Uso de casca de soja na alimentação de suínos com ênfase na saúde intestinal
Valesca R. Lima1, Kallita L. S. Cardoso2, Giovanna H. A. Santana2, Mariana V. Holanda3, Milena S. Rodrigues3, Amoracyr J. C. Nuñez4, Vivian V. Almeida4
1Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Zootecnia, Escola de Veterinária e Zootecnia – UFG; 2Graduanda em Medicina Veterinária, Escola de Veterinária e Zootecnia – UFG; 3Graduanda em Agronomia, Escola de Agronomia – UFG; 4Professor(a) Adjunto(a), Escola de Veterinária e Zootecnia – UFG
O uso de coprodutos agroindustriais na dieta de suínos é uma das estratégias nutricionais praticadas para reduzir o custo de produção, visto que a alimentação representa cerca de 70% dos custos totais na atividade suinícola.
Devido à importância da cultura da soja para o agronegócio nacional e ao grande volume de material processado diariamente, a casca de soja surge como um interessante ingrediente alternativo para ser empregado nas formulações de rações, especialmente em regiões em que há alta oferta desse coproduto agroindustrial, como é o caso do Centro-Oeste e Sul do Brasil.
CASCA DE SOJA NA ALIMENTAÇÃO DE SUÍNOS
Historicamente, na nutrição de suínos, as fibras dietéticas eram consideradas como fatores antinutricionais, uma vez que reduzem a digestibilidade dos nutrientes. Isso ocorre pois os suínos não produzem enzimas capazes de degradar materiais fibrosos, o que pode resultar em piora no desempenho zootécnico.
Contudo, o uso crescente de coprodutos da agroindústria, bem como a adequação de metodologias para determinar o teor da fibra dietética contida nos alimentos, possibilitou novas abordagens sobre a importância de ingredientes fibrosos na nutrição de suínos, sobretudo na promoção da saúde intestinal.
A casca de soja é um coproduto fibroso que corresponde à película externa que envolve o grão, proveniente do processo de extração do óleo de soja.
Por definição, fibra dietética corresponde à fração do alimento que não é digerida pelas enzimas endógenas secretadas pelos suínos, mas que é passível de fermentação microbiana no intestino grosso.
Essa fermentação ocorre principalmente no ceco e colón e resulta na produção de ácido lático, ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), principalmente acético, propiônico e butírico, além de gases, tais como H2, CO2 e CH4. A maior parte do ácido butírico é metabolizada no próprio epitélio intestinal, enquanto os ácidos acético e propiônico são metabolizados no fígado.
Estudos mostram que os AGCC suprem de 5 a 28% das necessidades de energia para mantença dos suínos, sendo essa variação observada devido à solubilidade da fibra presente na dieta.
As fibras dietéticas podem ser subdivididas em frações solúveis e insolúveis em função das diferenças existentes em relação às suas propriedades físico-químicas:
- Solubilidade em água,
- Viscosidade,
- Capacidade de retenção de água e
- Fermentabilidade
É importante destacar que, por não haver padronização na indústria de moagem da soja, a composição química e energética da casca de soja pode apresentar grande variabilidade.
Além disso, a presença de maior ou menor quantidade de vagem, resíduos de caule, partes da planta e de outros materiais aumentam essa variabilidade, o que afeta diretamente o teor de fibra dietética total da casca de soja, bem como de suas frações solúvel e insolúvel.
De maneira geral, estudos que envolvem a avaliação do teor nutricional da casca de soja têm demonstrado que a porção insolúvel da fibra é predominante nesse coproduto.
PAPEL DA FIBRA INSOLÚVEL NA SAÚDE INTESTINAL
A fibra insolúvel é capaz de aumentar de volume por captar água do estômago, provocando enchimento físico do espaço estomacal e sensação de saciedade, com consequente redução no consumo de ração pelo animal. Adicionalmente, a fibra insolúvel absorve água do lúmen intestinal, com consequente aumento do volume fecal, seja por sua própria massa ou pela água que a mantém ligada.
Como resultado, as fezes tornam-se mais macias e de fácil eliminação, o que indica que a fibra insolúvel é benéfica no tratamento da constipação.
A presença de fibra insolúvel na dieta acelera a taxa de passagem da digesta pelo trato gastrointestinal e, consequentemente, reduz o tempo disponível para a proliferação de bactérias patogênicas.
Todavia, a diminuição do tempo de trânsito no intestino diminui o período de exposição dos nutrientes às enzimas digestivas e pode resultar em menor digestibilidade da ração fornecida aos suínos.
Por fim, a fibra dietética insolúvel possui baixo grau de fermentabilidade, o que implica em limitada quantidade de AGCC produzidos e, portanto, aproveitados pelo animal.
Outro aspecto que merece destaque é a potencial ação abrasiva que as fibras insolúveis causam no intestino. O epitélio intestinal é revestido por uma camada de muco, que funciona como barreira física para a penetração de antígenos microbianos.
Como material indigestível, a fibra insolúvel pode remover a camada de muco que recobre o epitélio intestinal por acelerar a taxa de fluxo da digesta. A disfunção da barreira epitelial leva ao aumento da permeabilidade intestinal, que, por sua vez, perturba a homeostase imunológica e induz respostas inflamatórias. Neste sentido, o processo inflamatório desencadeado no intestino favorece o estado de disbiose, também conhecido por desequilíbrio da microbiota intestinal.
Grande parte do muco intestinal é composto por água e mucinas, o que explica sua característica viscoelástica. As mucinas são glicoproteínas ricas em treonina, aminoácido essencial que normalmente é considerado o segundo ou terceiro aminoácido limitante em dietas de suínos à base de milho e farelo de soja.
A importância da treonina se dá pela sua participação na síntese de proteínas, mucina no trato gastrointestinal e imunoglobulinas.
Dessa forma, a exigência de treonina para suínos alimentados com ingredientes fibrosos na dieta deve ser maior para manutenção da integridade da mucosa intestinal. Caso não haja essa suplementação adicional de treonina, o animal direcionará maior parte da treonina dietética para manter as funções do intestino, em detrimento do seu crescimento.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A compreensão da complexa interação entre nutrição e saúde intestinal, além de viabilizar o uso da casca de soja na alimentação de suínos, pode gerar estratégias nutricionais otimizadas para aumentar a lucratividade dos sistemas comerciais de suínos.
Recomendações atuais sugerem limitar a inclusão de casca de soja a 15% em dietas para suínos em crescimento e terminação a fim de evitar prejuízos no desempenho zootécnico.
Entretanto, os resultados sobre a necessidade de cada fração fibrosa na promoção da saúde intestinal dos suínos ainda são escassos. Finalmente, as exigências de treonina descritas nas tabelas nutricionais para suínos não levam em consideração a inclusão de ingredientes fibrosos nas dietas.
Sendo assim, por não contemplarem o aumento da exigência de treonina que ocorre com a utilização de ingredientes fibrosos nas rações, os programas nutricionais apresentam limitações para maximizar a produtividade e a lucratividade da atividade suinícola.
