Menos poesia, mais tecnologia: ambiência como fator decisivo na eficiência da produção

Durante o Congresso Nacional ABRAVES, o professor Bruno Silva (UFMG), coordenador do Núcleo de Estudos em Produção de Suinos (NEPSUI) e referência em nutrição e ambiência em clima tropical, falou à suinocultura brasileira sobre um tema recorrente — e ainda subestimado: o impacto da ambiência nos resultados produtivos.

A ambiência é tema frequente nos eventos do setor. Se todos já sabem que ela é importante, por que continuamos discutindo o assunto? Onde ainda estamos errando?

“Eu costumo dizer que, na produção de suínos — especialmente quando falamos de fêmeas — sobra poesia e falta tecnologia. Ainda há muita percepção empírica e pouca implementação real de soluções técnicas.”

O suíno é um animal extremamente exigente em termos de ambiente, sanidade e manejo. E o que vemos, na prática, são granjas operando com estruturas que não acompanham a evolução dos animais. Nos últimos 20 anos, houve um avanço significativo no potencial genético e na produtividade.

Hoje, um suíno produz cerca de 20% a mais de calor do que produzia duas décadas atrás.

Em clima tropical e subtropical, isso é decisivo. O animal moderno sente mais o calor do que o animal de 20 anos atrás — mas a estrutura de muitas granjas permanece a mesma. E quando se fala em adequação ambiental, o primeiro pensamento é custo. O produtor olha o investimento imediato, mas não calcula o que está perdendo.

No ano passado, estimamos um impacto de aproximadamente R$ 2 bilhões em perdas produtivas e reprodutivas na suinocultura nacional associadas ao estresse térmico.

Eficiência começa pelo ambiente: qual fator observar primeiro?

Temperatura! É o elemento climático mais fácil de medir e interpretar. Mas ela não atua sozinha. Hoje trabalhamos com o conceito de temperatura efetiva, que é a combinação entre:

  • Temperatura do ar
  • Umidade
  • Velocidade do vento e
  • Radiação

O que importa é a temperatura que incide sobre o animal. O suíno é homeotérmico e precisa manter sua temperatura corporal dentro de uma faixa estável. Quando o ambiente deixa de permitir isso, o metabolismo é alterado e surgem perdas produtivas,” conclui Bruno Silva.

Como a interação entre temperatura, umidade e ventilação impacta o desempenho?

O suíno não transpira e depende da frequência respiratória e das chamadas trocas sensíveis, que dependem do gradiente de temperatura entre a superfície corporal e o ambiente.

Menos poesia, mais tecnologia: ambiência como fator decisivo na eficiência da produção

Ambiência como fator decisivo na eficiência da produção

O calor sempre flui do meio mais quente para o mais frio. Se o ambiente está mais frio que a superfície do animal, ele perde calor. Se está mais quente, ele ganha calor.

O objetivo dos sistemas de climatização é otimizar esse gradiente e facilitar a dissipação térmica.

A ventilação acelera esse processo por convecção — o ar remove o calor da superfície corporal. Já a umidade pode dificultar a perda de calor pela respiração. Por isso falamos em temperatura efetiva.

Para ilustrar: a 30°C com 65% de umidade, o impacto no desempenho pode ser de 250 a 300 gramas por animal por grau Celsius. Se essa umidade sobe para 90–95%, o impacto pode chegar a 500–600 gramas por grau.

Ou seja, o animal sente muito mais quando as variáveis se combinam de forma desfavorável.

Isso explica também por que o resfriamento evaporativo funciona em ambientes quentes e secos, mas perde eficiência em ambientes quentes e úmidos. É preciso entender o clima antes de definir o sistema.

Clique aqui e assista a entrevista completa no canal agriNews Play Brasil.

Quando ambiência e nutrição estão alinhadas, qual é o primeiro sinal de ganho?

A expressão do potencial genético. Se o animal consegue manter sua temperatura corporal sem desviar energia para adaptação térmica, ele direciona recursos para crescimento e produção.

Quando há estresse por calor, a porca reduz a produção de leite, pode haver queda na taxa de crescimento dos leitões e até problemas reprodutivos. Ao melhorar o ambiente, o que vemos primeiro é recuperação de consumo e desempenho.

Em um cenário de orçamento limitado, onde investir primeiro para ter retorno rápido?

“Eu sempre pergunto: o que é mais importante, o produto ou a fábrica? A porca é a fábrica. Se ela não estiver em condições ideais, o leitão (o produto) também não estará.”

Portanto, a prioridade deve ser proteger a fêmea, especialmente na maternidade. Ao garantir conforto térmico à porca, potencializamos a produção de leite e entregamos leitões mais pesados.

Há evidências mostrando que manter a porca a 17°C na maternidade, com aquecimento localizado para o leitão (piso aquecido ou escamoteador eficiente), melhora o desempenho geral. Atende-se a porca sem comprometer o leitão.

Em estudos conduzidos na universidade, desenvolvemos sistemas de resfriamento de piso para porcas lactantes. Ao resfriar a área de contato da fêmea, aumentamos em cerca de 22% o consumo e até 25% a produção de leite. É possível modular o microclima da porca sem interferir no leitão.

Outro exemplo prático é o resfriamento da água de bebida. Ao fornecer água a 18°C, observamos aumento de 1 kg no consumo de ração da porca, com reflexos positivos na produção de leite. São intervenções relativamente simples e com retorno mensurável.

Existe um protocolo essencial que qualquer granja possa começar a aplicar imediatamente?

O primeiro passo é avaliar as condições climáticas reais dentro das instalações e ajustar ventilação e fluxo de ar. Muitas vezes, ganhos importantes vêm da melhoria na circulação de ar e da redução da carga térmica.

Na maternidade, é fundamental separar as necessidades térmicas da porca e do leitão. O desafio é justamente esse: a porca precisa de temperaturas mais baixas, enquanto o leitão demanda calor. Soluções que criem microclimas distintos são estratégicas.

A nutrição pode compensar falhas ambientais?

A nutrição ajuda a atenuar os efeitos do estresse térmico, mas não resolve o problema. Ela corrige alterações metabólicas causadas pelo calor, mas o animal continua estressado se o ambiente não mudar.

Jamais obteremos o mesmo resultado apenas ajustando a dieta se o ambiente continuar inadequado. A base é o conforto térmico.

Qual mensagem final o senhor deixa para o setor?

Nós temos ferramentas para reduzir os danos causados pelo ambiente. O que falta é decisão. É preciso investir no ambiente térmico das fêmeas. O retorno vem em produtividade, eficiência e resultado econômico.

 

Em resumo: menos poesia e mais tecnologia. 

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