O controlador pode indicar que está tudo dentro do parâmetro. A instalação pode ter tecnologia de ponta. Os equipamentos podem estar funcionando. Ainda assim, o suíno pode contar uma história diferente. Para Lederson Trindade de Lima, consultor técnico de ambiência na Corti Avioeste, essa leitura do animal é um dos elementos mais importantes, e ainda pouco explorados, para identificar perdas de eficiência na produção de suínos.
Durante o 18º Simpósio Brasil Sul (SBSS), realizado pelo Nucleovet, o especialista participou do estúdio de entrevistas da agriNews, em parceria com a equipe suínoBrasil, e chamou atenção para um problema que vai além da escolha de equipamentos: a capacidade de interpretar o ambiente a partir da resposta do próprio animal.
Antes da tecnologia, a vedação
Para Lederson, um dos primeiros pontos a serem avaliados em uma instalação é também um dos mais básicos: a vedação. Em galpões de pressão negativa, qualquer falha nessa estrutura compromete a capacidade de controle ambiental e pode reduzir o resultado de todo o investimento realizado em climatização.
“Quando eu estou falando num galpão depressão negativa, o próprio nome fala. Tem que ter um diferencial de pressão negativa em relação ao exterior. Se eu não tiver vedação, todo o meu projeto vai por água abaixo”, explicou.
A lógica também vale para propriedades com orçamento limitado. Antes de substituir equipamentos, o especialista recomenda olhar para o que já existe e, principalmente, para a qualidade das pessoas responsáveis pelo manejo.
O parâmetro que ainda fica esquecido
Temperatura, velocidade do ar e umidade relativa compõem o conforto térmico. Entretanto, segundo Lederson, a suinocultura brasileira ainda concentra atenção excessiva na temperatura.
“Para a nossa região Brasil, e quando eu estou falando da América do Sul toda, o nosso maior desafio é aprender a trabalhar com o conforto térmico, que engloba velocidade de ar, umidade do ar e temperatura do ar.”
A umidade ganha importância porque interfere diretamente na capacidade do animal de realizar a troca de calor. É justamente nesse ponto que o comportamento dos suínos pode revelar uma condição que os sensores não estão traduzindo adequadamente.
Quando o animal contradiz o controlador
Para o especialista, a observação do suíno deve funcionar como uma ferramenta complementar à tecnologia.
“O animal não mente. Ele não mente. Ele vai demonstrar a dificuldade que ele está tendo no momento.”
Essa leitura também pode ser determinante diante de problemas respiratórios recorrentes. Antes de alterar novamente um protocolo sanitário, Lederson recomenda avaliar se existe um fator ambiental persistente por trás do problema.
“Entre na granja com os olhos abertos, olhando o todo”, orientou.
Projetar hoje para a genética de amanhã
Outro desafio está nos projetos de longa duração. Uma instalação pensada para 20 ou 30 anos precisa considerar que a genética dos animais continuará evoluindo. Por isso, o especialista defende projetos mais audaciosos e preparados para acompanhar futuras demandas produtivas, evitando que uma estrutura considerada adequada hoje se transforme em gargalo amanhã.
A mensagem central de Lederson, porém, não é simplesmente investir mais. É investir melhor, observar mais e entender o sistema antes de buscar novas soluções.
“Eu acredito piamente que nada vai substituir o ser humano. O olho humano é o que vai fazer a diferença.”
Para a suinocultura, essa combinação entre tecnologia, estrutura e capacidade de observação pode representar uma fronteira ainda pouco explorada da eficiência: aquela em que o animal deixa de ser apenas o resultado do sistema e passa a ser também uma das principais fontes de informação sobre o que precisa ser corrigido.
