Impactos de diarreia neonatal na produção de suínos
A diarreia neonatal representa um dos principais problemas sanitários da suinocultura, afetando diretamente o desempenho zootécnico e o aumento de custos de produção, causando assim perdas econômicas.
Alguns estudos têm associam a ocorrência da diarreia neonatal ao:
- Aumento da taxa de mortalidade
- Redução da eficiência alimentar
- Atraso no desenvolvimento dos leitões e
- Maior predisposição à diarreia pós-desmame (Dewey et al., 1995, Calderaro et al., 2001, Lippke et al., 2011, Monteagudo et al., 2022)
A causa de diarreia neonatal é multifatorial, envolvendo a interação entres:
- Fatores ambientais
- Falhas no manejo sanitário e
- Presença de patógenos que encontram condições favoráveis à sua proliferação
A gravidade do caso clínico (morbidade e mortalidade) varia nas granjas conforme a virulência do agente, sua resistência aos tratamentos, a imunidade do hospedeiro e os fatores de riscos, como estresse, variações de temperatura do ambiente, limpeza e desinfecção inadequada das instalações (ausência ou redução do descanso das instalações – vazio sanitário), além da dificuldade do acesso ao colostro e ao leite materno (Dewey et al., 1995, Calderaro et al., 2001, Lippke et al., 2011).
Diversos agentes entéricos podem estar envolvidos na sua etiologia, incluindo bactérias, vírus e protozoários. Os principais patógenos relacionados com diarreia em suínos são:
- Escherichia coli enterotoxigênica (ETEC)
- Clostridium perfringens tipo A ou C
- Clostridioides difficile
- Rotavírus A, B, C e H
- Sapovirus e
- Cystoisospora suis (Dewey et al., 1995, Calderaro et al., 2001, Lippke et al., 2011, Monteagudo et al., 2022).
Considerando-se que as diarreias causam sérios prejuízos econômicos, este artigo tem como objetivo discutir os principais agentes envolvidos, os impactos produtivos dessas enfermidades, bem como estratégias de prevenção e controle.
A compreensão desses fatores é fundamental para otimizar o manejo sanitário e manter a sustentabilidade econômica do sistema de produção.
Colibacilose é uma doença entérica frequente em leitões, causada por ETEC, cocobacilo Gram-negativo, que acomete principalmente leitões na primeira semana de vida.
Causa uma alta incidência de infecção e mortalidade em neonatos, principalmente nas primeiras 24 de vida.
Os sinais clínicos envolvem diarreia liquida amarelada, desidratação e região perineal úmida e avermelhada.
O pH das fezes diarreicas é alcalino (acima de 8,0), por se tratar de uma diarreia secretória.
Sua ocorrência pode ser reduzida com programas de vacinação de matrizes, utilizando sorotipos circulantes específicos da granja, e colostragem eficazes, além de bom manejo sanitário das instalações (boa higienização – lavagem e desinfecção), seguidos do descanso das instalações por pelo menos 36 horas (Duan et al., 2011, Barros et al., 2023).
Clostridioides difficile é um bacilo Gram-positivo que produz esporos relevante, cuja patogenicidade decorre da produção das toxinas A e B, responsáveis por colite fibrinonecrótica e edema de mesocólon.
Seu aparecimento pode estar associado a alterações na microbiota intestinal provocadas pelo uso antimicrobianos preventivos no primeiro dia de vida
A mortalidade associada a esse agente é baixa, mas animais afetados tem menor ganho de peso e, consequentemente, menor peso ao desmame.
Clostridium perfringens tipos C e A acomete nos primeiros dias de vida, podendo o tipo A afetar até na segunda semana de vida.
No caso da diarreia por. C. perfringens tipo C, apresenta-se inicialmente liquida amarelada mais pode conter vestígios de sangue. À medida que a infecção evolui, as fezes tornam-se avermelhadas em decorrência do sangramento intestinal intenso.
A vacinação de porcas gestantes com toxoide de C. perfringens tipo C é a principal forma de prevenção da doença, considerando que o agente é ubíquo e os esporos extremamente resistentes (Chan et al., 2013).
A maior dificuldade nos casos de diarreia por C. perfringens tipo A é a certeza no diagnóstico já que o agente é altamente prevalente na microbiota intestinal de leitões, e não existe marcador ou teste diagnóstico que consiga distinguir cepas patogênicas de não patogênicas (Cruz Jr et al. 2013).
Entre os vírus, no Brasil, Rotavírus é o agente a causar diarreia neonatal. Os grupos A, B e C são amplamente reconhecidos como importantes patógenos entéricos (Molinari et al., 2016, Miyabe et al., 2020), mas o tipo H já foi demonstrado e caracterizado como patogênicos no Brasil (Molinari et al, 2014).
O grupo C, em particular, tem se tornado mais prevalente em surtos recentes e não está contemplado nas vacinas comerciais utilizadas no Brasil, o que pode contribuir para sua disseminação (Monteagudo et al., 2022).
Além disso, o tipo C também tem sido associado a surtos de diarreia em leitões de creche. Apresenta alta morbidade e mortalidade variável, acometendo principalmente leitões na primeira semana de vida.
Os leitões afetados manifestam diarreia liquida amarela ou esbranquiçada, acompanhada de desidratação e prostração, evoluindo em alguns casos para a morte A (Molinari et al., 2016, Miyabe et al., 2020).
Outro agente viral de relevância associado à diarreia neonatal é o Sapovírus (SaV), pertencente à família Caliciviridae. Esse agente tem se destacado como causa emergente de diarreia neonatal em suínos frequente em rebanhos nos EUA.
No Brasil, o vírus já foi identificado em animais assintomáticos (Nagai et al., 2020, Hochheim et al., 2021), bem como associados a diarreia (Campos et al, 2025).
Para o diagnóstico desse agente faz-se necessário a detecção de lesões histológicas semelhantes as causadas por Rotavírus, na ausência desse último, e grande quantidade de Sapovírus no qPCR (Aljets et al, 2025).
A coccidiose é uma doença intestinal comum em leitões, causadas por protozoários que incluem os gêneros Cystoisospora e Eimeria sp. Os casos associados a esse último são raros.
A mortalidade associada à coccidiose é baixa, e as maiores perdas econômicas estão relacionadas a redução no ganho de peso dos leitões infectados (Mundt et al., 2006, Joachim et al., 2018).
Porém, o sistema de produção e o status sanitário/higiênico nas granjas podem ter um impacto diferente na prevalência de infecção por coccidiose em leitões.
Cystoisospora é o principal coccidio a acometer principalmente leitões de 5 a 15 dias de vida, que vão apresentar diarreia liquida a pastosa amarelada a acinzentada (Mundt et al., 2006, Joachim et al., 2018).
Os anticoccídios a base de Toltrazuril são efetivos contra C. suis, devido a sua capacidade de matar os diferentes estágios de coccidia, entretanto, seu uso isolado não é capaz de controlar o problema, sendo fundamental a redução da pressão de infecção ambiental.
Dessa forma, é extremamente importante a limpeza e desinfecção do ambiente, seguido do descanso das instalações por pelo menos 36 horas, para a prevenção/controle mais efetivos.
A utilização de cal-hidratada, bem diluída, ajuda na dissecação e diminuição da sobrevida do oocisto no ambiente.
Bons programas de controle de coccidiose e diarreias neonatais envolvem limpeza completa para remoção de toda matéria orgânica, secagem do ambiente antes do uso de desinfectantes e descanso das instalações (Joachim et al., 2018).
Pensando em programas de controle integrados, principalmente para agentes bacterianos e virais, a vacinação de matrizes gestantes com biológicos contendo as estirpes circulantes na granja e a adequada colostragem são fundamentais.
Os impactos produtivos e econômicos devido a ocorrência de diarreia na fase neonatal são significativos, resultando em redução do ganho corporal e piora de conversão alimentar.
Isso ocorre porque os leitões afetados não mamam adequadamente, além de apresentarem desidratação em decorrência a diarreia e lesão na mucosa intestinal.
Esses fatores geram impactos diretos e também consequências indiretas, que afetam a rentabilidade da granja (Dewey et al., 1995, Calderaro et al., 2001, Lippke et al., 2011, Arruda et al., 2013, Monteagudo et al., 2022).
As doenças entéricas continuam sendo um dos principais entraves para a eficiência produtiva na suinocultura.
