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Quando a tosse custa caro: por que manter a granja livre de Mycoplasma faz diferença?

Escrito por: Cândida Azevedo - Doutorado pela Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz"
Mycoplasma

Quando a tosse custa caro: por que manter a granja livre de Mycoplasma faz diferença?

Produtor: Bom dia! Tenho ouvido falar bastante sobre Mycoplasma hyopneumoniae e sua importância para a sanidade dos suínos. Por que essa bactéria preocupa tanto?

Técnico: Bom dia! Essa preocupação é totalmente válida.

O Mycoplasma hyopneumoniae é o agente causador da pneumonia enzoótica suína, uma doença respiratória crônica que, apesar de não ter alta taxa de mortalidade, provoca impactos econômicos expressivos.

O problema maior é que ela compromete o desempenho dos animais — principalmente ganho de peso e conversão alimentar — além de abrir caminho para infecções secundárias.

Produtor: E como exatamente essa bactéria atua dentro do animal?

Técnico: O Mycoplasma hyopneumoniae adere às células epiteliais do trato respiratório e causa um processo inflamatório persistente. Essa lesão reduz a eficiência do sistema mucociliar, que é responsável por eliminar partículas e agentes infecciosos.

Com essa defesa comprometida, outras bactérias e vírus respiratórios encontram um ambiente favorável para se instalar, agravando o quadro clínico.

Produtor: Então o maior risco são essas infecções secundárias?

Técnico: Exatamente. O Mycoplasma sozinho já prejudica bastante, mas a combinação com outros agentes — como Pasteurella multocida, Actinobacillus pleuropneumoniae, influenza suína, entre outros — aumenta muito a gravidade da doença.

 É uma porta de entrada para o chamado “complexo respiratório suíno”, que eleva custos e reduz produtividade.

Técnico: Normalmente, você vê tosse seca, principalmente quando os animais se movimentam ou durante o manejo. Essa tosse pode persistir por semanas. Além disso, há queda no desempenho:

Animais infectados também apresentam maior variabilidade de lotes e aumento na taxa de refugos.

Produtor: Mas a mortalidade não é muito alta, certo? Então o impacto ainda assim é grande

Técnico: Sim, mesmo com mortalidade baixa, o impacto econômico é significativo.

Estudos mostram que o Mycoplasma hyopneumoniae pode reduzir o ganho de peso em até 16% e aumentar a conversão alimentar em até 10%, dependendo do nível de desafio. Isso representa mais dias de alojamento, mais ração por animal e menor eficiência geral da granja. Quando somamos isso ao uso de antimicrobianos para controle de infecções secundárias, o prejuízo financeiro é bem maior.

Produtor: Entendi. E como essa bactéria chega à granja?

Técnico: O principal risco é a introdução por meio de animais infectados, especialmente matrizes de reposição.

A transmissão ocorre principalmente por contato direto entre suínos, especialmente de matrizes para leitões durante o período de maternidade.

A disseminação aérea pode ocorrer em curtas distâncias entre granjas próximas. Além disso, falhas de biosseguridade favorecem a manutenção e circulação do agente dentro das instalações.

Produtor: Isso significa que uma vez dentro da granja, ela é difícil de eliminar?

Técnico: Sim. Por ser uma bactéria que se instala profundamente no trato respiratório e causa infecção crônica, a eliminação é difícil.

A circulação dentro da granja pode se perpetuar por meses ou anos, especialmente se houver falhas nos protocolos de manejo, fluxo contínuo e mistura frequente de leitos. Por isso, um programa de controle efetivo é essencial.

Produtor: E o que seria esse programa? Vacinação resolve?

Técnico: A vacinação é uma ferramenta muito importante, mas não é suficiente sozinha. Ela ajuda a reduzir os sinais clínicos e as lesões pulmonares, mas não impede totalmente a infecção. O controle efetivo exige uma combinação de estratégias:

Produtor: E qual o risco para leitões recém-nascidos?

Técnico: O risco é considerável. Leitões podem ser infectados pelas matrizes ainda na maternidade. Animais infectados precocemente tendem a apresentar quadros mais severos no crescimento e terminação. Além disso, leitões já infectados carregam a bactéria por longos períodos, se tornando fontes de transmissão entre lotes.

Produtor: Se eu quiser manter minha granja livre dessa bactéria, por onde começo?

Técnico: O primeiro passo é não introduzir o agente. Isso significa adquirir reprodutores de fornecedores com certificação sanitária e histórico de status negativo para Mycoplasma hyopneumoniae.

Depois, é essencial manter um programa rígido de quarentena, com tempo suficiente para detecção de infecções, quando presente.

A partir daí, adota-se um conjunto de ações:

  1. Treinamento de equipe para reforçar práticas de biosseguridade.
  2. Controle de veículos e equipamentos, evitando entrada de materiais contaminados.
  3. Limpeza e desinfecção eficiente de instalações.
  4. Monitoramento constante, usando sorologia, PCR ou avaliação de lesões pulmonares no abate

Produtor: E se a granja já for positiva? Ainda dá para melhorar o status sanitário?

Técnico: Com certeza. Existem programas de estabilização e até erradicação, dependendo do nível de desafio e da estrutura da granja. Entre as estratégias mais utilizadas estão:

Esses programas exigem planejamento detalhado e acompanhamento técnico constante.

Produtor: Então manter a granja livre é realmente um ganho em produtividade?

Técnico: Sem dúvida. Granjas negativas para Mycoplasma hyopneumoniae apresentam melhores índices zootécnicos, menores custos com medicamentos e maior uniformidade de lotes. Além disso, o status negativo facilita o cumprimento de protocolos sanitários exigidos por frigoríficos e programas de bem-estar animal.

Produtor: Acho que agora entendi a importância. É mais do que evitar tosse — é proteger a rentabilidade da produção.

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