Programa nutricional para leitões recém-desmamados: redução proteica com suplementação de aminoácidos
Os múltiplos fatores estressores por ocasião do desmame resultam em baixo consumo de ração, além de ocasionar alterações estruturais e funcionais no trato gastrointestinal de leitões recém-desmamados.
Como consequência, no período pós-desmame, os leitões são altamente suscetíveis a distúrbios entéricos, como a diarreia, que resultam em morbidade e mortalidade significativas nos sistemas comerciais de produção de suínos. Um dos desafios da suinocultura é a busca por estratégias nutricionais que otimizem o crescimento animal e, ao mesmo tempo, garantam a saúde intestinal, sendo seguras para o consumo humano, sustentáveis e aceitas pelos consumidores.
Na tentativa de superar os desafios do período pós-desmame, há crescente interesse da comunidade científica em programas nutricionais que utilizam dietas com baixo nível proteico, associadas à suplementação com aminoácidos cristalinos, para leitões recém-desmamados.
FISIOLOGIA DIGESTIVA DO LEITÃO RECÉM-DESMAMADO
O desmame representa uma das fases mais críticas e desafiadoras do ciclo produtivo dos suínos, caracterizando-se por mudanças abruptas na dieta, no ambiente, na hierarquia social e na morfofisiologia dos leitões.
A resposta a esse conjunto de fatores estressores, somada à imaturidade do sistema digestório do leitão, acarreta expressiva redução no consumo de ração, condição comumente referida como atraso do crescimento pós-desmame.
A substituição do leite materno, alimento líquido e altamente digestível, por uma dieta sólida de menor digestibilidade, contribui ainda mais para a diminuição da ingestão de ração pelo leitão. Durante esse período de transição, são observadas alterações na morfologia intestinal, como atrofia das vilosidades e hiperplasia das criptas, que comprometem a digestão e a absorção de nutrientes.
Leitões com até quatro semanas de vida possuem sistema digestório relativamente imaturo devido, em partes, à incapacidade de alcançar pH gástrico apropriado e uniforme, bem como às reduzidas quantidades de enzimas secretadas ao longo do trato gastrointestinal(Figura 1).
No período pós-desmame, a baixa secreção de ácido clorídrico pelas células parietais do estômago do leitão limita a ativação do pepsinogênio em pepsina e, com isso, a digestão de proteínas fica comprometida. A digestão incompleta do alimento, bem como o quimo pouco acidificado, não estimula o duodeno a liberar hormônios, como a secretina, em quantidades adequadas, o que compromete a liberação de bicarbonato e a ação enzimática. Como consequência dessas limitações, o desempenho dos leitões é afetado negativamente nesse período inicial.
Figura 1. Atividade das enzimas lactase, protease, amilase, lipase e maltase em função da idade dos leitões. Fonte: Bonagurio, 2024.
IMPLICAÇÕES DAS DIETAS COM ALTA PROTEÍNA PARA LEITÕES RECÉM-DESMAMADOS
Diversas tabelas e manuais estão disponíveis como ferramenta de apoio para que as dietas sejam formuladas de modo a atender às exigências nutricionais, sem que haja excesso no fornecimento de nutrientes para os animais.
As tabelas publicadas pelo National Research Council em 2012, assim como as Tabelas Brasileiras para Aves e Suínos publicadas em 2024, estabelecem recomendações similares quanto ao nível de proteína bruta (PB) para leitões desmamados.
Portanto, num programa nutricional para a fase de creche, a PB das dietas para leitões entre 6 e 18 kg de peso corporal é geralmente alta, variando entre 21 e 23%.
No período pós-desmame, as dietas são formuladas para atender à alta demanda de aminoácidos essenciais, particularmente a lisina, ao mesmo tempo em que compensam a baixa ingestão de ração dos leitões. Devido ao baixo teor de lisina do milho, é comum a inclusão de grande quantidade de farelo de soja em dietas à base de milho e farelo de soja, a fim de suprir as necessidades desse aminoácido dos suínos, o que aumenta os níveis de PB das rações.
Contudo, a alta ingestão proteica gera desafios consideráveis para a saúde intestinal, com reflexo direto no desempenho dos leitões recém-desmamados.
O trato gastrointestinal imaturo dos leitões apresenta capacidade reduzida de digerir proteínas, resultando em grandes quantidades de proteínas não digeridas no intestino grosso. No cólon, o aumento do pH cria um ambiente mais neutro, que favorece a proliferação de bactérias patogênicas que fermentam proteínas, como Clostridium e Bacteroides.
Como produtos da fermentação proteolítica, destacam-se os ácidos graxos de cadeia ramificada, como os ácidos isobutírico, valérico e isovalérico, fenóis voláteis, amônia e aminas biogênicas.
A produção desses metabólitos pode levar à disbiose intestinal, pois a interrupção da homeostase intestinal causa inflamação e aumenta a permeabilidade do intestino, resultado em diarreia.
Além disso, o acúmulo de proteínas não digerida no intestino ocasiona desequilíbrio osmótico, o que atrai água para o interior do lúmen intestinal e contribui para a ocorrência de diarreia. Esse distúrbio, que acomete leitões principalmente nas primeiras duas semanas pós-desmame, está associado à proliferação de uma ou mais cepas de Escherichia coli enterotoxigênica (ETEC), particularmente as fimbrias F4 (K88+) e F18+.
DIETAS COM REDUÇÃO PROTEICA E SUPLEMENTAÇÃO AMINOACÍDICA
Dentre a ampla variedade de estratégias disponíveis na indústria com o potencial de modular a saúde intestinal de leitões recém-desmamados, a formulação de dietas com níveis mais baixos de PB, mas com níveis ideais de aminoácidos essenciais, tem tido grande enfoque na nutrição de suínos.
O uso de dietas com baixo teor proteico, associadas à suplementação com aminoácidos cristalinos, pode diminuir a proteólise intestinal e a incidência de diarreia pós-desmame, bem como melhorar a utilização do nitrogênio dietético, minimizando o impacto ambiental.
No entanto, o principal entrave à utilização de dietas com redução proteica nos sistemas de produção de suínos, mesmo quando balanceadas para os aminoácidos essenciais, são os efeitos adversos sobre o desempenho zootécnico.
A disponibilidade comercial de oito aminoácidos essenciais em suas formas cristalinas, incluindo:
- Lisina
- Metionina
- Treonina
- Triptofano
- Valina
- Isoleucina
- Histidina e
- Arginina
permite a formulação de dietas com teor reduzido de PB.
Apesar disso, alguns estudos relataram redução no desempenho de leitões quando o nível proteico da dieta foi reduzido em mais de quatro unidades percentuais em relação à exigência do animal, mesmo com o balanceamento adequado dos aminoácidos essenciais.
Os efeitos negativos sobre o desempenho podem ser atribuídos a diversos fatores:
- Dietas com redução acentuada de PB podem causar deficiência de nitrogênio para a síntese endógena de aminoácidos não essenciais;
- A deficiência de nitrogênio pode aumentar a desaminação de aminoácidos essenciais para a síntese de outros compostos nitrogenados; e
- Dietas com baixo teor de PB, ou seja, com menor inclusão de farelo de soja, tendem a ser deficientes em compostos bioativos, como os peptídeos e as isoflavonas, que possuem propriedades antimicrobianas, antioxidantes e imunomoduladoras, importantes para a manutenção da saúde e do crescimento dos suínos.
Suplementar as dietas de baixo teor proteico com todos os aminoácidos essenciais não é o bastante para maximizar o desempenho animal e a eficiência de utilização da proteína em leitões no período pós-desmame.
Para isso, também é essencial garantir uma ótima relação entre aminoácidos essenciais e não essenciais. Nesse sentido, deve-se assegurar que a proteína total fornecida aos suínos supra todas as necessidades, inclusive de aminoácidos não essenciais. Devido ao menor incremento calórico proveniente da redução proteica, a adoção dessa estratégia nutricional também pode aumentar o conteúdo de energia líquida da dieta, causando deposição excessiva de gordura.
Desse modo, dietas com baixo teor proteico suplementadas com aminoácidos cristalinos devem ser formuladas com base em energia líquida, em substituição ao modelo de energia metabolizável, de modo a evitar o aumento não intencional da energia da dieta.
A determinação do limite para a redução do teor de PB da dieta sem que haja redução no desempenho zootécnico é essencial para o sucesso dessa estratégia na suinocultura.
De acordo com um recente estudo de metanálise, o nível mínimo de PB estimado para dietas de leitões em fase de creche é de 18,3%, desde que os níveis ideais dos aminoácidos essenciais sejam mantidos conforme as recomendações do NRC (2012).
Alguns estudos relataram que o teor mínimo de PB é dependente do nível de lisina digestível ileal padronizada (Lis DIE) da dieta, de modo que a relação Lis DIE:PB tem sido utilizada para estimar o nível máximo de redução da PB dietética. Como regra geral, a relação Lis DIE:PB de 6,9% deve ser mantida para permitir nitrogênio suficiente para a síntese de aminoácidos não essenciais. Entretanto, em estudo mais recente, a relação Lis DIE:PB de 6,6% foi proposta para programas nutricionais de suínos em fase de creche.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao considerar os diversos desafios do período pós-desmame, sobretudo os relacionados à imaturidade do trato gastrointestinal, a formulação de dietas com menor teor de PB, associadas à suplementação balanceada de aminoácidos essenciais cristalinos, é uma estratégia nutricional promissora para maximizar o desempenho zootécnico dos leitões recém-desmamados e minimizar os impactos ambientais.
Para tanto, é indispensável que essas dietas garantam adequada relação entre aminoácidos essenciais e não essenciais, e que sejam formuladas com base em energia líquida.
