Por redação suínoNews
SINSUI: A tosse na creche pode esconder mais do que influenza e Mhyo
A tosse na creche pode parecer, à primeira vista, um sinal clínico simples. Mas, no painel “Complexo de Doenças Respiratórias em Suínos de Creche: como estamos frente aos desafios”, que abriu a programação oficial do SINSUI em 21 de maio, a mensagem deixada aos participantes foi mais ampla. O problema respiratório nessa fase dificilmente se explica por um único agente, por um único resultado de PCR ou por uma única ferramenta de controle.
Fernando Bortolozzo
Na abertura oficial, Fernando Bortolozzo, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e coordenador científico do SINSUI, deu as boas-vindas aos participantes, destacou a chegada do simpósio à 18ª edição e lembrou a trajetória construída pelo evento ao longo de quase duas décadas. Em sua fala, ele também valorizou o papel dos apresentadores, moderadores, equipes envolvidas e do ambiente de encontro entre profissionais da área, convidando o público a aproveitar o espaço de troca técnica proporcionado pelo SINSUI.
Daniele Gava
Com palestras de Daniele Gava, da UDESC, Rafael Frandoloso, da Universidade de Passo Fundo, e Ricardo Nagae, da Seara/JBS, o painel reuniu três camadas complementares do mesmo desafio. A primeira foi a interpretação diagnóstica de influenza A suína e Mycoplasma hyopneumoniae na creche. A segunda foi a reavaliação da importância clínica do Actinobacillus suis no Brasil. A terceira foi a construção de estratégias de controle a partir dos fatores de risco presentes em cada granja.
Rafael Frandoloso
O interesse do público apareceu também ao final do painel, quando as perguntas vieram acompanhadas de elogios à qualidade técnica das apresentações. A reação não surpreende, afinal, o tema toca uma das áreas mais sensíveis da produção de suínos, porque doença respiratória na creche não impacta apenas mortalidade. Pode comprometer ganho de peso, conversão alimentar, uso de medicação, uniformidade dos lotes, desempenho posterior e perdas na terminação.
O diagnóstico não termina no PCR
Na primeira palestra do painel, Daniele Gava tratou do papel da influenza e do Mhyo (Mycoplasma hyopneumoniae) em suínos de creche. A pesquisadora apresentou esses agentes dentro de um sistema multifatorial, influenciado por idade dos leitões, queda de imunidade passiva, estresse do desmame, mistura de lotes, pressão de infecção, ambiência, falhas de vazio sanitário e limitações de diagnóstico quando o resultado laboratorial é interpretado de forma isolada.
Um dos pontos centrais foi o alerta de que PCR positivo não fecha diagnóstico sozinho. O teste identifica material genético de determinado agente, mas não responde, isoladamente, se esse agente está vivo, se está associado à lesão observada ou se é o principal responsável pelo quadro clínico. Para Daniele, a interpretação precisa considerar sinais clínicos, lesões, momento de coleta, tipo de amostra e técnicas complementares, como histopatologia e imuno-histoquímica, quando aplicáveis.
Ao diferenciar influenza e Mhyo, Daniele também trouxe uma síntese importante para a leitura do complexo respiratório. A influenza foi apresentada como agente de curso mais rápido, capaz de se disseminar e abrir portas para outros desafios. O Mhyo, por sua vez, foi associado a uma dinâmica mais silenciosa e persistente, com impacto sobre os cílios e o mecanismo de limpeza mucociliar. Quando os dois agentes estão presentes, o problema não deve ser lido apenas como soma de resultados positivos, mas como interação capaz de mudar o curso clínico do lote.
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A. suis ganha peso clínico na discussão respiratória
A segunda palestra ampliou a leitura do painel ao colocar Actinobacillus suis em outro patamar de atenção. Rafael Frandoloso, Rafael Frandoloso, professor da Universidade de Passo Fundo (UPF), defendeu que o agente não deve ser tratado como secundário, raro ou de baixa relevância clínica. Segundo os dados apresentados por ele, há cepas de alta patogenicidade circulando no Brasil, com capacidade de provocar quadros graves mesmo sem coinfecções ou condições imunossupressoras evidentes.
Frandoloso apresentou, em mapa com fonte atribuída à AFK Imunotech, surtos diagnosticados entre 2023 e 2026 em estados do Centro-Oeste, Sudeste e Sul, incluindo registros em MT, GO, MG, PR, SC e RS.
Na distribuição por fase produtiva, a terminação concentrou 79,4% dos isolamentos apresentados, enquanto maternidade e creche responderam por percentuais menores. O dado desloca a percepção de A. suis como problema restrito às fases iniciais e reforça a necessidade de diagnóstico diferencial em quadros respiratórios severos no fim do ciclo.
Outro ponto de atenção foi a diversidade genética e antigênica do agente. Segundo a abordagem apresentada, identificar A. suis não é suficiente para orientar prevenção de forma precisa. Em um mesmo sistema, podem circular cepas antigenicamente diferentes, o que interfere na formulação de vacinas autógenas. Frandoloso também mostrou dados de sensibilidade antimicrobiana de 46 isolados clínicos avaliados entre 2024 e 2026, com percentuais de sensibilidade: sulfametoxazol + trimetoprim 74%, tiamulina 65%, florfenicol 33%, enrofloxacina 22%, amoxicilina 15% e lincomicina 4%; reforçando a necessidade de diagnóstico laboratorial e antibiograma para apoiar decisões terapêuticas.
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Controle depende da realidade da granja
Na palestra de fechamento, Ricardo Nagae, especialista corporativo em Saúde Animal – Suínos da Seara Alimentos, levou a discussão para as ferramentas de controle do complexo de doenças respiratórias em suínos de creche. A mensagem principal foi que não existe receita pronta, ou seja, antes de escolher ferramentas, a granja precisa conhecer sua própria situação, mapear os fatores de risco presentes e entender o peso de cada um no problema respiratório.
Nagae apresentou o complexo de doenças respiratórias dos suínos, conhecido pela sigla CDRS, como um quadro multifatorial, cujo controle precisa ser multidisciplinar. Segundo ele, agentes respiratórios importam, mas não explicam sozinhos a persistência do problema quando há mistura de origens, vazio sanitário insuficiente, ambiência inadequada, falhas de ventilação, baixa qualidade do ar, densidade inadequada, estresse, falhas de colostragem, idade de desmame desfavorável ou fluxo produtivo irregular.
A matriz de fatores de risco defendida pelo palestrante organiza essa tomada de decisão. Entre os pontos citados estiveram biosseguridade interna e externa, transporte, origem dos animais, fluxo de produção, programa vacinal, colostragem, qualidade da água, aclimatação de leitoas, diagnóstico, tratamento, densidade, estrutura e ambiência.
Essa leitura muda a forma de discutir controle respiratório. Vacinação, tratamento e diagnóstico continuam necessários, mas não bastam quando a granja mantém condições que aumentam a pressão de infecção. Para Nagae, controlar o CDRS exige reduzir o desafio do sistema, e não apenas responder ao agente detectado.
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O complexo respiratório como problema de sistema
As três palestras convergiram para uma mensagem comum: O complexo respiratório na creche não deve ser tratado como uma lista de patógenos, mas como resultado de interação entre agente, animal, ambiente, manejo e decisão técnica.
Daniele mostrou que a presença de influenza ou Mhyo precisa ser interpretada com contexto clínico e lesional. Frandoloso reposicionou A. suis como agente que pode ter peso clínico maior do que muitos sistemas ainda reconhecem. Nagae reforçou que a solução depende de matriz de risco, disciplina operacional e controle dos fatores que mantêm a pressão sanitária.
Para a suinocultura, o recado é prático: A tosse na creche não pode ser lida apenas como sintoma de um agente. Ela pode ser sinal de falha de amostragem, coinfecção, imunidade insuficiente, ambiência ruim, mistura de origens, vazio sanitário curto ou estratégia de controle incompleta. Entender essa diferença pode definir se a granja apenas reage ao problema ou passa a controlá-lo de forma mais consistente.
SINSUI: Tosse esconde mais do que influenza e Mhyo
