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Até onde a suinocultura brasileira pode crescer sem perder a eficiência que conquistou?

Suinocultura aposta em genética para ampliar produtividade

O estúdio da agriNews Brasil marcou presença no SIAVS 2026 como espaço de encontro entre lideranças, especialistas e empresas que ajudam a transformar a produção de proteína animal. Entre os convidados esteve Alexandre Furtado da Rosa, diretor-superintendente da Agroceres PIC, em uma conversa sobre competitividade, sanidade, genética e tecnologia na suinocultura brasileira.

Ao avaliar a trajetória do setor, Alexandre apontou que a evolução construída nas últimas duas décadas ganhou velocidade especialmente nos últimos oito a dez anos. Uma combinação de disponibilidade de grãos, escala, mercado interno, sanidade, genética e capacidade de adoção de tecnologias ajudou o Brasil a consolidar uma posição competitiva no mercado internacional.

 

O que colocou o Brasil entre os mais eficientes?

Na avaliação de Alexandre, a competitividade brasileira não surgiu de um único fator. A disponibilidade de matéria-prima, a extensão territorial, o mercado interno e a condição sanitária formaram uma base favorável para o crescimento da produção.

O executivo também destacou a importância do mercado doméstico como uma espécie de proteção para o setor. Embora as exportações sejam estratégicas, grande parte da produção permanece destinada ao consumo brasileiro, o que oferece uma alternativa em situações de restrições sanitárias ou mudanças no cenário externo.

A evolução genética também ganhou espaço nessa transformação. Segundo Alexandre, empresas brasileiras passaram a investir não apenas em produtividade, mas na possibilidade de transformar o país em uma plataforma de exportação de tecnologia genética.

“Sem dúvida nenhuma, ficamos um país hoje o mais competitivo na produção de carne suína, com tecnologia genética de ponta também, mas foi um trabalho de muitos anos, não só da iniciativa privada, mas muitas parcerias público-privadas com setor público”, afirmou.

Brasil deixou de apenas importar referências

Outro indicador da evolução do setor aparece na mudança do fluxo de conhecimento. Durante décadas, produtores e empresas brasileiras viajaram ao exterior em busca de modelos produtivos e tecnológicos. Agora, segundo Alexandre, o movimento começa a ocorrer também no sentido inverso.

A diferença está na própria característica da produção brasileira, a necessidade de produzir uma carne de boa qualidade com eficiência e competitividade em escala. Nesse aspecto, o Brasil passou a oferecer referências relevantes para outros mercados.

A trajetória, entretanto, foi construída em um ambiente de desafios. Custos elevados de capital, juros, complexidade tributária e dificuldades logísticas continuam pressionando os investimentos.

Ao mesmo tempo, as crises enfrentadas pelo setor acabaram aumentando a resiliência daqueles que permaneceram na atividade. Para Alexandre, esse processo também elevou as barreiras de entrada na produção.

 

Sanidade: o patrimônio que não pode ser colocado em risco

Se eficiência e genética ajudaram a impulsionar a suinocultura, a condição sanitária brasileira aparece como um dos ativos que precisam ser protegidos com mais rigor. Alexandre destacou a importância de iniciativas conjuntas entre o Ministério da Agricultura e o setor privado, citando a estrutura de quarentena para animais vivos importados e os investimentos realizados para reduzir os riscos de entrada de enfermidades.

O executivo também chamou atenção para ameaças associadas à entrada de materiais contaminados, ao trânsito internacional e à circulação de javalis, além da necessidade de ampliar medidas de biossegurança nas propriedades.

Para ele, justamente por o Brasil não conviver com algumas das principais doenças presentes em outros países, existe o risco de acomodação em determinadas práticas de rotina.

 

A biossegurança precisa acompanhar a evolução da produção

A expansão da produção suína e o aumento da produtividade exigem, na visão de Alexandre, que a biossegurança avance na mesma velocidade. Entre os exemplos citados estão sistemas de secagem de carrocerias de caminhões e outras medidas destinadas a reduzir o risco de disseminação de agentes infecciosos. O executivo considera que ainda existe espaço para melhorar os procedimentos dentro das propriedades.

A lógica é semelhante à de um seguro: o custo da prevenção pode parecer elevado quando nada acontece, mas torna-se pequeno diante do impacto provocado pela entrada de uma enfermidade capaz de comprometer a produção e o acesso aos mercados.

 

Genética começa a empurrar outra fronteira de produtividade

Para Alexandre, a próxima transformação da suinocultura já está em curso dentro dos programas genéticos. A edição genética e a seleção voltada à robustez e resiliência dos animais aparecem entre as frentes com potencial de produzir avanços expressivos. O desafio, porém, não é apenas tecnológico. A incorporação dessas características precisa dialogar com expectativas da sociedade, normas regulatórias, bem-estar animal e sustentabilidade.

Os resultados observados nas granjas núcleo, segundo ele, já impressionam inclusive profissionais acostumados a trabalhar com níveis elevados de produtividade. Alexandre citou índices como mais de 20 leitões nascidos em parte das matrizes das linhas puras e conversão alimentar inferior a 1,7 em determinados níveis de peso.

“Com a mesma base que a gente tem de inventário, você consegue produzir muito mais. Então nós não estamos adicionando muitas fêmeas, estamos adicionando mais leitões porque as oportunidades estão melhorando, porque a sanidade é excepcional”, explicou.

Tecnologia já está disponível. O desafio é decidir como adotá-la

Na visão do executivo, o produtor precisa mudar a relação com a tecnologia. Automação e inteligência artificial já estão disponíveis e não deveriam mais ser tratadas apenas como tendências futuras.

A recomendação é testar, validar e medir resultados antes de ampliar investimentos. Unidades de validação próprias podem permitir que empresas avaliem novos aditivos, ferramentas de automação, robótica ou genética em escala controlada antes de uma implantação maior.

Esse processo ganha ainda mais importância em um setor no qual cada centavo do custo de produção pode alterar o resultado econômico.

“A diferença entre um produtor que adotou mais rápido uma tecnologia que é mais eficiente, que seja 10 centavos no custo de produção por quilo vivo, significa que ele está ganhando dinheiro ou não está ganhando dinheiro”, destacou Alexandre.

Eficiência será cada vez mais decisiva

Com margens pressionadas e um mercado ainda fortemente baseado em commodities, o espaço para ineficiências tende a diminuir.

Nesse cenário, a capacidade de gestão, o controle dos processos e a abertura para trabalhar em parceria com empresas especializadas passam a ter peso crescente. Para Alexandre, não é mais possível para uma empresa tentar dominar internamente todas as tecnologias necessárias para permanecer competitiva.

A suinocultura brasileira chega, assim, a um novo momento: a produtividade já alcançou níveis elevados, a genética continua avançando e a tecnologia está cada vez mais acessível. O desafio passa a ser transformar esses recursos em eficiência econômica de forma consistente, sem comprometer o patrimônio sanitário construído ao longo de décadas.

No SIAVS 2026, a mensagem deixada por Alexandre foi clara: o próximo salto da suinocultura não dependerá de uma única inovação, mas da capacidade de combinar genética, sanidade, gestão e tecnologia para produzir mais com a mesma base produtiva.

Suinocultura aposta em genética para ampliar produtividade

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