune, o que já demonstra capacidade de resposta a múltiplos estímulos antigênicos em paralelo.

Não há evidência de que a administração simultânea de múltiplos antígenos, com equilíbrio de quantidade e potência, como o que ocorre nas vacinas comerciais registradas, cause ‘sobrecarga’ ou resulte em falta de proteção. O ponto crítico é seguir bula/diretrizes do fabricante.

Vacinas combinadas são sempre mais reatogênicas (causam mais reações)
Não é bem assim! A reatogenicidade não é determinada simplesmente pelo “número de antígenos”, mas, sim, por um conjunto de fatores, como formulação, adjuvante, via de aplicação, dose, tecnologia e características do animal. Em um estudo em humanos que comparou uma vacina pentavalente combinada (DTaP5 IPV Hib; Pentacel) versus a administração separada das vacinas equivalentes licenciadas (DTaP5, IPV e Hib), a vacina combinada apresentou reações similares ou menores em comparação ao esquema separado*. Existem várias vacinas combinadas comerciais em suínos com reações leves e transitórias, conforme mostra estudos de campo**.

4. Diferentes vacinas comerciais misturadas em um único frasco, no momento da aplicação na granja, resultam em uma vacina combinada

De jeito nenhum! Misturar diferentes vacinas comerciais em um mesmo frasco não caracteriza uma vacina combinada válida. Uma vacina combinada é um produto que foi desenvolvido, formulado, testado e registrado como uma única vacina. Isso significa que todos os seus antígenos, adjuvantes, conservantes e excipientes foram estudados em conjunto, com avaliação formal de estabilidade físico química, segurança, imunogenicidade e eficácia do produto final. Já a mistura de vacinas comerciais no campo resulta em uma formulação não testada, sem garantia de estabilidade, segurança ou eficácia.

Diferenças de pH, por exemplo, podem levar à desnaturação de antígenos; adjuvantes distintos, especialmente quando se combinam formulações oleosas com não oleosas, podem interferir na liberação do antígeno e aumentar a reatogenicidade local; e conservantes ou excipientes podem tornar se incompatíveis entre si.

Vacina combinada protege igual para todos os componentes e por tempo idêntico
Informação errada! Uma vacina combinada reúne antígenos diferentes, muitas vezes de natureza biológica distinta (bactérias, vírus, toxoides), e cada um deles induz um tipo próprio de resposta imune. Por isso, não existe uma “duração de imunidade única” para uma vacina combinada. A duração da imunidade deve ser analisada antígeno por antígeno, conforme exigido por órgãos regulatórios veterinários.

A combinação de agentes em uma única vacina é uma tecnologia nova e que ainda não foi totalmente validada
Mito! Vacinas combinadas existem há décadas em humanos (ex.: DTP desde a década de 1940) e são amplamente utilizadas e validadas também na medicina veterinária, com evidência experimental e documentação regulatória. Exemplos usados em larga escala na suinocultura industrial são as combinações contra Erisipela, Parvovirose e Leptospirose e, mais recentemente, a combinação contra Circovírus Suíno Tipo 2, Mycoplasma hyopneumoniae e Lawsonia intracellularis.

“Nesse contexto, avaliando todos esses pontos, separar mitos de verdades é fundamental para que médicos-veterinários e produtores possam tomar decisões mais informadas, utilizar as vacinas combinadas de forma estratégica e maximizar seus benefícios dentro dos programas de saúde do rebanho”, afirma Isis.

Quanto às verdades sobre essas formulações, a médica-veterinária destaca que:

Vacinas combinadas reduzem o número de manejos e injeções, otimizando o custo-benefício para o produtor
Vacinas combinadas ajudam porque juntam a proteção contra várias doenças em uma única aplicação, reduzindo o número de injeções e de vezes que o animal precisa ser manejado. Com menos manejo, o suíno sofre menos estresse, o trabalho fica mais eficiente e diminui o risco de erro na vacinação. Para o produtor, isso significa economia de tempo, mão de obra, seringas e agulhas. Além disso, protocolos mais simples facilitam a execução correta na granja, melhoram o controle das doenças e ajudam a garantir melhor desempenho dos animais, aumentando o retorno do investimento ao final do lote.

Vacinas combinadas contribuem para a redução do uso de antimicrobianos
Ao controlar simultaneamente múltiplos agentes, as vacinas combinadas reduzem a incidência de doenças clínicas, diminuem tratamentos terapêuticos e apoiam estratégias de uso racional de antibióticos.

A vacinação é reconhecida como ferramenta essencial para redução do impacto sanitário das doenças infecciosas e melhoria da sustentabilidade da produção suína.

 

*(Guerra et al., 2009)

** (Yan et al., 2025, Tassis et al., 2025, Allen et al., 2025)

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