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Leitegadas cada vez maiores: ate onde pode chegar o potencial da fêmea suína?

Por Guilherme Brant

Nos últimos anos, a suinocultura tem acompanhado resultados reprodutivos que, até pouco tempo, pareciam distantes da realidade das granjas: Partos com números recordes de leitões e leitegadas extremamente numerosas têm chamado a atenção do setor.  

A evolução é inegável. O complexo de fatores como o avanço genético, associado ao aprimoramento dos manejos reprodutivos, nutricionais, sanitários, os investimentos em melhores instalações e o fator importante da gestão direcionada, dentre outros permitiu que as fêmeas expressassem uma capacidade de produção de leitões cada vez maior. 

Mas resultados excepcionais também precisam ser analisados com cuidado. Afinal, a suinocultura não produz leitões apenas para aumentar números. O objetivo é transformar potencial reprodutivo em viabilidade, desempenho e resultado econômico. 

Quando tudo funciona ao mesmo tempo 

Na rotina da produção, estamos acostumados a investigar problemas. Quando a taxa de parto cai, as perdas aumentam ou o número de nascidos fica abaixo do esperado, buscamos as causas e estabelecemos planos de ação. Mas o raciocínio também deveria ser aplicado aos resultados extraordinários. 

Quando uma fêmea apresenta uma leitegada excepcionalmente numerosa, dificilmente existe uma única explicação. É muito mais provável que estejamos diante de uma combinação de fatores que funcionaram de maneira adequada e, principalmente, simultaneamente. A genética é um deles. 

A seleção de linhagens cada vez mais prolíficas elevou o potencial de ovulação e, consequentemente, o número de leitões que uma fêmea pode produzir. Mas possuir esse potencial genético não significa, necessariamente, expressá-lo. Entre a ovulação e o nascimento existe uma longa sequência de eventos. 

A fêmea precisa apresentar boa fertilização, baixa mortalidade embrionária, baixa perda fetal e condições adequadas para manter os fetos durante toda a gestação. Cada uma dessas etapas contribui para o resultado final. 

Por isso, uma leitegada excepcional pode ser entendida como um momento em que diversas peças do sistema se encaixaram perfeitamente. 

O resultado começa muito antes do parto 

Quando observamos uma leitegada muito numerosa, é natural direcionarmos nossa atenção para a maternidade. No entanto, aquele resultado começou a ser construído muito antes. 

A qualidade do sêmen, a coleta, a preparação das doses, o transporte, a conservação e o manejo da inseminação são fundamentais para o desempenho reprodutivo. 

A nutrição também ocupa papel central. A fêmea precisa receber nutrientes em quantidade e qualidade adequadas para cada etapa do ciclo produtivo. A qualidade das matérias-primas, o consumo de ração e a disponibilidade de água são fatores básicos, mas determinantes. Um ponto fundamental nesta equação é a preparação da leitoa, futura matriz que deverá além de finalizar sua fase de puberdade, também ser capaz de expressar todo seu potencial e ter uma taxa de retenção otimizada nos plantei. 

Da mesma forma a sanidade tem um papel fundamental. Uma fêmea que atravessa a gestação em boas condições sanitárias tem maiores possibilidades de expressar seu potencial. 

Também fazem parte dessa equação os manejos diários, o acompanhamento individual das fêmeas, os registros, a movimentação dos animais, a transferência para a maternidade e a preparação para o parto. E existe um elemento que conecta tudo isso: as pessoas. 

Resultados reprodutivos excepcionais também são resultado de uma equipe treinada, capaz de identificar alterações, executar protocolos e tomar decisões no momento correto. 

Já conhecemos o limite? 

A evolução da prolificidade naturalmente levanta outra questão: será que já chegamos ao limite? Provavelmente, ainda não sabemos. 

Durante muito tempo, a capacidade uterina foi apontada como um dos principais fatores limitantes para o número de fetos que uma fêmea poderia manter. E, de fato, continua sendo uma questão central. Mas a evolução genética tem mostrado que os limites podem ser continuamente deslocados. 

A cada geração, observamos fêmeas com maior capacidade reprodutiva. Os resultados extraordinários registrados recentemente reforçam a percepção de que ainda podemos estar conhecendo apenas uma parte do potencial da fêmea moderna. Isso não significa, entretanto, que devemos buscar simplesmente números cada vez maiores. A pergunta mais importante talvez seja outra: o que fazemos com todo esse potencial? 

Mais leitões não significa automaticamente mais eficiência 

Esse é o principal ponto de atenção quando discutimos hiperprolificidade. 

Uma leitegada numerosa é, sem dúvida, um excelente resultado reprodutivo. Porém, o número de nascidos vivos é apenas o primeiro indicador de uma longa trajetória. 

Ao longo dos anos, as leitegadas se tornaram maiores. Ao mesmo tempo, observamos uma redução no peso individual dos leitões. Isso significa que aumentar a quantidade de animais por leitegada pode vir acompanhado de novos desafios relacionados ao peso ao nascimento, capacidade de sobrevivência e especialmente uniformidade em fases específicas de desmame e mais importante ainda no peso final de abate. Por isso, não podemos avaliar uma fêmea apenas pelo número de leitões que ela consegue produzir. 

Precisamos acompanhar o que acontece depois. Quantos leitões chegam ao desmame? Com qual peso? Qual é a uniformidade da leitegada? Como esses animais desempenham na creche e na terminação? Quantos chegam ao abate dentro do padrão esperado? 

Essas respostas são fundamentais para entender se a hiperprolificidade realmente se converteu em eficiência. 

O desafio da viabilidade 

Quanto maior a leitegada, maior também é o desafio de garantir condições adequadas para todos os leitões. 

A assistência ao parto passa a ter importância ainda maior. O fornecimento de colostro, o acompanhamento das primeiras horas de vida, o acesso ao leite e os cuidados com os animais menores são fundamentais. Não basta nascer. É preciso sobreviver, desenvolver-se e apresentar desempenho. 

Esse conceito é particularmente importante em um cenário de hiperprolificidade. A genética pode entregar um número extraordinário de leitões, mas o sistema de produção precisa estar preparado para transformar esse potencial em animais de qualidade. 

É por isso que a evolução do setor deve ser conjunta, a genética “puxando” o potencial e os demais fatores sendo ajustados para permitir esta real expressão. 

O próximo passo da hiperprolificidade 

Os resultados reprodutivos extraordinários que estamos observando devem, sim, ser comemorados. Eles representam anos de evolução genética, conhecimento técnico e melhoria dos sistemas de produção e gestão. Mas também devem servir como ponto de partida para uma nova reflexão. 

O futuro da suinocultura não está baseado simplesmente em produzir cada vez mais leitões por parto. O verdadeiro desafio é encontrar o equilíbrio entre prolificidade, viabilidade, uniformidade, desempenho e retorno econômico. E este é um tema a ser discutido individualmente em cada granja (ou sistema), cada um com suas particularidades.  

A genética continuará avançando. Os números provavelmente continuarão surpreendendo. E aquilo que hoje parece excepcional pode se tornar parte da realidade das granjas no futuro. 

O verdadeiro avanço acontece quando conseguimos transformar maior potencial reprodutivo em mais suínos viáveis e uniformes ao abate. Maior desempenho e eficiência e maior retorno financeiro para toda a cadeia.  

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