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Crise na suinocultura catarinense expõe desafios estruturais e pressiona rentabilidade da cadeia

Crise na suinocultura catarinense expõe desafios multisetoriais

Por redação SuínoBrasil

Santa Catarina, líder nacional nas exportações de carne suína e referência em sanidade animal, atravessa um momento de forte pressão econômica sobre sua cadeia produtiva. Embora os embarques internacionais permaneçam em patamares elevados e o estado mantenha mercados estratégicos, como o Japão, produtores e agroindústrias convivem com margens reduzidas, reflexo de uma combinação de fatores delicados, internos e externos.

O cenário é reconhecido por diferentes representantes do setor. No entanto, as causas apontadas variam conforme a posição de cada elo da cadeia, indicando que a crise atual vai além de uma única explicação. Segundo o presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), Losivanio Luiz De Lorenzi, o custo médio de produção alcança atualmente R$ 6,23 por quilo de suíno, enquanto o produtor recebe, em média, R$ 5,05/kg. A diferença compromete a rentabilidade das propriedades e preocupa principalmente os produtores independentes.

“Quem está na atividade até hoje, principalmente os produtores independentes, têm uma história longa e sabem que são ciclos [da suinocultura], mas que são cada vez mais profundos e longos.”, afirma o presidente da ACCS, Losivanio Luiz de Lorenzi.

Excesso de oferta ganha força como principal fator de pressão

Na avaliação da entidade, o principal componente da crise é o desequilíbrio entre oferta e demanda. Losivanio atribui esse cenário à expansão acelerada do plantel nacional nos últimos anos, impulsionada pelo aumento do número de matrizes, pela evolução dos índices zootécnicos e pelo maior peso de abate.

Segundo Losivanio, a entrada de 105 mil matrizes, aliada ao aumento da produtividade e do peso de abate, elevou significativamente a oferta de carne. Para o dirigente, esse movimento ocorreu sem uma coordenação entre os diferentes elos da cadeia, contribuindo para o atual desequilíbrio entre oferta e demanda. Lorenzi ainda explica que há a ausência de mecanismos de coordenação entre produtores, cooperativas e agroindústrias, o que pode ter favorecido uma expansão simultânea da produção, sem que o mercado absorvesse todo o volume disponível.

Mercado confirma desequilíbrio entre oferta e demanda

A avaliação da ACCS encontra respaldo na percepção da análise econômica. Para Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, o excesso de oferta explica boa parte da pressão observada sobre os preços pagos aos produtores.

“Estamos percebendo um excesso de oferta no mercado brasileiro, o que tem gerado um desequilíbrio entre oferta e demanda. O custo de produção está controlado, mas, mesmo assim, os preços vigentes não são suficientes para cobrir esses custos.”

Na avaliação do analista, embora os custos de produção tenham deixado de ser o principal problema observado em crises anteriores, a remuneração atual continua insuficiente para restabelecer as margens da atividade.

Indústria aponta influência de fatores externos

O Sindicarne-SC, por sua vez, reconhece o momento de dificuldade, mas amplia a análise ao destacar fatores macroeconômicos e internacionais. Segundo o gerente executivo da entidade, Jorge Lima, juros elevados, oscilações cambiais, aumento dos custos logísticos e o atual cenário geopolítico instável têm reduzido a competitividade das exportações brasileiras.

“O setor de suínos apresenta, em alguns momentos, instabilidades que impactam a suinocultura catarinense. Essas instabilidades estão focadas em altas taxas de juros, câmbio, aumento do valor de seguros de frete e do próprio frete, por exemplo, e por último, uma das questões mais instáveis: o cenário geopolítico.”, disse Jorge Lima.

Lima observa que, embora a suinocultura tenha vivido um período relativamente estável nos últimos anos, 2026 trouxe novos desafios associados às sobretaxações impostas por alguns mercados internacionais.

“Fatores externos às granjas têm sido mais prejudiciais aos produtores industriais, às cooperativas e, consequentemente, às exportações. Nesses momentos em que a ‘corda é esticada’, as agroindústrias são as que suportam. Assim funciona o mercado. Os produtores integrados são preservados”, explicou Jorge Lima.

Exportações seguem fortes, mas margens continuam pressionadas

Um dos aspectos que mais chama atenção é que a crise ocorre justamente em um período de bom desempenho das exportações brasileiras. Para Losivanio, entretanto, o aumento dos embarques não foi suficiente para absorver o crescimento da produção nacional. Na visão do representante da ACCS, o aumento das exportações brasileiras não foi suficiente para absorver o excedente de carne disponível no mercado. Além disso, o reconhecimento sanitário de outros estados ampliou a concorrência pelos mercados internacionais. “Tem outros estados buscando, também, os mesmos mercados e acaba havendo uma competição dentro do próprio país”, afirma.

Segundo o dirigente, mesmo mantendo um elevado padrão sanitário, os produtores catarinenses não recebem remuneração diferenciada por esse status.

Biosseguridade permanece prioridade

Apesar das dificuldades financeiras, as entidades são unânimes ao defender a manutenção dos investimentos em biosseguridade. A ACCS reconhece que muitos produtores enfrentam dificuldades para cumprir as novas exigências estruturais nas granjas, mas considera esses investimentos indispensáveis para preservar o acesso aos mercados internacionais. O Sindicarne compartilha dessa avaliação.

“Agroindústrias e produtores continuam cuidando do que temos de mais valioso, que é a biosseguridade. Preservar nosso status sanitário continua sendo prioridade para toda a cadeia”, destaca Jorge Lima.

Recuperação dependerá de equilíbrio da oferta

Embora as interpretações sobre as causas da crise sejam diferentes, há consenso de que a recuperação dependerá do reequilíbrio entre produção e demanda. Para a ACCS, esse processo passa pela redução gradual do plantel e por maior transparência entre os diferentes elos da cadeia.

Já a indústria entende que a normalização também dependerá da melhora do ambiente macroeconômico, da redução das tensões comerciais internacionais e da retomada da competitividade das exportações.

São visões e projeções diferentes, mas que ambas desembocam em um ponto comum, na crise de excesso da oferta. Embora não haja consenso sobre as causas da crise, as fontes convergem que a recuperação da rentabilidade da suinocultura catarinense não deve ocorrer no curto prazo e dependerá de uma combinação de ajuste da oferta, melhora do ambiente macroeconômico e manutenção da competitividade internacional.

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