Por Carlos Carrijo, Médico veterinário.
Os dados do relatório de 2025 da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) indicam que a suinocultura brasileira conta com aproximadamente 2,25 milhões de matrizes suínas em sistemas tecnificados de produção.
A evolução da produtividade dessas matrizes, foi de aproximadamente 13,59%, passando de 27 para 30,67 leitões desmamados / fêmea/ano (Agriness, 2025). Além disso, tornou-se frequente a existência de plantéis nos quais este mesmo indicador aproxima-se de 40 leitões desmamados / fêmea / ano.
Esses ganhos de produtividade demonstram a elevada eficiência técnica dos rebanhos brasileiros e, ao mesmo tempo, impõem novos desafios a manutenção da saúde das matrizes, especialmente diante de maiores exigências nutricionais – metabólicas e dos desafios sanitários associados a hiperprolificidade e intensificação dos sistemas de produção.
Nesse contexto, a saúde da matriz não deve ser avaliada apenas pela presença ou ausência de doença clínica, mas compreendida de forma sistêmica, considerando sua capacidade de manter o equilíbrio fisiológico, metabólico, reprodutivo e sanitário ao longo dos sucessivos ciclos produtivos.
O objetivo deste artigo é contribuir, sem a pretensão de esgotar o tema, para uma abordagem sistêmica do monitoramento do estado de saúde das matrizes suínas, contemplando desde a anamnese e a avaliação clínica e produtiva do rebanho até a utilização de exames complementares e laboratoriais, conforme ilustrado na Figura 1.
Figura 1 – Fluxo de monitoramento sistêmico do estado de saúde das matrizes suínas.
Anamnese e avaliação dos indicadores zootécnicos / KPIs
A anamnese constitui-se em ação fundamental ao entendimento do estado de saúde das matrizes, uma vez que serão obtidas informações que poderão direcionar as demais etapas da investigação. Torna-se relevante, neste momento, reunir informações qualitativas e quantificas, objetivando compreender a magnitude, a distribuição, a frequência e a evolução temporal dos eventos tratados.
A avaliação dos indicadores zootécnicos complementa a anamnese e possibilita identificar alterações que, direta ou indiretamente, podem estar relacionadas a saúde das matrizes, estando alguns desses indicadores listados na tabela 1.
Tabela 1 – Alguns Indicadores que podem estar relacionados a saúde das matrizes suinas .
| Grupo | Indicador |
| Reprodutivos | Taxa de cobertura (%) |
| Taxa de concepção aos 35 dias (%) | |
| Taxa de partos (%) | |
| Taxa de partos ajustada (%) | |
| Taxa de retorno ao cio – regular (%) | |
| Taxa de retorno ao cio – irregular (%) | |
| Taxa de retorno ao cio – precoce (%) | |
| Taxa de retorno ao cio – tardio (%) | |
| Taxa de abortos (%) | |
| Corrimentos pós-inseminação (%) | |
| Corrimentos pós-parto (%) | |
| Intervalo desmame-cio (dias) | |
| Dias não produtivos (dias) | |
| Sobrevivência e permanência no plantel | Taxa de mortalidade de matrizes (%) |
| Taxa de eutanásia de matrizes (%) | |
| Taxa de reposição de matrizes (%) | |
| Taxa de descarte de matrizes (%) | |
| Distribuição da mortalidade por ordem de parto | |
| Distribuição dos descartes por ordem de parto | |
| Desempenho ao parto | Nascidos totais/parto |
| Nascidos vivos/parto | |
| Mumificados/parto ou mumificados (%) | |
| Natimortos/parto ou natimortos (%) – tipos 1, 2 e 3 | |
| Duração do parto (minutos) | |
| Partos com intervenção obstétrica (%) | |
| Partos com uso de ocitocina (%) | |
| Lactação e desempenho da leitegada | Mortalidade pré-desmame (%) |
| Ganho médio diário de peso dos leitões na maternidade (g/dia) | |
| Matrizes com interrupção da produção de leite (%) | |
| Mães de leite (%) | |
| Consumo | Consumo médio diário de ração na gestação (kg/matriz/dia) |
| Consumo médio diário de ração na lactação (kg/matriz/dia) | |
| Consumo médio diário de ração por fase produtiva (kg/matriz/dia) |
AVALIAÇÃO CLÍNICA DAS MATRIZES
Nesta etapa, a integração entre os achados da anamnese e a avaliação dos indicadores zootécnicos/KPIs é fundamental para direcionar o exame clínico das matrizes. Embora as informações obtidas nas etapas anteriores permitam identificar possíveis alterações e estabelecer hipóteses, a avaliação clínica deve ser realizada de forma ampla e sistemática, considerando as diferentes fases do ciclo produtivo. A identificação de sinais clínicos envolvendo os diferentes sistemas orgânicos, bem como alterações no comportamento, consumo de alimento, condição corporal, locomoção e desempenho reprodutivo, contribui para uma compreensão mais abrangente do estado de saúde individual e coletivo.
A tabela, a seguir, ilustra alguns pontos importantes para observação durante a avaliação clínica de matrizes suínas e sempre devem ser mensurados quantitativamente para uma compreensão da saúde de rebanho.
Tabela 2 – Alguns pontos relevantes a serem observados durante a avaliação clínica das matrizes suínas.
NECRÓPSIAS E AVALIÇÃO EM FRIGORÍFICO
Uma reflexão importante sobre a realização de necropsias e o acompanhamento do abate de matrizes suínas refere-se ao número de oportunidades disponíveis para a obtenção de informações sobre a saúde do plantel.
Considerando uma taxa anual de mortalidade de matrizes de aproximadamente 8,9%, conforme o último relatório da Agriness, em um plantel de 1.000 matrizes ocorreriam cerca de 90 mortes ao longo de um ano, representando potenciais oportunidades para a realização de necropsias.
A esse número somam-se as matrizes selecionadas para eutanásia, nas quais a avaliação m também pode ser realizada. Além disso, considerando as taxas de reposição e descarte observadas nos sistemas tecnificados de produção, aproximadamente 400 matrizes desse mesmo plantel poderiam ser encaminhadas anualmente ao frigorífico, criando outra importante oportunidade para a avaliação de órgãos, tecidos e lesões.
Diante desse volume de informações potencialmente disponíveis, cabe uma reflexão inicial: quantas dessas matrizes estão, de fato, sendo submetidas à necropsia ou avaliadas sistematicamente no frigorífico como parte do programa de monitoramento da saúde do plantel?
É sabido que tanto a necropsia quanto o acompanhamento de matrizes no frigorífico apresentam limitações operacionais para sua realização rotineira. Entretanto, alguns aspectos merecem destaque. Em condições de campo, podem ocorrer divergências entre as causas de mortalidade registradas na granja e aquelas identificadas durante a necropsia. Essa discrepância pode resultar em interpretações inadequadas sobre os principais problemas sanitários do plantel e, consequentemente, direcionar ações preventivas ou corretivas que não atuem efetivamente sobre as causas envolvidas. Além disso, a realização sistemática de necropsias possibilita a construção de um banco de dados de achados anatomopatológicos que, quando associado às informações clínicas, produtivas e epidemiológicas, constitui uma importante ferramenta de apoio à tomada de decisão.
Da mesma forma, o acompanhamento do abate de matrizes pode revelar alterações que dificilmente seriam identificadas apenas pela observação clínica dos animais na granja. Em avaliações realizadas a campo, têm sido observadas, com relativa frequência, lesões hemorrágicas na bexiga de matrizes enviadas ao abate, com prevalências variando entre 35% e 65% (dados pessoais não publicados).
Adicionalmente, a avaliação histopatológica desses animais tem identificado processos inflamatórios em aproximadamente 25% a 50% das amostras avaliadas (Figura 2). Embora esses achados devam ser interpretados considerando as características e limitações de cada levantamento, sua elevada frequência reforça a importância da investigação post mortem como ferramenta complementar para a compreensão do estado de saúde das matrizes.
Figura 2: Bexiga com lesões hemorrágicas e processo inflamatório cronico através da histopatologia.
Essas observações demonstram que a ausência de sinais clínicos evidentes não necessariamente representa ausência de alterações orgânicas, reforçando a necessidade de integrar informações produtivas, avaliação clínica, achados de necropsia, avaliações em frigorífico e exames laboratoriais na construção de um diagnóstico mais abrangente da saúde do plantel.
ANÁLISES LABORATORIAIS
O Brasil dispõe de uma excelente rede de laboratórios e universidades dedicados à realização de análises laboratoriais para a monitoria do estado de saúde dos animais, atuando em estreita colaboração com os profissionais de campo e oferecendo importante suporte técnico.
Essa rede laboratorial disponibiliza orientações sobre os materiais que devem ser coletados, bem como os exames mais indicados de acordo com o direcionamento técnico de cada investigação. Essas informações podem ser consultadas nos sites oficiais de cada instituição.
De maneira geral, no caso das matrizes suínas, os exames laboratoriais contemplam a investigação de falhas reprodutivas — como natimortos, mumificados e abortos — por meio de um kit reprodutivo (parvovirose, leptospirose, erisipela, entre outros), além da investigação da saúde geniturinária, incluindo a avaliação de descargas vulvares e infecções urinárias.
Um aspecto que merece reflexão é o crescimento, ainda que discreto, da utilização de análises sanguíneas — como o hemograma — na monitoria do estado de saúde das matrizes. Essa ferramenta tem contribuído significativamente para a rotina dos profissionais de campo, ampliando a capacidade de identificação e acompanhamento de alterações que nem sempre são evidentes apenas pela avaliação clínica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O monitoramento do estado de saúde das matrizes, por meio das ações sistêmicas e complementares apresentadas ao longo deste artigo, deve ser cada vez mais intensificado e disseminado entre todos os profissionais envolvidos na produção de suínos. Para que essa abordagem seja efetivamente incorporada à rotina das granjas, a capacitação contínua de profissionais e operadores torna-se fundamental.
Cuidar da saúde das matrizes é, portanto, uma ação que transcende o indivíduo e repercute sobre todo o sistema produtivo.
