O USO DE FITOBIÓTICOS NA PRODUÇÃO DE SUÍNOS
José Paulo Hiroji Sato1, Gefferson Almeida Silva2, Jovan Sabadin2, Lucas Piroca2
1Dr. Bata Brazil, Chapecó-BR; 2Vetanco do Brasil, Chapecó-BR.
O uso de antibióticos na suinocultura, tanto para fins terapêuticos quanto como promotores de crescimento (APCs), foi amplamente difundido nas últimas décadas. No entanto, a crescente preocupação em relação à resistência antimicrobiana e os riscos associados à saúde pública levaram diversos países e organizações internacionais a restringirem ou proibirem o uso desses princípios ativos na produção animal (WHO, 2019; WOAH, 2024).
A União Europeia foi pioneira na restrição de antibióticos na suinocultura, banindo seu uso como promotores de crescimento em 2006 (European Commission, 2003).
Em 2022, reforçou essas medidas com o Regulamento (UE) 2019/6, que proíbe o uso profilático e restringe o metafilático de antimicrobianos (European Union, 2019), além de proibir o uso terapêutico de óxido de zinco na alimentação de leitões por razões ambientais e sanitárias (EMA, 2017).
No Brasil, o MAPA adotou restrições, como a proibição como promotores de crescimento da:
- Colistina
- Tilosina,
- Lincomicina e
- Tiamulina.
Essas restrições têm impulsionado a eliminação progressiva do uso preventivo de antibióticos na produção animal e estimulado a adoção de alternativas sustentáveis para promover a saúde e o desempenho dos suínos.
Entre os principais aditivos substitutivos, destacam-se os:
- Ácidos orgânicos
- Probióticos
- Prebióticos e
- Fitobióticos.
Os fitobióticos, compostos naturais derivados de plantas, têm sido uma alternativa promissora e multifuncional no controle de distúrbios entéricos e na promoção do crescimento (Pandey et al., 2023).
Fitobióticos na produção de suínos
Fitobióticos são compostos bioativos de origem vegetal, como óleos essenciais, extratos, ervas, especiarias ou seus componentes isolados, que são utilizados como aditivos alimentares em rações animais.
Embora ainda não haja uma padronização oficial, os fitobióticos são geralmente classificados com base na origem vegetal e nos métodos de extração:
- Ervas, que incluem plantas e flores;
- Especiarias, caracterizadas por seu aroma ou sabor intensos;
- Óleos essenciais, formados por compostos voláteis e lipofílicos; e
- Oleorresinas, obtidas por meio da extração com solventes não aquosos (Mohammadi Gheisar e Kim, 2018; Windisch et al., 2008).
Na Tabela 1, são descritos exemplos das respostas fisiológicas e produtivas observadas em suínos, de acordo com a classificação funcional dos fitobióticos.
Tabela 1 – Classificação dos fitobióticos e seus exemplos funcionais
em suínos.
As atividades funcionais dos fitobióticos estão relacionadas à presença de compostos bioativos como:
- Terpenoides
- Flavonoides
- Alcaloides,
- Fenóis
- Glicosídeos e
- Glucosinolatos (Ulrikh et al., 2018; Huyghebaert et al., 2011).
Apesar do reconhecimento de seus benefícios, os mecanismos de ação desses aditivos naturais ainda não estão totalmente elucidados, principalmente em razão da complexidade química e da ampla diversidade de metabólitos secundários presentes nas plantas (Pandey et al., 2023).
No entanto, sabe-se que eles exercem efeitos benéficos por meio de propriedades antimicrobianas, antioxidantes, anti-inflamatórias, imunomoduladoras e digestivas, contribuindo para a saúde intestinal e o desempenho produtivo dos animais (Pandey et al., 2023; Zeng et al., 2015).
Figura 1 – Principais efeitos dos fitobióticos nos sistemas de produção de suínos.
Efeitos antimicrobianos
Os fitobióticos exercem ação antimicrobiana por diferentes mecanismos, incluindo:
- Desestabilização da membrana celular bacteriana
- Inibição da síntese de parede celular, ácidos nucleicos ou proteínas (Valenzuela-Grijalva et al., 2017).
A maioria dos estudos demonstram que componentes fenólicos, como timol, carvacrol, limoneno, geraniol, fenilpropano e citronelal, estão entre os antimicrobianos mais potentes.
Um nutracêutico composto por tomilho (Thymus vulgaris), alfarroba (Ceratonia siliqua) e chicória (Cichorium intybus), demonstrou benefícios significativos em termos de atividade antimicrobiana contra isolados de Brachyspira hyodysenteriae. Em testes in vitro, o nutracêutico mostrou uma eficácia comparável, e em alguns casos superior, aos antimicrobianos tradicionais, como tiamulina, valnemulina, doxiciclina, lincomicina e tilosina (Daniel et al., 2017).
Propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias
As propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias dos fitobióticos desempenham um papel crucial na mitigação dos efeitos do estresse oxidativo ao qual os suínos estão frequentemente expostos. Esse estresse, desencadeado por fatores como o desmame, ambiência, manejo alimentar e a presença de micotoxinas na ração, leva ao desequilíbrio entre a produção e a eliminação de radicais livres (Hao et al., 2021).
Os mecanismos antioxidantes e anti-inflamatórios exibidos pelos fitobióticos são amplamente atribuídos à regulação das vias de sinalização, conforme destacado por Li et al. (2021).
A curcumina, composto ativo da cúrcuma, tem demonstrado efeitos positivos na suinocultura, pela potente ação anti-inflamatória no intestino delgado, auxiliando na proteção da mucosa intestinal (Bereswill et al., 2010).
Modulação da microbiota intestinal
Além do potencial de inibir bactérias patogênicas e desencadear uma série de respostas benéficas no hospedeiro, é descrito que o uso de fitobióticos promove a melhoria da microbiota intestinal benéfica, bem como as funções digestiva e imunológica (Li et al., 2021).
Estudos demonstraram que leitões alimentados com dietas contendo feno-grego (Trigonella foenum-graecum) apresentaram maior abundância de Lactobacillus e redução significativa de microrganismos potencialmente patogênicos, como Escherichia, Hafnia e Shigella, no intestino delgado (Zentek et al., 2013).
Os prebióticos, principalmente carboidratos complexos que são encontrados na semente de alfarroba (Ceratonia siliqua) e na chicória (Cichorium intybus), servem como substratos para a microbiota intestinal benéfica como Lactobacillus e Bifidobacterium, estimulando seletivamente o crescimento e a atividade de bactérias intestinais centrais específicas ou mais dominantes (Slavin, 2013; Gibson et al., 2017).
Melhorador de desempenho
A substituição dos antibióticos promotores de crescimento por fitobióticos é uma estratégia promissora para manter o desempenho zootécnico dos suínos, atuando na melhoria da ingestão, digestibilidade e integridade intestinal.
Segundo Valenzuela-Grijalva et al. (2017), os fitobióticos favorecem o crescimento por mecanismos como a melhora da palatabilidade da ração, estímulo à digestão e absorção de nutrientes.
De acordo com o estudo de Juhász et al. (2023), a suplementação da dieta de suínos em terminação com um aditivo composto por alfarroba (Ceratonia siliqua), chicória (Cichorium intybus) e feno-grego (Trigonella foenum-graecum), resultou em ganhos significativos de peso corporal (+1,8 kg em média por animal), aumento da porcentagem de carne magra na carcaça (de 57,2% para 59,5%) e maior frequência de carcaças classificadas como de alta qualidade.
Esses efeitos positivos estão associados não apenas às propriedades funcionais dos componentes vegetais, como inulina, taninos e polifenóis, mas também à sua capacidade de favorecer a fermentação sacarolítica e promover a saúde intestinal.
Considerações finais
Em um cenário de crescente restrição ao uso de antibióticos, os fitobióticos têm se consolidado como uma alternativa viável e segura na produção de suínos. Sua ampla gama de efeitos benéficos aliada à ausência de resíduos, os torna ferramentas estratégicas no manejo nutricional e sanitário, contribuindo para sistemas produtivos mais sustentáveis, eficientes e alinhados às exigências dos mercados consumidores e órgãos reguladores.
Utilizar fitobióticos deixou de ser uma possibilidade e passou a ser uma oportunidade para através da correta combinação dos melhores ativos alcançar distintos resultados, seja no controle de enfermidades, seja na melhoria dos parâmetros produtivos como promotor de crescimento natural.
- Referências bibliográficas
Sob consulta aos autores.
