A suinocultura brasileira avançou em produção, exportações e participação global nos últimos anos, mas a competitividade da cadeia depende de uma conta cada vez mais sensível a custo, câmbio, produtividade, sanidade e estrutura produtiva. A leitura foi apresentada por Marcelo Miele, da Embrapa Suínos e Aves, durante o painel “Retorno do Investimento na Nutrição”, realizado na manhã de 13 de maio, na 36ª Reunião Anual do CBNA.
Segundo os dados apresentados pelo pesquisador, entre 2020 e 2025 a produção brasileira de suínos cresceu 30%, enquanto as exportações avançaram 46%. No mesmo período, a participação global do Brasil saiu de 9% para 17%, o país passou da quarta para a terceira posição e o consumo per capita aumentou 17%. Os números mostram uma cadeia em expansão, mas a palestra de Miele deixou claro que esse avanço não pode ser interpretado apenas como resultado de desempenho zootécnico ou disponibilidade de grãos.
Crescimento exige leitura de margem
Ao tratar da competitividade, Miele trabalhou a ideia de “competitividade revelada”: a força de uma cadeia aparece nos indicadores de produção, exportação, consumo e participação internacional, mas esses resultados são sustentados por uma base de custos, produtividade, organização produtiva e condições econômicas que precisam ser analisadas em conjunto.
- Na suinocultura, essa leitura é especialmente relevante porque a alimentação continua sendo o principal componente de custo, mas não atua sozinha. Segundo o pesquisador, a competitividade também é afetada por câmbio, juros, preço recebido pelo animal, produtividade da mão de obra, custos fixos, estrutura das granjas, integração, cooperativismo e diferenças regionais na disponibilidade de insumos.
O recorte apresentado para a suinocultura mostrou que a vantagem brasileira não é uniforme dentro do próprio país. No comparativo de 2024 exibido na palestra, Mato Grosso apareceu com custo de produção de R$ 4,45/kg vivo, abaixo de Santa Catarina, que foi apresentada com R$ 5,98/kg vivo. Em slide específico sobre Santa Catarina, o custo de 2026 chegou a R$ 6,38/kg vivo, com a ração representando aproximadamente 71,3% do total.
Mato Grosso e Santa Catarina mostram modelos diferentes
A diferença entre Mato Grosso e Santa Catarina foi um dos pontos mais fortes da apresentação para a suinocultura. De acordo com a leitura de Miele, a competitividade do Mato Grosso está associada sobretudo a preços de ração, produtividade, custos fixos, salários e relação entre salários e produtividade. Ao mesmo tempo, fatores como preço recebido pelo animal e produtividade da mão de obra podem alterar a vantagem relativa.
- Santa Catarina, por sua vez, aparece como um exemplo de competitividade que não depende apenas de custo alimentar. A estrutura produtiva, a organização da cadeia, a eficiência do sistema e a proximidade com modelos integrados e cooperativos também entram na análise. A mensagem é importante porque evita uma leitura simplista: produzir em região de grãos mais baratos ajuda, mas não resolve sozinho a equação de margem.
Miele também chamou atenção para a necessidade de interpretar custos por metodologias, anos e recortes específicos. Os números apresentados se referem a bases comparativas determinadas e não devem ser tratados como valores universais para toda a suinocultura brasileira. Ainda assim, eles ajudam a mostrar como a geografia produtiva e a composição de custos podem redefinir a competitividade dentro do país.
A ração pesa, mas outros custos avançam
A alimentação segue no centro da conta, mas a palestra indicou que a margem futura será pressionada por componentes que vão além da formulação. Entre os itens citados por Miele como custos com tendência de crescimento estão vacinas, biosseguridade, mão de obra contratada, capacitação, digitalização, automação, ambiência, geração de energia, manutenção, seguro, valorização de resíduos, certificação, rastreabilidade e adequação a mudanças normativas.
- Essa mudança de composição é decisiva para a tomada de decisão na suinocultura. Quando a ração representa parcela majoritária do custo, a nutrição continua sendo uma das principais ferramentas de competitividade. Mas, em um sistema mais caro e exposto a riscos sanitários, climáticos, regulatórios e geopolíticos, a dieta não pode ser analisada isoladamente. O menor custo de formulação pode não se converter em melhor margem se a cadeia perder eficiência em produtividade, sanidade, logística, mão de obra ou preço recebido.
Custos também interferem nos preços
Outro ponto central da apresentação foi a relação entre preços, custos e lucro. Miele mostrou que os custos não apenas reduzem margem; eles também podem influenciar preços quando afetam oferta, demanda e competitividade entre proteínas. Sanidade, inflação global, juros, câmbio, clima, biocombustíveis, geopolítica, pressão regulatória e inovação tecnológica foram citados como fatores capazes de alterar a equação econômica da produção animal.
Na prática, a competitividade da suinocultura brasileira passa a depender de uma capacidade maior de transformar dados de custo em decisão estratégica. A leitura defendida pelo pesquisador aponta para a necessidade de sair da porteira, construir cenários, avaliar impactos de tecnologias e choques de oferta ou demanda, e envolver stakeholders na preparação e discussão dos resultados.
A palestra deixou uma mensagem particularmente relevante para produtores, cooperativas, agroindústrias e fornecedores: a suinocultura brasileira cresceu e ganhou espaço internacional, mas a preservação da margem dependerá cada vez menos de uma única variável. Custo da ração, produtividade, câmbio, preço recebido, estrutura regional, sanidade e eficiência operacional compõem a mesma conta. E, nessa conta, competitividade não é um atributo garantido; é uma construção permanente.
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