Gestão do microclima na maternidade suína: equilíbrio térmico entre porcas e leitões
O setor de maternidade representa uma das fases mais críticas da produção suinícola, pois concentra fatores decisivos para o desempenho zootécnico e econômico da granja. Nesse ambiente, a interação entre porcas em lactação e leitões neonatos demanda um manejo diferenciado, uma vez que as necessidades térmicas são divergentes entre ambos.
O microclima, entendido como o conjunto de condições ambientais que envolvem diretamente o animal, incluindo:
- Temperatura
- Umidade relativa
- Ventilação
- Radiação térmica e
- Qualidade do ar
exerce papel fundamental no bem-estar, saúde e produtividade dos animais (Perdomo, 2020).
Manter condições adequadas de ambiência significa ajustar essas variáveis ambientais de modo a atender simultaneamente as exigências fisiológicas da matriz e da leitegada, minimizando o estresse térmico e favorecendo o desempenho zootécnico (Damasceno et al., 2019).
Um dos principais desafios no manejo ambiental da maternidade está relacionado às exigências térmicas contrastantes entre porcas e leitões.
Enquanto a porca em lactação apresenta maior conforto em temperaturas moderadas, geralmente entre 18 e 22 °C, devido ao metabolismo intensificado pela produção de leite que a torna mais susceptível ao estresse por calor (Quiniou et al., 2000).
Os leitões recém-nascidos necessitam de temperaturas elevadas, em torno de 32 a 34 °C nos primeiros dias de vida, decrescendo gradualmente até cerca de 26 °C ao final da lactação (Silva et al., 2017).

Essa discrepância exige a criação de microambientes diferenciados dentro da mesma baia, o que é viabilizado por meio de creep areas, fontes de calor suplementares e sistemas de ventilação direcionados.
No caso dos leitões, a mortalidade neonatal ainda constitui um dos maiores entraves produtivos, podendo alcançar até 15 a 20% do total de nascidos, sendo a hipotermia uma das principais causas de óbito nas primeiras 72 horas de vida (Muns et al., 2016).
Por essa razão, o fornecimento de calor suplementar torna-se imprescindível. As tecnologias mais empregadas incluem lâmpadas infravermelhas, que possuem baixo custo, mas eficiência energética limitada e riscos de queimadura; placas térmicas aquecidas, que fornecem calor por condução e criam uma área homogênea de aquecimento; e sistemas de piso aquecido por água quente, mais sofisticados, que proporcionam temperatura estável, embora impliquem em maior investimento inicial (Weng et al., 2019).
Além da escolha do equipamento, a posição estratégica da fonte de calor é fundamental para que os leitões tenham livre acesso ao aquecimento sem comprometer a movimentação da porca. Recomenda-se que o creep seja instalado próximo ao úbere, mas com isolamento físico suficiente para evitar esmagamentos (Hötzel et al., 2019).
No que se refere às matrizes, a elevada ingestão de ração e a intensa produção de leite durante a lactação aumentam a demanda metabólica, tornando as porcas particularmente sensíveis ao estresse térmico. Esse problema é agravado quando a temperatura ambiente ultrapassa 25 °C, pois ocorre redução significativa no consumo de ração, aumento da perda de peso corporal e prolongamento do intervalo desmame-estro (Black et al., 1993).

Medidas de manejo, como o uso de:
- Ventilação natural ou forçada
- Sistemas de nebulização e
- Resfriamento evaporativo
Além disso, o adequado dimensionamento das instalações e manutenção da higiene, são estratégias que auxiliam na dissipação do calor (Renaudeau et al., 2011). Contudo, deve-se ter cuidado com sistemas de resfriamento evaporativo em regiões quentes e úmidas, pois o excesso de umidade compromete a troca de calor por evaporação.
A umidade relativa, aliás, é outro parâmetro essencial no microclima da maternidade. Valores ideais situam-se entre 60 e 70%, pois níveis superiores a 80% dificultam a dissipação de calor por evaporação, enquanto valores inferiores a 40% podem ocasionar ressecamento das mucosas e predisposição a doenças respiratórias (Silva et al., 2017).
O sistema de ventilação deve, portanto, garantir não apenas a adequada renovação do ar e a remoção de gases nocivos, como amônia, dióxido de carbono e sulfeto de hidrogênio, mas também manter velocidades de ar compatíveis com as necessidades dos animais, evitando correntes de ar diretas sobre os leitões, que poderiam levar a perdas térmicas indesejáveis
Em relação à qualidade do ar, recomenda-se que a concentração de amônia não ultrapasse 20 ppm e a de dióxido de carbono se mantenha abaixo de 3.000 ppm, sendo que a correta gestão dos dejetos e a limpeza periódica das instalações são fundamentais para manter esses parâmetros dentro de limites aceitáveis (Nääs et al., 2014).

Outro aspecto relevante é a radiação térmica, que pode aumentar a carga calórica no interior da maternidade. O uso de materiais isolantes na cobertura e a correta orientação das edificações são medidas de caráter estrutural que contribuem para reduzir os efeitos da radiação solar direta. Paralelamente, a iluminação artificial deve ser ajustada de modo a favorecer o comportamento natural dos animais, sendo recomendado manter pelo menos 50 lux nas primeiras semanas de vida dos leitões, garantindo que encontrem o úbere e tenham acesso facilitado às áreas aquecidas (Marchant-Forde, 2009).
A gestão do microclima, portanto, deve ser encarada de forma integrada, combinando a divisão de ambientes para atender:
- As necessidades distintas de porcas e leitões
- O monitoramento contínuo por meio de sensores de temperatura e umidade relativa
- A higienização rigorosa das instalações
- O treinamento dos funcionários na interpretação de sinais comportamentais dos animais e
- A adaptação das estratégias de ventilação e aquecimento às variações sazonais.
Leitões amontoados, por exemplo, sinalizam frio excessivo, enquanto leitões muito espalhados podem indicar superaquecimento; já a inquietação das porcas ou sua recusa em alimentar-se são indicativos clássicos de desconforto térmico.
A correta gestão do microclima na maternidade é determinante para a sobrevivência, o desempenho e o bem-estar de porcas e leitões. Ajustes adequados de temperatura, umidade, ventilação, qualidade do ar e iluminação resultam em menores índices de mortalidade neonatal, maior eficiência alimentar das matrizes, produção láctea consistente e redução de custos relacionados a tratamentos sanitários.
Embora tecnologias automatizadas de climatização tenham ampliado a precisão no controle ambiental, o manejo prático e a observação cotidiana continuam sendo ferramentas indispensáveis para o sucesso da produção.
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