Disenteria suína: a complexidade por trás de um controle ainda desafiador
A disenteria suína (DS) é uma doença infecciosa e contagiosa frequentemente observada em suínos nas fases de crescimento e terminação. Caracteriza-se por diarreia muco-hemorrágica e por lesões fibrino-hemorrágicas presentes exclusivamente no ceco e cólon.
A DS é descrita como uma enfermidade de alta morbidade e baixa mortalidade, que compromete o bem-estar animal, reduz o ganho de peso e acarreta significativo impacto econômico.
Brachyspira hyodysenteriae, um dos agentes etiológicos da DS, é uma espiroqueta gram-negativa, β-hemolítica, anaeróbia e tolerante ao oxigênio, transmitida pela via fecal-oral. B. hampsonii e B. suanatina são também associadas a DS.
A persistência de B. hyodysenteriae no ambiente é favorecida por baixas temperaturas e pela presença de fezes, permitindo sua sobrevivência por longos períodos (BOYE et al., 2001).
No entanto, a bactéria é sensível à dessecação, ao calor e ao pH ácido, não sobrevivendo por longos períodos fora do hospedeiro quando exposta ao ar e à luz solar (CHIA; TAYLOR, 1978).
Em leitões após o desmame, a DS apresenta uma taxa média de morbidade de 90% e mortalidade de até 30%, dependendo do tratamento adotado (HAMPSON; BURROUGH; COSTA, 2026).
A DS é uma doença com patogênese complexa e ainda pouco estudada. Desta forma, o aparecimento da doença e a intensidade do quadro clínico são influenciados por múltiplos fatores, incluindo:
- Nível de estresse do suíno
- Carga infecciosa
- Estágio de crescimento do microrganismo
- Dieta
- Número de animais no grupo e
- Peso corporal do hospedeiro
Além disso, a interação com a microbiota intestinal do hospedeiro desempenha um papel relevante nos casos de SD (PÉREZ-PÉREZ et al., 2026).
O patógeno é disseminado pela introdução de animais portadores no rebanho e pela eliminação de Brachyspira spp. nas fezes de suínos com manifestações clínicas, por meio de alimentos, água, veículos e fômites contaminados, bem como por visitantes ou outros reservatórios, como cães, aves e ratos (HAMPSON; BURROUGH; COSTA, 2026).
A patogênese da DS é complexa, e os fatores subjacentes às causas das lesões após a infecção por Brachyspira spp. ainda estão sendo estudados. Uma das principais peculiaridades relacionadas à doença é a necessidade da presença e da ação sinérgica de outros microrganismos anaeróbios comensais presentes na microbiota intestinal (HARRIS; GLOCK, 1972).
A infecção ocorre pela ingestão de material contaminado, principalmente proveniente das fezes de suínos doentes ou subclínicos. Ao atingir o intestino grosso, as criptas da mucosa constituem os principais sítios de colonização para Brachyspira spp. Uma vez estabelecida a colonização, as espiroquetas podem ser detectadas nas fezes dos suínos entre um e quatro dias antes da observação dos sinais clínicos.
Conforme descrito anteriormente, a DS caracteriza-se por diarreia muco-hemorrágica, causada pela falha da capacidade absortiva do cólon, decorrente do transporte deficiente de sódio e cloreto.
Associado a esse fator, ocorre formação abundante de muco pelas células caliciformes do cólon. Suínos acometidos pela DS produzem até cinco vezes mais mucina do que animais sadios.
B. hyodysenteriae coloniza a camada de muco e é frequentemente encontrada profundamente nas criptas do cólon, provavelmente devido à sua forte quimiotaxia por mucinas (KENNEDY; YANCEY JR, 1996).
Durante a disenteria suína, observa-se aumento acentuado na síntese de sialomucinas, pelas quais B. hyodysenteriae apresenta quimiotaxia. Descreve-se que o muco formado durante a DS aumenta o número de sítios de adesão disponíveis para a espiroqueta (QUINTANA-HAYASHI et al., 2019). Dessa forma, a bactéria penetra mais facilmente em camadas mais profundas.
Destaca-se que B. hyodysenteriae apresenta motilidade em saca-rolhas, gerada pelos flagelos periplásmicos, os quais auxiliam na penetração da camada de muco (KENNEDY; ROSEY; YANCEY, 1997).
À medida que a doença progride, observa-se um perfil pró-inflamatório, com aumento de citocinas como IL-1 Esse mecanismo local permite uma resposta inicial do hospedeiro à B. hyodysenteriae, atuando como quimioatraente e recrutando células da imunidade inata na tentativa de impedir novas invasões do cólon (JONASSON et al., 2006; KRUSE et al., 2008; ENNS; HARDING; LOEWEN, 2019).
Assim, surgem lesões inflamatórias catarrais caracterizadas por infiltração leucocitária e intensas alterações circulatórias locais, com marcada dilatação capilar, edema da mucosa e, por fim, hemorragia da mucosa com formação de fibrina (BURROUGH et al., 2012; RUBIN et al., 2013). Sistemicamente, observa-se aumento de neutrófilos e monócitoscirculantes, associado à elevação das proteínas de fase aguda séricas, como a amiloide A e a haptoglobina (JONASSON et al., 2006).
Assim, a suplementação da dieta com cepas de bactérias benéficas (probióticos) apresenta potencial para proteger o hospedeiro contra Brachyspira spp (HAMPSON et al., 2019; HELM; GABLER; BURROUGH, 2021).
Entre os principais fatores de risco para a introdução da doença em uma propriedade destaca-se a ausência de medidas adequadas de biosseguridade. Dessa forma, a eliminação de fatores de risco por meio de práticas de limpeza e desinfecção nas instalações, aliada à adoção de outras medidas de biosseguridade, é fundamental (BURROUGH; SEXTON, 2013).
Caso seja tarde demais, o controle de surtos baseia-se principalmente no uso de antibióticos da classe das pleuromutilinas, como a tiamulina. Esse controle tem se tornado mais desafiador devido à limitada variedade de tratamentos disponíveis e à necessidade de reduzir o uso de antimicrobianos na produção animal. No entanto, ao longo dos anos, tem sido relatada uma redução da susceptibilidade de B. hyodysenteriae à tiamulina em diversos países (HAMPSON et al., 2019).
Não existem vacinas comerciais disponíveis contra a disenteria suína, embora diversas estejam em fase experimental.
Em junho de 2025, a Agência Europeia de Medicamentos emitiu um documento recomendando a aprovação de um produto que pode se tornar a primeira vacina contra Brachyspira hyodysenteriae autorizada para comercialização. Esse parecer indica que o Comitê de Medicamentos Veterinários (CVMP) europeu avaliou a documentação científica apresentada e emitiu uma opinião positiva quanto à segurança e à eficácia do produto, representando o primeiro passo para sua autorização na Europa.
A vacina é composta por uma cepa inativada da bactéria. No entanto, enquanto não houver resultados da sua aplicação em campo, permanecem dúvidas quanto à sua utilidade prática, efetividade e viabilidade de comercialização em outros continentes a um custo acessível para os produtores (EMA, 2025).
A disenteria suína é uma doença relevante na suinocultura, que resulta em perdas de desempenho e mortalidade, com significativo impacto econômico. Sua patogênese é peculiar, pois requer um microbioma específico que permita a colonização e multiplicação do agente etiológico, Brachyspira spp.
Essas bactérias apresentam mecanismos específicos que afetam os componentes mucosal, celular e imunológico do intestino grosso, resultando nas manifestações clínicas observadas.
Considerando que atualmente não existe vacina comercial disponível contra essa doença e que o mercado internacional tende cada vez mais a reduzir o uso de antimicrobianos, torna-se essencial buscar estratégias alternativas nutricionais e de manejo para impedir seu impacto nos sistemas de produção.
