A biosseguridade foi um dos temas em destaque durante o 21º Congresso Nacional da ABRAVES. Na palestra “Biosseguridade eficiente: um caminho longo, árduo e contínuo a ser perseguido”, o médico-veterinário e consultor Maurício Dutra chamou a atenção para a necessidade de fortalecer as práticas de prevenção dentro das granjas como estratégia para melhorar a sanidade dos rebanhos e reduzir o uso de antimicrobianos.
Em uma entrevista concedida a diretora da Agrinews Brasil, Priscila Beck, no estúdio Agriplay, o consultor defendeu uma abordagem baseada em prevenção, monitoramento e melhoria contínua dos processos. Segundo ele, embora a biosseguridade seja um tema amplamente discutido há anos pela cadeia produtiva, ainda existem oportunidades importantes de evolução dentro das granjas brasileiras
O Brasil tem uma condição sanitária privilegiada. Então, por que a biosseguridade ainda preocupa os especialistas?
Na entrevista, Dutra lembrou que, em 2014, durante um congresso internacional da suinocultura realizado no México, foram listadas as oito principais enfermidades que afetam a produção de suínos no mundo. Segundo ele, países como China e Vietnã convivem com todas essas enfermidades, enquanto a Rússia enfrenta sete delas. O Brasil, por sua vez, apresenta apenas quatro.
Para o consultor, essa condição sanitária mais favorável é uma grande vantagem competitiva para a suinocultura nacional, mas também exige atenção permanente.
“Temos uma condição sanitária muito mais tranquila quando comparada a outros mercados. Acho que é por isso que muitas vezes não se dá a devida atenção à implementação das ações de biosseguridade”, observou.
O primeiro passo não é agir. É medir.
Quando questionado sobre os primeiros passos para corrigir falhas recorrentes em uma granja, Dutra foi direto: é preciso medir.
A mensuração dos processos representa o ponto de partida para qualquer programa de melhoria. Atualmente existem diferentes ferramentas, checklists e sistemas disponíveis para avaliar o nível de biosseguridade das propriedades e identificar pontos críticos que precisam ser corrigidos.
Biosseguridade também se constrói com pessoas
Além da avaliação das estruturas e dos procedimentos, o especialista destacou a importância da formação das equipes. Para ele, a construção de uma cultura de biosseguridade depende diretamente da capacidade de orientar os colaboradores e estabelecer processos claros dentro da granja.
Dutra chamou atenção para a ausência, em muitas propriedades, de procedimentos operacionais padronizados capazes de orientar novos funcionários sobre práticas corretas e incorretas.
“Se eu não instruo bem o colaborador, se eu não informo o que é o correto e o que está errado, como vou evoluir na cultura de biosseguridade?”, questionou.
A biosseguridade deve ser encarada tanto sob o aspecto externo, voltado à prevenção da entrada de doenças, quanto sob o aspecto interno, relacionado à redução da disseminação de agentes infecciosos dentro do próprio sistema produtivo. Para isso, é fundamental que os principais riscos estejam claramente identificados e documentados.
Auditoria não é fiscalização. É gestão.
Outro ponto destacado durante a entrevista foi a necessidade de monitorar continuamente a execução dos protocolos adotados. Dutra explicou que a utilização de auditorias e checklists não deve ser vista como uma forma de fiscalização, mas sim como uma ferramenta de melhoria contínua.
Um dos exemplos apresentados foi o acompanhamento dos processos de limpeza e desinfecção das instalações. Após a saída dos animais e a realização dos procedimentos de higienização, é possível utilizar análises microbiológicas para avaliar a eficiência do trabalho realizado.
Nessas situações, a falha detectada serve como um alerta para possíveis impactos futuros sobre a saúde dos animais.
“Se eu já tenho essa falha, a expectativa é que eu vou ter um pouco mais de problema, seja em diarreia, seja em artrites em leitões” , explicou.
A adoção de indicadores objetivos, segundo Dutra, torna a biosseguridade mais palpável para as equipes e facilita a compreensão dos resultados esperados.
O básico bem-feito ainda é o melhor seguro
Ao abordar os chamados pontos cegos da biosseguridade, como transporte, manejo de resíduos e outros processos operacionais, o consultor lembrou que o Brasil já dispõe de um programa de biosseguridade mínima desenvolvido pela Embrapa.
Esse conjunto de recomendações estabelece condições básicas que devem estar presentes nas propriedades, incluindo barreiras sanitárias, cercamento das granjas, embarcadouros adequados e medidas para evitar o contato com animais silvestres.
Os estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Distrito Federal já transformaram essas exigências em obrigatoriedades para os produtores.
O especialista defendeu a ampliação dessas medidas para todo o território nacional, especialmente diante do momento positivo vivido pela suinocultura brasileira.
“Estamos vivendo um momento muito positivo da suinocultura. Se uma dessas enfermidades exóticas entrar no nosso país, milhões e milhões de faturamento serão comprometidos”, alertou.
Agir antes da crise chegar
Durante sua apresentação, Dutra também reforçou a importância de uma postura proativa diante dos riscos sanitários. Em vez de esperar a chegada de novas enfermidades para agir, o setor deve investir continuamente em prevenção.
Ele citou exemplos como a PRRS e a PED, doenças que ainda não estão presentes no Brasil, mas que já afetam países vizinhos. Além disso, destacou desafios sanitários que vêm aumentando dentro do próprio país, incluindo problemas associados a diferentes agentes infecciosos.
Menos antibióticos, mais prevenção
A relação entre biosseguridade e uso de antimicrobianos foi outro tema central da entrevista conduzida por Priscila.
Estudos já demonstraram que granjas com melhores índices de biosseguridade tendem a utilizar menos antibióticos e apresentar melhores resultados produtivos.
Para o consultor, a redução sustentável dos antimicrobianos acontece à medida que os sistemas produtivos conseguem diminuir sua dependência dessas ferramentas por meio da melhoria dos demais processos.
A mudança começa de cima
Essa mudança, no entanto, exige comprometimento de toda a organização.
Dutra acredita que os resultados aparecem de forma mais rápida quando a liderança das empresas assume a biosseguridade como prioridade estratégica.
“Isso funciona melhor quando começa a vir de cima, quando a direção da empresa entende que isso é importante”, destacou.
O antibiótico não pode ser a resposta para tudo
Ao comentar o debate sobre uso racional de antimicrobianos promovido durante o congresso, o especialista defendeu uma mudança cultural dentro do setor. Para ele, os antibióticos continuam sendo ferramentas importantes, mas não devem ser vistos como a principal solução para os desafios sanitários.
A suinocultura já apresenta exemplos positivos de redução gradual do uso desses produtos sem prejuízos aos resultados técnicos e econômicos.
Um exemplo citado foi a utilização preventiva de antibióticos em leitões recém-nascidos. Em um levantamento realizado em 2017, cerca de 72% das granjas avaliadas adotavam essa prática. Atualmente, segundo sua percepção de campo, esse percentual é muito menor.
Para o consultor, essa evolução demonstra que é possível avançar por meio da melhoria dos manejos, da capacitação das equipes e da adoção de medidas preventivas mais eficientes.
Um trabalho que nunca termina
A mensagem final é que a biosseguridade não deve ser encarada como uma ação pontual, mas como um processo contínuo. Um trabalho que exige monitoramento constante, comprometimento das equipes e atenção permanente aos riscos sanitários, mas que contribui diretamente para a sustentabilidade da produção e para o uso mais racional dos antimicrobianos.
