Não existe dose de rótulo para acidificar água, alerta Krabbe no SINSUI
Everton Luis Krabbe, da Embrapa Suínos e Aves, defendeu que a água deve ser tratada como nutriente e variável de gestão na suinocultura, com atenção a pH, alcalinidade, biofilme, ORP e variações ao longo do ano.
- A acidificação da água na granja não pode ser conduzida como se todas as fontes respondessem da mesma forma a uma dose fixa de produto. Esse foi um dos recados centrais de Everton Luis Krabbe, da Embrapa Suínos e Aves, durante o Simpósio SINSUI-ELANCO de Sanidade de Suínos, no SINSUI 2026.
Ao tratar a água como nutriente e variável de produção, Krabbe mostrou que o tema vai muito além da disponibilidade hídrica ou da contaminação microbiológica. Qualidade química, pH, alcalinidade, salinidade, minerais, potencial de oxirredução, biofilme e variabilidade ao longo do ano podem interferir na eficiência da granja, especialmente em sistemas que utilizam acidificação como ferramenta de manejo.
pH não é alcalinidade
Um dos pontos mais importantes da palestra foi a diferenciação entre pH e alcalinidade. Segundo Krabbe, alcalinidade não é pH. Ela indica a resistência da água à mudança de pH, influenciada pela presença de carbonatos e bicarbonatos. Na prática, duas águas com pH aparentemente semelhante podem exigir quantidades muito diferentes de ácido para atingir o mesmo objetivo.
Essa diferença derruba a lógica da dose única. A orientação apresentada pelo pesquisador foi que cada água precisa ser avaliada individualmente. Uma dose que funciona em uma propriedade pode falhar em outra. E, no mesmo ponto de coleta, uma dose eficiente em determinado mês pode não apresentar o mesmo resultado depois, porque a composição da água varia conforme fatores como precipitação, concentração de minerais e características da fonte.
A água muda, e a estratégia precisa mudar junto
Krabbe apresentou dados de monitoramento indicando variação do pH ao longo do tempo no mesmo local de coleta. Em um dos exemplos, a água variou de 6,2 a 8,4 entre meses diferentes. A mensagem é especialmente relevante para granjas que fazem acidificação: se a água muda, a estratégia de tratamento também precisa ser revista.
Na leitura apresentada, não basta aplicar produto e assumir que o sistema está controlado. A análise deve orientar a decisão. Filtragem, tratamento, flushing, limpeza de linhas, monitoramento de biofilme e avaliação recorrente da água passam a compor uma rotina técnica tão importante quanto outros indicadores já acompanhados na granja.
Biofilme desafia tratamentos simplificados
Outro ponto destacado foi o biofilme nas tubulações. Krabbe mostrou que depósitos minerais e matéria orgânica podem favorecer a formação de biofilme, criando ambiente de proteção para microrganismos e dificultando a ação de desinfetantes. A mensagem foi clara: cloro pode funcionar e é uma ferramenta acessível, mas sua eficiência depende de condições adequadas da água, da matéria orgânica presente, do pH e da limpeza do sistema.
Esse tema ganha peso porque a água atravessa digestão, consumo, saúde intestinal, desempenho, sanidade e sustentabilidade. Em leitões, que ainda passam por maturação digestiva, a qualidade química da água pode aumentar o desafio para acidificação gástrica e afetar o aproveitamento de nutrientes. Krabbe foi cuidadoso ao não transformar essa relação em causa única para problemas de creche, mas indicou que ela pode estar envolvida em muitos desafios observados no campo.
Da água invisível ao custo de produção
A palestra também colocou a água dentro de uma perspectiva econômica e ambiental. O pesquisador apontou discussões sobre cobrança pelo uso da água, maior atenção à pegada hídrica, possibilidade de captação de água da chuva e tecnologias de reuso associadas a dejetos, biogás e recuperação de nutrientes.
Para a suinocultura, o recado é direto: a água não pode permanecer como pano de fundo do sistema produtivo. Se interfere em digestão, sanidade, tratamento, custo e sustentabilidade, ela precisa entrar na gestão como insumo técnico. E, nesse cenário, a acidificação sem diagnóstico deixa de ser prática segura para se tornar um risco de decisão.
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