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Exportação de carne suína cresce, mas receita recua: Filipinas ajudam a explicar movimento

Por redação suínoBrasil.

O Brasil está exportando mais carne suína, mas o crescimento dos embarques não vem acompanhado de avanço proporcional da receita. Em agosto, o volume exportado aumentou cerca de 8% na comparação anual, enquanto o faturamento recuou 1,7%, segundo dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

O movimento evidencia uma mudança na dinâmica do comércio internacional da proteína. O Brasil mantém espaço nos mercados externos, mas a composição dos destinos e das negociações passou a ter peso maior no resultado financeiro das exportações.

Para o presidente da ABPA, Ricardo Santin, a relação entre volume e receita é influenciada por diferentes fatores do comércio internacional, entre eles mix de produtos, logística e demanda dos compradores.

Ricardo Santin.

“A correlação volume-receita é definida por uma infinidade de fatores relativos ao trade global.”

Segundo Santin, a suinocultura brasileira atende mais de 90 destinos, com diferentes níveis de demanda e valor agregado. Por isso, o resultado não pode ser atribuído a uma única estratégia comercial.

Não é possível definir um único ponto ou estratégia empresarial. Cada empresa define a sua, e temos dezenas de exportadores.”

Uma análise da Safras & Mercado, porém, identifica um movimento específico que ajuda a explicar o recuo do valor médio obtido pelos embarques: a mudança de comportamento das Filipinas, importante destino da carne suína brasileira.

Filipinas mudam posição após recompor estoques

Para Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, a principal explicação para o descompasso entre volume e receita está na redução do valor médio das exportações, especialmente em função do mercado filipino. Segundo ele, o Brasil enviou grandes volumes de carne suína às Filipinas durante o primeiro quadrimestre, quando as negociações eram realizadas em níveis elevados. Com a recomposição dos estoques, os compradores passaram a ter maior poder de barganha. Esse movimento abriu espaço para renegociações de contratos em condições menos favoráveis aos exportadores brasileiros.

Fernando Iglesias

“O fator principal sobre esse descompasso entre receita e volume está na queda do preço médio da exportação. Isso vai ser atribuído muito pelo papel das Filipinas nesse processo de importação.”

Na avaliação de Iglesias, o cenário observado no início do ano não deve ser tomado como referência para os próximos meses. A fase de forte valorização das vendas para o país asiático perdeu força depois que os estoques foram recompostos.

“Aquela fase brilhante que nós vivemos de exportação de carne suína, em que os preços pagos pelas Filipinas eram muito acentuados, já passou.

A mudança não significa, contudo, perda de espaço para o produto brasileiro. O analista espera que os embarques continuem em patamar elevado, ainda que em um ambiente de negociação diferente.

Volume deve sustentar as exportações

Para os próximos meses, Iglesias projeta manutenção de bons volumes exportados, com possibilidade de alguma recuperação das cotações internacionais. A expectativa, entretanto, é de uma recomposição moderada, sem retorno imediato aos níveis observados durante o período de maior valorização das vendas às Filipinas.

“Tem uma perspectiva de leve elevação desses preços internacionais da carne suína, mas não dá para imaginar altas agressivas também dos cortes suínos.”

Na prática, isso significa que o desempenho das exportações poderá continuar contribuindo para o escoamento da produção brasileira, mas o crescimento do volume embarcado não deve ser interpretado isoladamente como melhora das condições comerciais.

Mix de destinos ganha importância

É justamente nesse ponto que a avaliação da ABPA complementa a análise da Safras & Mercado. Santin destaca que o efeito da redução do valor médio varia entre empresas e produtos. Um exportador pode aceitar uma negociação com menor remuneração imediata para ampliar presença em determinado mercado ou estabelecer uma relação comercial de longo prazo.

“Pode ocorrer, por exemplo, de determinada empresa destinar produtos a um mercado com preço médio pouco inferior, por enxergar oportunidade de uma relação de mais longo prazo.”

Ao mesmo tempo, há mercados nos quais a demanda por produtos de maior valor agregado vem crescendo. Segundo Santin, esse é o caso do Japão, citado como um dos destinos que ampliaram os volumes adquiridos do Brasil.

“Fato é que o trade global segue pressionado e mercados de alto valor agregado ampliaram volumes neste ano – como é o caso do Japão.”

Imagem do portal da ABPA (17/09): Comitiva da ABPA em Tóquio.

A leitura conjunta das duas fontes indica, portanto, que o resultado das exportações não depende apenas da quantidade embarcada. O destino da carne, o perfil dos produtos comercializados e as condições negociadas em cada mercado passaram a ter papel relevante na receita obtida pelo setor.

Pressão externa se soma ao mercado doméstico

A dinâmica internacional ocorre enquanto a suinocultura brasileira enfrenta um cenário de maior pressão no mercado interno. Em agosto, o Cepea apontou que o preço médio real do suíno vivo na praça SP-5 atingiu o menor nível de sua série histórica, iniciada em março de 2002. Segundo o centro de estudos, o enfraquecimento da demanda final por carne suína reduziu as compras de animais pela indústria e contribuiu para a queda das cotações. Do lado dos custos, os produtores também encontraram pressão.

Dados da Embrapa Suínos e Aves mostram que o custo de produção do suíno em Santa Catarina passou de R$ 6,29 para R$ 6,35 por quilo em agosto, alta de 0,96% no mês.

Relatório Embrapa – Agosto/ 2026.

A alimentação continua sendo o principal componente da estrutura de custos, representando 72,53% do total. O grupo avançou 0,98% em agosto e acumula alta de 4,29% em 12 meses.

Imagem criada pela IA.

Assim, a cadeia chega ao segundo semestre com três movimentos simultâneos:

  1. Exportações mantendo volumes relevantes;
  2. Mercado externo operando em condições menos favoráveis que as observadas no início do ano e
  3. Demanda doméstica ainda pressionada.

Para o produtor, o resultado dos próximos meses dependerá da capacidade das exportações de sustentar o escoamento da produção, de uma eventual recuperação do mercado internacional e, principalmente, de uma reação da demanda interna que permita recompor as cotações ao longo da cadeia.

Alta nas exportações e baixo faturamento. Cadê o gargalo?

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