Formular dietas para suínos passou a envolver geopolítica de ingredientes, logística e margem. Essa foi a leitura que atravessou a palestra de Vitor Hugo Cardoso Moita, da ADM Nutrição Animal, durante a 36ª Reunião Anual do CBNA, ao comparar diferentes mercados e mostrar que a nutrição suína não pode ser analisada apenas pela matriz nutricional ou pelo custo da ração. Segundo o palestrante, disponibilidade de milho e soja, dependência de importação, exportação de grãos, uso de DDGS, acesso a aminoácidos industriais, infraestrutura, controle de qualidade, bonificação e capacidade de execução alteram a formulação possível em cada região.
Em vez de defender uma dieta padrão para Brasil, Estados Unidos, União Europeia ou Ásia, Moita mostrou que cada mercado formula dentro de um conjunto próprio de restrições e oportunidades. De acordo com a apresentação, a alimentação representa geralmente de 60% a 70% do custo de produção suína no Brasil, patamar que torna a dieta decisiva para a competitividade.
Mas o ponto central não foi repetir que a ração mais barata nem sempre é a melhor. A mensagem mais sofisticada foi a de que: a formulação precisa responder ao sistema produtivo, ao suprimento disponível, à logística e ao modelo de remuneração de cada mercado.
Milho e soja não significam a mesma coisa em todos os mercados
Os dados apresentados por Moita ajudam a entender por que a disponibilidade de grãos não se traduz automaticamente em vantagem nutricional. Na safra 2025/26 mostrada nos slides, os Estados Unidos apareciam com 401,3 milhões de toneladas de milho produzidas e 68,6 milhões de toneladas exportadas, enquanto o Brasil aparecia com 130 milhões de toneladas produzidas e 44 milhões exportadas.
Na soja, o Brasil aparecia com 175 milhões de toneladas produzidas e 112 milhões exportadas, enquanto os Estados Unidos apareciam com 118,1 milhões de toneladas produzidas e 49,4 milhões exportadas.Segundo a leitura do palestrante, esses números precisam ser interpretados junto com esmagamento, mercado interno, frete, armazenagem, região produtora e destino da produção.
- No caso da União Europeia, Moita apresentou um cenário de dependência estrutural de proteína importada, com produção de soja muito menor. Já a China foi citada como exemplo de mercado fortemente dependente de importação, com 112 milhões de toneladas de soja importadas em 2025/26, mas com vantagem estratégica no acesso a aminoácidos industriais e aditivos.
DDGS mostra que ingrediente disponível não é ingrediente simples
O DDGS foi um dos exemplos mais claros de que o valor de um ingrediente depende do mercado em que ele está inserido. Segundo Moita, nos Estados Unidos o coproduto tem histórico, escala e previsibilidade suficientes para funcionar quase como uma commodity interna em determinadas regiões e sistemas. O palestrante relatou experiência com inclusão de até 30% de DDGS em ração inicial 2 de creche naquele contexto.
No Brasil, a leitura apresentada foi mais cautelosa. De acordo com Moita, o DDGS ainda não é uma realidade ampla para a suinocultura brasileira por desafios de micotoxinas, armazenamento, escoamento, consistência, controle de qualidade e disponibilidade regional. O mesmo ingrediente que pode ajudar a reduzir custo em um mercado pode ampliar risco em outro quando matriz nutricional, logística e análise não estão suficientemente controladas.
Sistemas nutricionais dependem de dados, não só de conceito
A palestra também mostrou que precisão nutricional não nasce apenas da adoção de conceitos mais avançados. Moita comparou energia metabolizável e energia líquida, além de aminoácidos digestíveis padronizados e fósforo digestível. Segundo o palestrante, a energia líquida pode permitir formulação mais precisa, especialmente quando há variação de fibra, gordura e coprodutos, mas depende de dados consistentes, análises laboratoriais, matrizes confiáveis e padronização de processo.
- Na mesma linha, os slides indicaram que aminoácidos digestíveis padronizados reduzem distorções provocadas por perdas endógenas e que o STTD para fósforo aproxima a avaliação da fração realmente aproveitada pelo suíno. Na avaliação de Moita, porém, esses sistemas só geram valor quando a cadeia consegue medir e executar. Ele citou o exemplo de um sistema com 120 mil matrizes que ainda não utilizava energia líquida em 2024, mesmo dispondo de NIR, justamente pela dificuldade de padronização de dados.
Brasil performa, mas margem depende da conta completa
Um dos pontos mais fortes da comparação internacional foi a posição brasileira. Nos slides, o Brasil apareceu com média de 37,84 desmamados por fêmea por ano, acima dos Estados Unidos, da União Europeia e da Ásia no recorte apresentado. O dado foi usado por Moita para mostrar que o país tem desempenho técnico relevante, apesar de gargalos de clima, logística, sanidade, variabilidade de insumos e heterogeneidade de sistemas.
- Ao mesmo tempo, o palestrante mostrou que custo de produção e preço pago precisam ser avaliados em conjunto. No quadro apresentado em dólares, o Brasil aparecia com preço pago de US$ 1,08/kg, custo médio de US$ 1,29/kg e spread negativo de US$ 0,21/kg. Os Estados Unidos apareciam com spread positivo de US$ 0,13/kg, a União Europeia com spread negativo de US$ 0,18/kg e a Ásia/China com spread positivo de US$ 0,49/kg. Moita ressaltou que as bases usadas não eram totalmente idênticas, por isso o dado deve ser entendido como comparação indicativa apresentada na palestra, não como ranking definitivo.
Mercado também formula a dieta
Na parte final, Moita mostrou que programas de mercado, como No Antibiotics Ever e Antibiotic-Free, também redefinem a formulação. Segundo o palestrante, esses sistemas podem exigir dietas mais robustas, maior atenção a saúde intestinal, uso de aditivos funcionais, redução de proteína bruta, fibras, sanidade, manejo e biosseguridade. Ele citou experiência em que esse tipo de criação podia agregar de 30% a 40% de valor na gôndola no mercado norte-americano, usando o bacon como exemplo, mas também ressaltou que o modelo aumenta complexidade técnica e desafios aos animais.
A mensagem final para a suinocultura é que a formulação deixou de ser uma decisão isolada do nutricionista. Ela passou a depender da geografia do milho e da soja, da infraestrutura de cada mercado, do acesso a aminoácidos, da validação de enzimas, da qualidade dos coprodutos, do tipo de remuneração, do programa comercial e da capacidade real de execução. Segundo Moita, a decisão nutricional precisa ser técnica, econômica e executável. É nessa intersecção que a margem se define.
