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Parto prolongado, sobrevivência comprometida: evidências do impacto da cinética do parto sobre a asfixia neonatal

Escrito por: Bruno Bracco Donatelli Muro - Laboratório de Pesquisa em Suínos da FMVZ/USP , César Augusto Pospissil Garbossa , Erich Herzogenrath Cavaca Inácio - 1Departamento de Nutrição e Produção Animal, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – Universidade de São Paulo, Pirassununga – BR , Matheus Saliba Monteiro - Nerthus Pesquisa e Desenvolvimento, São Carlos, Brasil , Rafaella Fernandes Carnevale , Roberta Yukari Hoshino - Laboratório de Pesquisa em Suínos, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo, Pirassununga, Brasil

Parto prolongado, sobrevivência comprometida: evidências do impacto da cinética do parto sobre a asfixia neonatal

A hiperprolificidade é uma característica comum à maioria das linhagens comerciais de matrizes suínas modernas, podendo ser definida como a parição de uma leitegada maior do que o número de tetos funcionais de uma fêmea (Oliviero, 2022). Ela é utilizada há anos como um critério de seleção genética e levou a um aumento substancial no tamanho da leitegada, tendo como base a justificativa do aumento da produtividade e lucratividade da indústria.

No entanto, essa característica traz inúmeras consequências para as fêmeas e a sua progênie.

Dentre as consequências negativas relacionadas à hiperprolificidade em fêmeas suínas estão:

Esta última é uma consequência especialmente relevante para a indústria suinícola, já que os suínos detêm a maior taxa de mortalidade dentre as espécies domésticas (Quesnel et al., 2012). Parte dessas mortes é consequência do prolongamento do processo de parto, o que resulta em um maior intervalo cumulativo e relativo de nascimento.

O intervalo cumulativo de nascimento é o tempo decorrido entre o início do parto e o nascimento de determinado leitão, enquanto o intervalo relativo de nascimento corresponde ao tempo entre o nascimento de dois leitões consecutivos.

Embora seja conhecido que os últimos leitões estão mais sujeitos aos danos causados por partos prolongados (Langendijk et al., 2019), intervalos relativos maiores contribuem diretamente para o aumento dos intervalos cumulativos, o que eleva o risco de os leitões nascidos ao final do parto apresentarem redução da vitalidade ao nascimento.

Além de mobilizar uma grande quantidade do glicogênio disponível no organismo da fêmea (Carnevale et al., 2023), partos longos a submetem a um maior número de contrações uterinas, o que compromete o cordão umbilical por meio de compressões, danos e/ou rompimento desta estrutura (Langendijk et al., 2019).

Ocorrem então, sucessivas interrupções do fluxo sanguíneo materno-fetal, sujeitando os fetos à supressão do fornecimento de oxigênio, resultando em asfixia fetal.

Esse processo de asfixia fetal desencadeia a ativação do metabolismo anaeróbico, que é responsável pelo acúmulo de lactato (C₃H₅O₃⁻) e íons de hidrogênio (H⁺).

Quando o organismo é capaz de exercer o tamponamento, os íons H+ se associam ao bicarbonato sérico (HCO₃⁻) formando o ácido carbônico (H₂CO₃), cuja dissociação é responsável pela geração de gás carbônico (CO₂) e água (H₂O).

Em condições de equilíbrio metabólico, o dióxido de carbono (CO₂) produzido pelo metabolismo celular é excretado eficientemente por meio do cordão umbilical.

No entanto, quando ocorrem compressões recorrentes do cordão umbilical, como em casos de partos prolongados, a redução do suprimento de oxigênio estimula de forma acentuada o metabolismo anaeróbico, resultando em acúmulo de CO₂ e íons hidrogênio (H⁺).

Consequentemente, há maior consumo dos sistemas tamponantes, especialmente o bicarbonato (HCO₃⁻), contribuindo para o desequilíbrio acidobásico fetal (Bateman, 2008). Dessa forma o excesso de H⁺ leva a uma considerável diminuição no pH sanguíneo, constituindo o estado de acidose.

Este estado, por si só, traz inúmeros efeitos deletérios à vida do leitão, como danos teciduais, alterações circulatórias e hipotermia

Alguns sinais físicos da hipóxia fetal são notáveis logo após o nascimento, como as manchas de mecônio e a coloração cianótica das extremidades, desencadeadas pelos processos do relaxamento do esfíncter anal e redistribuição do sangue para órgãos vitais, respectivamente, que ocorrem durante a privação de oxigênio (Alonso-Spilsbury et al., 2005).

A expulsão de mecônio antes do nascimento aumenta o risco de sua aspiração pelos leitões, o que pode causar atelectasia alveolar e redução da capacidade de troca gasosa no pós-parto. Como consequência, esses leitões, que já sofreram estresse fetal, apresentam menor vitalidade nas primeiras horas de vida devido à hipóxia perinatal, além de maiores taxas de mortalidade.

Dessa forma, com o objetivo de elucidar o impacto de partos prolongados sobre os parâmetros metabólicos de leitões ao nascimento, bem como identificar leitões que nasceram com menor vitalidade e, consequentemente, em maior risco de mortalidade foi conduzido um estudo pela equipe do Laboratório de Pesquisa em Suínos da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (LPS – FMVZ/USP) e com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

O primeiro aspecto neste estudo foi usar uma escala denominada APGAR, que é uma das maneiras de quantificar a vitalidade neonatal (Alonso-Spilsbury et al., 2005). A vantagem da escala APGAR é que ela não é invasiva e pode ser adaptada para que colaboradores possam identificar leitões com maiores riscos de mortalidade já ao nascimento.

A escala APGAR foi desenvolvida originalmente para humanos e posteriormente adaptada a diversas espécies domésticas, incluindo os suínos, considerando suas particularidades fisiológicas (Langendijk et al., 2019). Conforme discutido anteriormente, o processo de asfixia fetal pode levar à liberação de mecônio e à redução da capacidade respiratória. Portanto essa escala visa avaliar isso através de cinco parâmetros:

  1.  Latência respiratória
  2. Frequência cardíaca
  3. Cor da pele do focinho
  4. Presença de manchas de mecônio na pele e
  5. Latência para se levantar

Leitões que demoram mais para iniciar a respiração, apresentam baixa frequência cardíaca, focinho pálido ou cianótico, manchas de mecônio e maior intervalo entre o nascimento e a tentativa de se levantar tendem a obter menores pontuações de APGAR, refletindo reduzida vitalidade neonatal.

A fim de validar a escala APGAR como um indicador dos parâmetros hemogasométricos dos leitões, o mesmo grupo de pesquisa também realizou coleta de sangue arterial umbilical dos leitões ao nascimento, encontrando associações positivas entre pH e o APGAR, sendo que leitões com piores índices de vitalidade e consequentemente menor pH apresentaram maiores taxas de mortalidade.

Ainda no mesmo estudo foi observado que o intervalo cumulativo exerceu maior influência sobre os parâmetros relacionados à vitalidade, mortalidade e ao equilíbrio ácido-base do que o intervalo relativo entre leitões nascidos. A importância do intervalo cumulativo para o aumento do risco de natimortos também é demonstrada por outros autores (Langendijk et al., 2018; Langendijk; Push, 2019), sendo os efeitos deletérios da asfixia relatados até mesmo sobre o desempenho de leitões com 10 semanas de idade (Langendijk et al., 2018).

Sabe-se também, como demonstrado por Friendship et al. (1990), que a maioria dos natimortos podem ser evitados, já que são vítimas do próprio processo de parto. Ainda, segundo Uddin et al. (2022), a duração do parto também interfere negativamente no consumo de colostro. Na espécie suína, este momento é essencial, já que representa o único momento em que o leitão receberá imunidade passiva da mãe, considerando que a sua placenta impede a transferência de imunoglobulinas maternas ao feto (Almeida; Dias, 2022).

Portanto, além de ser essencial reduzir a duração do parto para maximizar a vitalidade neonatal e diminuir a natimortalidade, é igualmente importante identificar os leitões que sofreram maior grau de asfixia durante o parto, possibilitando intervenções precoces.

Essa abordagem permite oferecer maior assistência ao consumo de colostro nas primeiras horas de vida, reduzir a mortalidade neonatal e, consequentemente, otimizar a produtividade e o bem-estar animal.

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