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Estreia do PorciForum consolida a força da suinocultura no SIAVS

REPORTAGEM ESPECIAL • SIAVS 2026

REDAÇÃO SUÍNOBRASIL

 

EVENTO: 6 DE AGOSTO DE 2026, DISTRITO ANHEMBI, SÃO PAULO 

A primeira edição do porciFÓRUM dentro do SIAVS 2026 transformou em êxito uma missão inédita confiada pela ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) à suínoBrasil. No auditório Celso Furtado, principal espaço técnico do evento, o porciFÓRUM reuniu alguns dos principais nomes da cadeia para discutir os desafios e as decisões que definirão o futuro da suinocultura. 

Ao longo da manhã, representantes da produção, indústria, pesquisa, entidades e serviço veterinário oficial discutiram dados de mercado, robustez produtiva, reprodução, diagnóstico, eficiência, redução do uso de antimicrobianos e defesa sanitária. O conjunto revelou uma cadeia que alcançou protagonismo mundial, mas que sabe que seu próximo salto exigirá decisões mais qualificadas. 

A validação institucional veio de forma direta. Ao interromper por alguns minutos a primeira palestra, o presidente da ABPA, Ricardo Santin, recordou que a realização do porciFÓRUM havia começado como um desafio feito à equipe da agriNews Brasil e reconheceu o resultado alcançado. 

“Obrigado a você que aceitou o desafio quando a gente chamou para trazer também o porciFÓRUM aqui (para o SIAVS)”, afirmou Ricardo Santin em seu discurso. “O porciFÓRUM já é uma realidade e sei que veio para ficar”, completou. 

Santin destacou que a nova programação fortaleceu o seminário que a ABCS (Associação Brasileira dos Criadores de Suínos) já realiza no SIAVS, ampliando as discussões técnicas destinadas à cadeia. Ao situar o Brasil como primeiro exportador mundial de carne de frango e terceiro de carne suína, lembrou que o protagonismo internacional depende de produção eficiente, informação de qualidade e espaços de discussão tecnológica. 

Um espaço construído com o setor 

Embaixador do porciFÓRUM José Antonio Ribas Júnior, Charli Ludtke, diretora técnica da ABCS e Priscila Beck, diretora da agriNews Brasil.

Embaixador do porciFÓRUM, José Antonio Ribas Júnior também dimensionou o significado da estreia. Para ele, realizar um evento técnico de suinocultura dentro do SIAVS é desafiador, mas permitiu começar a “firmar esse espaço” e discutir, em um momento decisivo para a atividade, os seus próximos passos. Diretor executivo de Agro e CIEX da Seara/JBS, Ribas observou que os fatores que conduziram o Brasil à condição de terceiro maior exportador mundial não bastarão, sozinhos, para sustentar a próxima etapa de crescimento. 

A diretora técnica da ABCS, Charli Ludtke, ressaltou o fortalecimento da presença da suinocultura no SIAVS e atribuiu esse avanço à união entre produtores, indústrias, consumidores, entidades e imprensa especializada. Também destacou o desafio contemporâneo de prender a atenção do público e selecionar assuntos que tenham impacto real sobre a atividade.

“Vocês estão de parabéns na construção deste painel, trazendo temas que realmente estão fazendo a diferença”, afirmou. 

Essa unidade não surgiu por acaso. A programação foi construída pela suínoBrasil em diálogo com as duas entidades nacionais diretamente envolvidas no evento e na representação da cadeia. 

“Desde o início, nossa preocupação foi construir uma programação com unidade editorial, conectada aos desafios que realmente estão mobilizando a suinocultura”, explica Natália Sitanaka, Coordenadora Técnica e Comercial da suínoBrasil. Segundo ela, o eixo das discussões foi alinhado com a ABPA, por meio de sua diretora técnica e coordenadora da Programação do SIAVS, Sula Alves, e com a ABCS, em uma articulação conduzida com sua diretora técnica, Charli Ludtke. 

“Não queríamos reunir palestras isoladas, mas estabelecer uma sequência capaz de percorrer mercado, eficiência produtiva, reprodução, diagnóstico e sanidade, mostrando como essas decisões se conectam dentro do sistema”, concluiu. 

Dados para enxergar o mercado como filme, não como fotografia 

A primeira discussão técnica já colocou em evidência uma das questões mais urgentes da cadeia: como tomar decisões em um mercado que muda rapidamente e cujo ciclo produtivo limita correções imediatas. Convidado a substituir o presidente da ABCS, Marcelo Lopes, Iuri Pinheiro Machado, consultor de mercado da entidade, apresentou a plataforma ABCS Data Insights. 

A ferramenta reúne, em um mesmo ambiente, dados oficiais sobre cotações, custos, exportações, abates, empregos, crédito, empresas e indicadores de mercado. Para Iuri, informação abundante não é sinônimo de inteligência. O valor está em conectar fontes, acompanhar séries históricas e interpretar movimentos.

“O mercado precisa ser analisado não como uma fotografia, mas como um filme”, resumiu. 

A lógica é especialmente relevante na suinocultura. Entre a inseminação de uma fêmea e a entrega dos animais decorrem aproximadamente dez meses. Esse fluxo contínuo dificulta respostas rápidas aos desequilíbrios de oferta, mas também oferece possibilidade de antecipação. Entre os próximos objetivos da plataforma está justamente o desenvolvimento de dados preditivos capazes de apoiar produtores, empresas e entidades antes que os movimentos se convertam em crises profundas. 

Ao analisar os números disponíveis, Iuri chamou atenção para o crescimento de quase 7% no peso das carcaças abatidas no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Segundo ele, a crise de preços discutida naquele momento não se originava do custo de produção, mas do avanço da oferta em ritmo superior à capacidade de absorção do mercado. A apresentação mostrou, na prática, como reunir dados permite substituir percepções isoladas por diagnósticos mais consistentes. 

Produzir mais não basta, o sistema precisa resistir 

A busca por eficiência avançou da leitura do mercado para dentro da granja. O professor Cesar Augusto Pospissil Garbossa, coordenador do Laboratório de Pesquisa em Suínos da FMVZ/USP (Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo), questionou a associação automática entre produtividade e resultado. 

A hiperprolificidade ampliou fortemente o número de leitões nascidos, mas também aumentou a competição intrauterina, a variabilidade de peso, a exigência metabólica sobre a matriz e a necessidade de tecnologias e manejos para sustentar os animais. Por isso, o indicador mais importante pode não ser um pico isolado, mas a quantidade de leitões viáveis produzidos ao longo da vida da fêmea e capazes de chegar ao frigorífico. 

Garbossa distinguiu produtividade, eficiência, robustez e resiliência. Um sistema robusto mantém desempenho diante de desafios; um sistema resiliente recupera-se rapidamente depois deles. Isso exige visão integrada de nutrição, ambiente, manejo e sanidade.

“Robustez não é um ingrediente da dieta”, advertiu.

Antes da busca por uma solução milagrosa, é necessário fazer bem o básico: garantir água, conforto térmico, biosseguridade, condição corporal e diagnóstico correto do problema. 

Magapor: a eficiência reprodutiva começa muito antes da granja 

Raquel Ausejo Marcos, representando a Magapor

Em uma das apresentações mais densas da manhã, Raquel Ausejo Marcos, gerente de Reprodução Suína da Magapor, ampliou a noção de eficiência reprodutiva. O resultado observado no parto não começa na granja nem no momento da inseminação. Ele é construído desde a definição da estratégia genética, a seleção e o manejo dos reprodutores, a produção da dose seminal e a preservação de sua qualidade até a correta aplicação no campo. 

Segundo Raquel, cada falha nesse percurso reduz uma eficiência que não poderá ser recuperada nas etapas seguintes. O macho reprodutor, embora muitas vezes receba menos atenção que a matriz, pode representar metade do potencial genético da granja e produzir milhares de descendentes. Isso torna os centros de inseminação pontos críticos de biosseguridade, qualidade e difusão genética. 

A especialista mostrou que a eficiência também depende do bem-estar. O estresse interfere no eixo hormonal, reduz o fluxo sanguíneo para os órgãos reprodutivos e pode comprometer a viabilidade do sêmen, a duração do parto e a capacidade leiteira posterior. Nos centros de inseminação, os efeitos alcançam motilidade, concentração e alterações espermáticas. Instalações adequadas e menor densidade de animais, portanto, não são apenas exigências éticas: participam diretamente do resultado reprodutivo. 

Outro eixo da apresentação foi a padronização. Sistemas de visão artificial já permitem analisar doses com maior precisão, reduzir o erro humano e aumentar a homogeneidade. Laboratórios centrais, por sua vez, podem receber material de diferentes unidades, concentrar especialistas e produzir doses sob processos uniformes. A qualidade dos insumos também é decisiva. Raquel apresentou evidências de que embalagens com componentes reprotóxicos podem provocar perdas expressivas de fertilidade e explicou que o diluente não é um simples veículo: precisa manter o potencial fértil do espermatozoide até a inseminação e favorecer a qualidade embrionária. 

A inseminação pós-cervical foi apresentada como uma das principais ferramentas para ampliar o uso dos melhores reprodutores sem comprometer os índices da granja. Ao permitir doses com menor concentração, a técnica reduz o número de machos necessários e aumenta a difusão do ganho genético. Mas Raquel fez uma ressalva essencial: reduzir concentração exige processos mais robustos, materiais de qualidade, conservação correta e equipes capazes de executar a técnica sem falhas. 

Para demonstrar o impacto sistêmico, ela apresentou o caso de uma empresa norte-americana que, ao implementar a inseminação pós-cervical, reduziu o plantel de 250 para 164 machos. A economia anual com reprodutores, vacinação, medicamentos e alimentação foi estimada em US$ 130 mil. A possibilidade de selecionar animais de maior índice genético teria acrescentado benefício próximo de US$ 600 mil, enquanto a redução do tempo empregado nas inseminações representou aproximadamente US$ 170 mil. Somados, os ganhos potenciais se aproximaram de US$ 1 milhão por ano. 

Raquel chamou essa conexão de “efeito dominó”: quando centro de inseminação e granja trabalham de forma coordenada, cada ejaculado avaliado, cada dose produzida e cada inseminação corretamente executada contribuem para gerar descendentes mais uniformes e robustos. “Quando a origem é excelente, o restante da cadeia tem muito mais chances de alcançar seu potencial máximo”, concluiu. 

250 para 164: redução do número de reprodutores no estudo de caso apresentado. 

US$ 130 mil/ano: economia estimada com machos, vacinas, medicamentos e alimentação. 

Quase US$ 600 mil/ano: benefício estimado associado ao avanço genético. 

US$ 170 mil/ano: ganho estimado com a redução do tempo de inseminação. 

Quase US$ 1 milhão/ano: benefício potencial total apresentado para a empresa analisada. 

Diagnóstico: reduzir incertezas antes de escolher o tratamento 

Se a reprodução mostrou que o resultado começa antes da granja, a palestra seguinte demonstrou que o diagnóstico também começa antes de a amostra chegar ao laboratório. Carlos Damián Segovia, responsável técnico pelo setor de Microbiologia do Centro de Diagnóstico de Sanidade Animal (CEDISA), partiu de uma pergunta provocativa: quantos tratamentos são realizados sem que se saiba exatamente o que está sendo tratado? 

Para Segovia, medicar deixou de ser apenas uma decisão técnica. A resistência antimicrobiana, as exigências de mercado e as perdas provocadas por escolhas equivocadas transformaram a precisão diagnóstica em fator de competitividade. Clínica, necropsia, histopatologia, PCR, microbiologia e antibiograma respondem a perguntas diferentes e devem ser combinados para eliminar incertezas. 

A escolha do animal, a coleta, a conservação e o tempo de envio interferem diretamente no resultado. Isolar uma bactéria, advertiu, não prova que ela seja a causa da doença. É necessário verificar lesões compatíveis e caracterizar fatores de virulência. Da mesma forma, o antibiograma não substitui o diagnóstico: apenas aponta qual molécula tem maior chance de funcionar caso aquela bactéria seja efetivamente responsável pelo quadro. A síntese foi direta: “O melhor antibiótico para a bactéria errada continua sendo o tratamento errado.” 

Eficiência dentro da porteira e reinvenção fora dela 

Ao ampliar o debate para a estratégia da cadeia, Ribas organizou sua análise em três dimensões: o que está sob controle dentro da propriedade, o que precisa ser enfrentado pelo Brasil e como o setor deve se posicionar em um comércio global cada vez mais complexo. 

Dentro da porteira, repetiu quatro vezes a palavra que considera o nome do jogo: eficiência. O Brasil já dispõe de ciência, genética, nutrição, manejo e conhecimento comparáveis aos melhores sistemas do mundo. O desafio é converter esse acervo em resultado em cada granja. “No final do dia, não há discurso que fique em pé se não gerar resultado”, afirmou. 

Fora da porteira, Ribas apontou como oportunidade estratégica a ampliação da presença da carne suína in natura, tanto no mercado doméstico quanto internacional, e superar a competição apenas como fornecedor de carcaças e commodities. O espaço aberto pela menor disponibilidade e pelo maior custo da carne bovina pode ser ocupado pela suinocultura, mas isso exigirá rever genética, nutrição, sistemas de criação, apresentação dos produtos e comunicação com o consumidor. 

A reinvenção também depende de gargalos nacionais. Ribas citou o custo do crédito, a complexidade tributária, as relações de trabalho e a dependência do transporte rodoviário. Segundo o executivo, apenas Santa Catarina movimenta cerca de R$ 7 bilhões em logística para trazer grãos e levar carne suína aos portos. Uma economia de 10% representaria R$ 700 milhões. Ao considerar os três estados do Sul, o potencial poderia chegar a R$ 2 bilhões por ano. 

Sua advertência final retomou o espírito do fórum: o setor não pode permanecer sentado sobre o sucesso que o trouxe até aqui. Parte da solução está na eficiência da propriedade; outra parte está na capacidade de cuidar de tudo o que acontece entre a porteira e a mesa do consumidor. 

Menos intervenção começa com um sistema mais forte 

A reta final conectou a experiência da indústria à responsabilidade sanitária de toda a cadeia. Isabella Lourenço, gerente executiva de Saúde Animal da MBRF, apresentou uma trajetória de quase sete anos voltada ao uso prudente de antimicrobianos. A empresa tornou sua produção de suínos livre de promotores de crescimento em 2019 e alcançou redução de 30% no uso de antibióticos administrados por água ou via injetável. 

O processo não se apoiou em uma simples retirada de medicamentos. Foram definidos indicadores, metas, prioridades, moléculas homologadas, programas vacinais e critérios de biosseguridade. Propriedades passaram a ser classificadas conforme o risco sanitário, permitindo direcionar ações aos pontos mais críticos. A pergunta central, para Isabella, não é se o setor deve eliminar antibióticos, mas por que determinados sistemas se tornaram tão dependentes deles. 

“Muitas vezes, o antibiótico é usado não para tratar o animal, mas para compensar a falha do sistema”, observou. Reduzir intervenções exige corrigir fatores predisponentes, fortalecer imunidade, ambiência, manejo, treinamento, diagnóstico e biosseguridade. A ferramenta continua necessária para o tratamento terapêutico, desde que utilizada de forma consciente, com prescrição veterinária e evidências. 

Chefe da Divisão de Sanidade dos Suídeos do MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária), Lia Coswig encerrou a programação demonstrando que a condição sanitária brasileira resulta de uma construção coletiva. O país permanece livre de enfermidades que impõem perdas e bloqueios comerciais a importantes concorrentes, entre elas a PRRS (síndrome reprodutiva e respiratória dos suínos) e a PSA (peste suína africana). Também alcançou o reconhecimento de livre de febre aftosa sem vacinação, condição com efeitos positivos para todas as proteínas animais. 

A posição, porém, não é definitiva. Lia alertou para o risco de ingresso de agentes por produtos de origem animal trazidos informalmente, para o papel dos javalis na disseminação da PSA e para o impacto de pequenas quebras de biosseguridade. O Ministério estabelece normas, conduz a vigilância e responde às notificações, mas são produtores, empresas e profissionais que transformam essas regras em proteção cotidiana. 

A biosseguridade comportamental, incorporada às discussões internacionais, resume esse desafio. Não basta possuir estruturas e protocolos; é preciso repetir o procedimento correto todos os dias. “A biosseguridade não pode quebrar nunca”, reforçou Lia. Uma falha aparentemente pequena pode bloquear uma propriedade, uma região e até o país, com consequências econômicas que alcançam toda a cadeia. 

Uma realidade que veio para ficar 

Ao reunir temas tão diferentes sob uma mesma linha de raciocínio, a primeira edição do porciFÓRUM dentro do SIAVS demonstrou que a evolução da suinocultura depende menos de soluções isoladas e mais da conexão entre decisões. Dados ajudam a antecipar o mercado. Nutrição, reprodução e manejo constroem robustez. Diagnóstico qualifica o tratamento. Biosseguridade preserva a sanidade. Estratégia transforma eficiência produtiva em acesso a mercados e valor para o consumidor. 

Foi essa capacidade de organizar as perguntas relevantes da cadeia, e colocar no mesmo palco entidades, indústria, pesquisa, empresas e serviço oficial, que deu dimensão à estreia. O desafio lançado pela ABPA foi respondido não apenas com uma agenda técnica, mas com uma plataforma de discussão capaz de acompanhar uma suinocultura que cresceu e agora precisa definir, com maturidade, seus próximos passos. 

Na frase de Santin, o reconhecimento e a perspectiva se encontram: o porciFÓRUM já é uma realidade. E veio para ficar. 

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