A suinocultura enfrenta diversos desafios nutricionais, sanitários, genéticos e de manejo. Entre esses desafios, o clima muitas vezes é deixado de lado por não parecer influenciar tanto na produção, mas desempenha um papel fundamental no desenvolvimento dos animais e afeta outros aspectos da produção. Um exemplo disso são os desafios que os produtores enfrentam com a chegada do inverno.

No Brasil, o inverno ocorre entre os meses de junho a setembro e suas características podem ser muito diferentes dependendo da região do país. Como as granjas estão distribuídas desde regiões tropicais até subtropicais, os efeitos desta estação serão sentidos de maneira distinta.

No Sul, temos temperaturas mais baixas, que, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia em 2025, registrou mínimas abaixo de -5°C, enquanto para o Centro-Norte o inverno foi marcado por aumento nas temperaturas máximas, com valores que ultrapassaram 40°C em algumas cidades. Dessa forma, as granjas localizadas em regiões nas quais as alterações climáticas sazonais são mais evidentes precisam tomar uma atenção maior ao manejo e incidência de doenças respiratórias.

Estudos epidemiológicos reforçam que o inverno não atua de forma isolada, mas em conjunto com outros fatores produtivos. O período de inverno, associado a uma alta densidade regional de granjas e a um grande tamanho de plantel, constitui um importante fator de risco para a disseminação de patógenos respiratórios (Maes et al., 2000). Esses fatores aumentam a pressão de infecção e favorecem a manutenção de agentes no ambiente, potencializando surtos respiratórios em sistemas intensivos de produção.

Entre os principais cuidados durante o inverno, podemos citar o manejo de animais na creche, período no qual os fatores estressantes são mais acentuados, que acabam promovendo queda da imunidade desses animais. Os fatores estressantes mais evidentes ocorrem devido à mudança de ambiente, separação da mãe, conflito social, mistura de lote e transição nutricional (ABCS, 2014).

Dentre esses fatores, um dos mais importantes é a temperatura ambiental na qual os leitões estão em conforto térmico. Em temperaturas mais baixas, como pode ocorrer em dias mais frios, os leitões podem apresentar estresse por frio e até óbito (Zimmerman et al., 2025).

A temperatura corporal dos suínos é de 39°C, podendo variar de acordo com a idade, e a sua regulação é feita através de mecanismos fisiológicos e comportamentais, de forma que em grandes amplitudes térmicas ocorre um maior gasto energético para a manutenção da temperatura corporal (Zimmerman et al., 2025). Dessa forma, é importante manter os animais dentro da zona de conforto térmico para evitar gastos energéticos excessivos com a elevação da temperatura corporal em dias que a temperatura ambiente esteja mais baixa (ABCS, 2014).

A qualidade do ar dentro das instalações está relacionada à concentração de contaminantes presentes no ambiente, os quais podem comprometer tanto a saúde quanto o desempenho produtivo dos animais (Zhang, 2005). Os principais gases gerados em granjas suinícolas são a amônia, o dióxido de carbono e o sulfeto de hidrogênio, que apresentam potencial tóxico para componentes do sistema respiratório, afetando células responsáveis pela produção de muco e predispondo a doenças respiratórias como pneumonia e rinite atrófica. Além disso, também podem causar perda de apetite e doenças entéricas (Barcellos et al., 2008.; ABCS, 2014).

Nas granjas de suínos, as instalações de creche são as que possuem maior concentração de poeira, relacionado com maior atividade dos animais, tipo de alimentação e manejo das instalações (Barcellos et al., 2008; ABCS, 2014). Durante o inverno, esse cenário pode se agravar devido à redução da ventilação para conservação de calor, favorecendo o acúmulo de partículas no ambiente.

A poeira presente nas instalações pode atuar como veículo de bactérias, fungos e endotoxinas, aumentando o risco de doenças respiratórias. Além disso, queda na umidade do ar, comuns nessa estação, podem comprometer a fluidez do muco das vias respiratórias, prejudicando os mecanismos de defesa e facilitando a infecção por agentes patogênicos. Nesse contexto, recomenda-se manter a umidade relativa do ar entre 60 e 80% para minimizar esses efeitos (Barcellos et al., 2008).

A  transmissão de enfermidades por via aérea ocorre por meio de aerossóis e gotículas contendo patógenos que se dispersam no ambiente e entram em contato com os animais. A sobrevivência e disseminação desses patógenos no ar estão diretamente relacionadas a fatores ambientais, como temperatura e umidade relativa, sendo favorecidas por temperaturas mais baixas, variações de umidade e ventos moderados, condições comuns durante o inverno (Zimmerman et al., 2025, Alarcón et al., 2021).

É importante destacar o Complexo de Doenças Respiratórias Suínas (CDRS), que é uma das principais causas de perdas na produção. O CDRS é caracterizado pela interação entre diferentes patógenos respiratórios que interagem entre si de maneira complexa, sendo descritas interações entre vírus-vírus, vírus-bactérias e bactérias-bactérias.

As infecções vírus-bactéria estão entre as principais causas do CDRS, principalmente em casos com alta prevalência bacteriana. Os agentes causadores do CDRS incluem patógenos como o vírus da síndrome reprodutiva e respiratória suína (PRRSV), o circovírus suíno tipo 2 (PCV-2), o vírus da influenza A suína, o vírus da doença de Aujeszky, bem como Mycoplasma (M.) hyopneumoniae e Actinobacillus (A.) pleuropneumoniae (Opriessnig et al., 2011).

O CDRS é caracterizado por sinais clínicos respiratórios e baixo desempenho dos animais. Com a intensificação da produção, a incidência do CDRS aumentou nas populações suínas, levando a perdas econômicas devido ao retardo no crescimento dos animais e aumento dos custos com medidas preventivas, como a utilização de antimicrobianos e vacinação, tornando-se um grande desafio à lucratividade na suinocultura (Chae, 2016).

A incidência dos patógenos do CDRS está associada a fatores ambientais e práticas de manejo que podem favorecer a infecção por esses patógenos, causando graves problemas de saúde em suínos desmamados em fase de recria até o abate (Thacker, 2001).

A sazonalidade influencia diretamente a prevalência de patógenos respiratórios específicos. Agentes como o vírus da PRRSV, ausente no Brasil, e M. hyopneumoniae apresentam maior taxa de detecção durante o inverno, especialmente entre os meses mais frios. Esse aumento está associado à maior capacidade de sobrevivência de vírus em ambientes frios, além de condições que favorecem sua transmissão (Wang et al., 2025).

A influência da sazonalidade sobre os patógenos respiratórios suínos varia conforme a fase de produção. Em leitões jovens (3–5 semanas), não são observadas diferenças sazonais significativas, porém em fases posteriores, como pós-desmame e terminação, diversos agentes apresentam variações marcantes.

Nesse período, tanto infecções isoladas quanto coinfecções envolvendo M. hyopneumoniae, PRRSV e o PCV-2 tendem a apresentar maior prevalência no inverno, reforçando o papel dessa estação na intensificação do CDRS, embora alguns patógenos, como A. pleuropneumoniae, sejam mais frequentes em períodos mais quentes. Além disso, fatores climatológicos como umidade relativa, amplitude térmica, velocidade do vento e radiação solar estão diretamente associados à dinâmica dessas infecções (Vangroenweghe et al., 2021).

A relação entre fatores ambientais e doenças respiratórias também é observada na dinâmica da influenza suína. Variações sazonais de temperatura e umidade absoluta têm sido associadas à sobrevivência e transmissibilidade do vírus da influenza. Embora os suínos sejam mantidos em instalações com ambiente controlado, fatores externos ainda exercem influência indireta, especialmente por meio dos sistemas de ventilação, que são ajustados conforme a temperatura ambiente. Dessa forma, condições climáticas externas podem impactar a circulação viral dentro das granjas (Chamba Pardo et al., 2017).

A ventilação adequada das instalações é fundamental para a remoção de gases, poeira, e controle de umidade e microrganismos, contribuindo diretamente para a prevenção de doenças respiratórias. No entanto, a redução excessiva da ventilação durante o inverno, com o objetivo de manter o calor, pode comprometer a qualidade do ar e favorecer o acúmulo de contaminantes, enquanto o aumento da ventilação pode intensificar o estresse térmico por frio, especialmente em leitões na fase de creche.

Assim , é essencial manter uma ventilação mínima que garanta a renovação do ar sem prejudicar o conforto térmico dos animais. No contexto brasileiro, o controle ambiental frequentemente depende do manejo de cortinas e nas épocas em que há grande variação térmica ao longo do dia, a capacitação da mão de obra é determinante para assegurar condições adequadas e evitar prejuízos sanitários e produtivos (Barcellos et al., 2008; ABCS, 2014).

Além dos fatores climáticos, o manejo das instalações durante o inverno desempenha papel decisivo na ocorrência de doenças respiratórias em suínos. A prática de vedação ou redução da ventilação para conservar o calor, embora comum, pode comprometer a renovação do ar e favorecer o acúmulo de gases tóxicos, além de aumentar a concentração de poeira e microrganismos.

Esse ambiente contribui para a irritação das vias respiratórias e para a redução dos mecanismos de defesa dos animais, criando condições favoráveis ao desenvolvimento do Complexo de Doenças Respiratórias Suínas.

Nesse cenário, o principal desafio consiste em equilibrar conforto térmico e qualidade do ar, por meio de estratégias adequadas de manejo ambiental, controle sanitário e monitoramento contínuo das instalações. Assim, compreender a interação entre fatores climáticos, práticas de manejo e agentes infecciosos é fundamental para a adoção de medidas eficazes, promovendo sistemas produtivos mais eficientes, especialmente diante da intensificação da produção e da crescente variabilidade climática.

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