Superoferta de carne suína desafia expansão da suinocultura
Por suínoBrasil
A produção brasileira de carne suína acumulou aproximadamente 446,7 mil toneladas adicionais entre março de 2025 e junho de 2026, período marcado por 16 meses consecutivos de crescimento na comparação com os mesmos meses dos anos anteriores. As exportações aumentaram 173,7 mil toneladas, mas não acompanharam integralmente esse avanço, resultando num excedente interno de 272.994 toneladas.
Os dados foram apresentados por Iuri Machado durante a reunião on-line “Cadeia Suína em Movimento – Da Superoferta à Ação”, organizada pela ABCS (Associação Brasileira dos Criadores de Suínos) na tarde de 1º de setembro. Na abertura, o presidente da entidade, Marcelo Lopes, defendeu que o quadro atual decorre de excesso de oferta, e não de retração do consumo.
Os dados apresentados no encontro mostraram, de um lado, reação das vendas de cortes suínos à queda de preços e, de outro, crescimento da produção acima da absorção externa e doméstica.
“Apesar do crescimento das exportações, a alta expressiva da produção provocou sobreoferta no mercado doméstico, que se agravou nos últimos meses”, afirmou Iuri Machado.
Nos EUA, margem positiva financia eficiência
O segundo eixo do encontro veio da experiência apresentada por José Henrique Piva, diretor técnico da PIC-USA, profissional radicado nos Estados Unidos e com mais de quatro décadas de atuação na suinocultura internacional. Ao descrever a reação dos produtores norte-americanos aos ciclos de alta e baixa, Piva afirmou que os períodos de melhor remuneração são usados para fortalecer a operação antes da próxima crise.
Segundo ele, em vez de direcionar automaticamente o capital para mais matrizes, produtores investem em instalações, equipamentos, sanidade e substituição de estruturas antigas por unidades mais eficientes.
“Quando as margens se deterioram, entram em cena o fechamento de granjas menos competitivas, o descarte de fêmeas de menor potencial produtivo e a antecipação de vendas para geração de caixa”, afirmou.
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PRÁTICAS DO MERCADO NORTE-AMERICANO Nos períodos favoráveis: – investir em instalações e equipamentos com impacto direto na eficiência. – eliminar doenças que comprometem o desempenho e elevam o custo de produção. – substituir granjas antigas, pequenas ou de manutenção cara por estruturas mais eficientes, em vez de apenas adicionar matrizes. – preparar proteção para os ciclos: formar estoques de grãos e negociar vendas por contratos de longo prazo. Nos períodos difíceis: – fechar unidades menos eficientes e descartar fêmeas de menor potencial produtivo. – antecipar vendas quando necessário para gerar caixa. |
Questionado por Priscila Beck, da suínoBrasil, sobre mecanismos capazes de disciplinar a expansão sem impor cotas, Piva acrescentou o papel do crédito.
Segundo ele, bancos norte-americanos normalmente exigem contrato prévio de venda ao frigorífico, análise ambiental e de bem-estar animal e participação relevante de capital próprio antes de financiar novas estruturas.
“Só o fato de o banco não liberar dinheiro se você não tem um contrato com o frigorífico já é uma parte que segura, que disciplina”, afirmou Piva.
Exportação recorde não impediu excedente doméstico
De janeiro a julho de 2026, o Brasil exportou 914,9 mil toneladas de carne suína, alta de 9,12% sobre o mesmo período do ano anterior. A receita chegou a US$ 2,1 bilhões, avanço de 5,86%, com preço médio de US$ 2,34 por quilo. As Filipinas mantiveram a liderança, com 234,3 mil toneladas e participação próxima de 24% do volume embarcado.
A composição dos destinos está mais diversificada do que em anos anteriores, o que reduz a dependência de um único comprador, segundo Iuri Machado. Ainda assim, surgiram sinais de desaceleração com as compras filipinas recuando 3,73% em maio, 30,39% em junho e 35,38% em julho, sempre em volume e na comparação anual.
No total das exportações brasileiras, junho registrou queda de 3,23% em toneladas; julho voltou ao campo positivo, com alta de 3,82%. Até 21 de agosto, considerando 15 dias úteis, os embarques somavam 78,65 mil toneladas, com média diária 2,4% superior à de agosto de 2025, mas preço médio em dólar por tonelada recuando aproximadamente 9,2%.
Ou seja, a exportação continuava crescendo em volume, porém num ritmo muito menor do que no início do ano e com pressão sobre o valor. Mesmo assim, exportar permaneceu mais atrativo do que direcionar a carne ao mercado interno.
A paridade calculada por Machado indicou vantagem média próxima de 36,7% para a exportação em 2026, ante 12,3% em 2025. Em agosto, na comparação parcial, o diferencial alcançou 62,9% sobre a carcaça cotada em São Paulo.
Produção avançou em cabeças e peso de carcaça
O salto de oferta não veio apenas do aumento do número de animais abatidos. O peso médio das carcaças também cresceu. Em junho de 2026, o país abateu 5,36 milhões de suínos, 7,75% mais que em junho de 2025, e produziu 516,4 mil toneladas de carcaças, avanço de 9,20%. O peso médio chegou a 96,29 quilos, acima dos 95,01 quilos observados um ano antes.
O resultado foi um acréscimo de 50,1 mil toneladas na disponibilidade interna somente em junho, aumento de 14,3% sobre o mesmo mês de 2025. No primeiro semestre, entraram no mercado doméstico aproximadamente 106 mil toneladas adicionais.
Se o crescimento da produção e das exportações observado no segundo trimestre se repetir no segundo semestre, a simulação apresentada no encontro aponta para mais 138 mil toneladas produzidas, apenas 19 mil toneladas adicionais exportadas e outras 119 mil toneladas direcionadas ao mercado interno. Nesse cenário, 2026 terminaria com produção de 5,95 milhões de toneladas, crescimento de 5,27%; exportações de 1,39 milhão de toneladas, alta de 5,48%; e disponibilidade interna de 4,56 milhões de toneladas, avanço de 5,21%.
A projeção mais recente da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), elaborada por metodologia própria, também aponta crescimento: produção de até 5,87 milhões de toneladas (+5%), exportações de até 1,60 milhão (+5,9%) e disponibilidade interna de até 4,27 milhões de toneladas (+4,6%). As estimativas diferem nos volumes, mas convergem no diagnóstico de que o mercado doméstico terá de absorver mais carne.
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OS NÚMEROS DA SUPEROFERTA 446,7 mil toneladas: produção adicional acumulada entre março de 2025 e junho de 2026. 173,7 mil toneladas: parcela absorvida pelo crescimento das exportações. 273 mil toneladas: acréscimo acumulado na disponibilidade interna; o dado não representa estoque parado. 50,1 mil toneladas: aumento da disponibilidade interna somente em junho de 2026. 106 mil toneladas: acréscimo estimado no mercado interno no primeiro semestre de 2026. 119 mil toneladas: possível volume adicional no mercado interno no segundo semestre, se o ritmo recente for mantido. |
Preço caiu, consumo reagiu, mas não na mesma escala da oferta
A NielsenIQ, consultoria contratada pela ABCS para analisar a relação entre preços e consumo no varejo, apresentou dados segundo os quais o consumidor respondeu à redução de preços. No acumulado de 2026 até junho, as vendas em unidades de cortes suínos cresceram 13,6%, desempenho superior ao dos cortes de frango (+5,3%) e bovinos (+3,5%). Ainda assim, a carne suína representava apenas 9% das vendas dos três segmentos, revelando espaço para expansão, mas também uma base menor.
O preço médio dos cortes suínos no varejo foi de R$ 19,40, entre o frango, a R$ 15,00, e a carne bovina, próxima de R$ 38,00. No segundo trimestre, o preço médio dos suínos caiu aproximadamente 10%, enquanto o volume avançou com força. A resposta foi proporcionalmente maior que a observada no frango, proteína que já está mais consolidada na rotina das famílias.
A competitividade também apareceu no atacado. Em agosto, a carcaça de frango chegou a equivaler a 97% do valor da carcaça suína, muito acima da média de 71% observada desde 2022. Frente à carcaça bovina, a suína representou cerca de 32% do preço, contra uma relação histórica próxima de 55%. Poucas vezes a carne suína esteve tão competitiva diante das demais proteínas.
Essa vantagem, contudo, foi construída com forte transferência de renda para o consumidor e prejuízo na produção. A relação de troca entre o suíno e o mix de milho e farelo de soja caiu para 3,85, abaixo do nível de 5 considerado necessário para margem. Em julho, a média dos três estados do Sul apontava custo de R$ 6,14 por quilo vivo, preço de venda de R$ 4,87 e prejuízo estimado de R$ 1,27 por quilo.
“O produtor já acumula prejuízos há, pelo menos, cinco meses”, afirmou Iuri Machado.
ABCS reconhece que campanha, sozinha, não resolve
Como resposta imediata, ABCS e Abras lançaram o movimento ‘Vai de carne suína’. A Abras ficará responsável por mobilizar redes varejistas e apoiar a divulgação nos pontos de venda, enquanto a ABCS fornecerá a campanha, os materiais e o suporte técnico. O Carrefour informou que realiza promoções desde junho e pretende intensificá-las entre o fim de setembro e o início de outubro, mantendo ações até dezembro.
Marcelo Lopes anunciou ainda que o Carrefour havia contatado Frimesa, MBRF, Seara e Aurora. Na sequência, David Buarque, gerente nacional de açougues do Carrefour, afirmou que uma reunião com as quatro agroindústrias estava prevista para a semana seguinte, com o objetivo declarado de envolvê-las na mobilização para aumentar o consumo.
A informação foi apresentada publicamente por ABCS e Carrefour. A reunião e a participação das empresas não foram verificadas individualmente pela suínoBrasil até o fechamento deste material.
O presidente da ABCS, Marcelo Lopes, reconheceu, porém, que a campanha não ataca sozinha a origem do desequilíbrio. “Não é simplesmente fazer mais uma campanha”, afirmou Marcelo Lopes. “A ABCS faz campanhas há vários anos e a Semana Nacional é um sucesso, mas vimos que estamos com excedente de produção dentro do país”, completou.
Quando 2% já mudam o mercado
Nos Estados Unidos, as três maiores empresas concentram cerca de 63% do abate e as 15 maiores, mais de 90%. Segundo Piva, a capacidade de processamento e a comercialização futura funcionam como referências concretas para a decisão de crescer.
O paralelo internacional reforçou a dimensão do desequilíbrio brasileiro. Segundo Piva, nos Estados Unidos uma variação de produção superior a aproximadamente 2% para mais ou para menos já costuma provocar mudanças significativas nos preços. O Brasil discute uma expansão próxima de 5% em 2026.
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O QUE FUNCIONA COMO FREIO NOS ESTADOS UNIDOS Contrato prévio de compra por parte do frigorífico. Exigência de aproximadamente 40% de capital próprio para novos investimentos. Avaliação ambiental, sanitária e de bem-estar animal antes da liberação do crédito. Acompanhamento do projeto pelo agente financeiro. Comercialização futura e contratos de longo prazo. Ajuste do plantel, fechamento de unidades ineficientes e substituição de estruturas antigas. Investimento em produtividade e sanidade, em vez de expansão automática do número de matrizes. |
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