Prolificidade: como transformar mais nascidos em leitões viáveis
Da prolificidade à viabilidade: transformar o potencial genético em leitões mais uniformes, saudáveis e preparados para a próxima fase é um dos principais desafios da suinocultura moderna
A evolução genética das matrizes suínas elevou de forma expressiva o número de nascidos vivos por leitegada. Mas, à medida que a prolificidade avança, surge uma questão que ganha cada vez mais relevância dentro das granjas: como transformar um número maior de nascidos em mais leitões viáveis ao desmame?
O desafio não está apenas em aumentar a quantidade de animais produzidos por matriz, mas em garantir que esses leitões tenham condições para sobreviver, desenvolver-se e chegar à creche preparados para enfrentar uma nova etapa.
A discussão foi tema de uma entrevista com Murilo Mora de Assis e Renato Delgado Barbosa, da Biochem, no estúdio agriNews Play, durante o 18° Simpósio Brasil Sul de Suinocultura, que abordaram os principais pontos dessa equação: nutrição da matriz, qualidade do colostro e do leite, saúde intestinal, estresse oxidativo, longevidade das fêmeas e uso estratégico de tecnologias nutricionais.
Segundo Murilo, gerente técnico LATAM da Biochem, a genética tem avançado geração após geração na busca por maior prolificidade. Entretanto, existe um limite fisiológico para a capacidade da matriz de gestar e, principalmente, nutrir uma leitegada cada vez maior.
“Cada vez mais, leitegadas maiores” também significam maior ocorrência de leitões de baixo peso e menor viabilidade. O ponto central passa a ser, portanto, preparar fisiologicamente a matriz para que ela consiga oferecer colostro e leite suficientes e de qualidade, além de criar condições para que os leitões, mesmo quando menores ao nascimento, cheguem ao desmame saudáveis e aptos para a creche.
Mais nascidos não significa, necessariamente, mais resultado
O aumento do número de nascidos representa um avanço genético importante, mas não encerra a conta. Um leitão que nasce com baixo peso apresenta maiores desafios ao longo da maternidade e pode ter dificuldade para alcançar o peso esperado ao desmame.
Na prática, isso pode resultar em animais que permanecem mais tempo na maternidade ou que chegam à creche com menor peso e maior vulnerabilidade. Por isso, a meta precisa ser mais ampla: produzir uma leitegada numerosa, mas também viável e uniforme.
Essa mudança de olhar é importante porque o desempenho da matriz deve ser avaliado ao longo de sua vida produtiva. Uma fêmea geneticamente superior, mas que não consegue sustentar bons resultados reprodutivos por problemas sanitários, metabólicos ou locomotores, pode não entregar o retorno esperado sobre o investimento realizado na sua aquisição e manutenção.
Para Renato, gerente de vendas da Biochem, a longevidade da matriz precisa estar associada à lógica econômica da granja. A fêmea deve permanecer produtiva pelo período necessário para que o investimento realizado seja recuperado, enquanto o sistema mantém uma reposição genética adequada.
A matriz como ponto de partida
A capacidade da matriz de sustentar a leitegada não depende de um único fator. Ambiência, estresse térmico, estresse oxidativo, inflamação e nutrição estão entre os elementos que precisam ser considerados de maneira integrada.
O ambiente de produção, especialmente em sistemas intensivos, impõe desafios constantes. A pressão produtiva pode favorecer processos pró-inflamatórios e pró-oxidativos, tornando importante oferecer suporte para que o animal consiga lidar com essas condições sem comprometer sua capacidade produtiva e reprodutiva.
Nesse contexto, os microminerais ocupam uma posição estratégica. Durante a entrevista, Murilo apresentou o BCH Organic Mix, um blend de microminerais que reúne zinco, manganês, cobre e ferro na forma de glicinatos, além de selênio, cromo, iodo e cobalto. De acordo com a empresa, a proposta é atuar nos pilares de saúde e nutrição, oferecendo suporte ao animal em diferentes fases produtivas.
Um dos pontos destacados foi a observação de resultados de campo relacionados à qualidade de patas e aprumos de matrizes. Essa característica tem impacto direto sobre a permanência da fêmea no plantel, uma vez que problemas locomotores podem reduzir sua capacidade de completar o ciclo produtivo esperado.
O produto também é apresentado como uma solução multifases, podendo ser utilizado desde a preparação de marrãs até gestação, lactação, creche e terminação, com ajustes de dose realizados de acordo com a formulação e as necessidades de cada sistema.
Saúde intestinal: o desafio continua depois do nascimento
Se a matriz representa o primeiro elo dessa estratégia, a saúde intestinal do leitão é um dos principais pontos para garantir que o potencial obtido no nascimento seja convertido em desempenho.
A transição alimentar, especialmente na creche, representa um período crítico. A mudança da composição das dietas pode provocar desequilíbrios na microbiota intestinal, aumentando a predisposição a problemas como diarreia e comprometendo o aproveitamento dos nutrientes.
Nesse cenário, a modulação da microbiota ganha espaço como ferramenta preventiva. Durante a entrevista, Murilo destacou o trabalho realizado com o TechnoSpore®, probiótico à base de Bacillus coagulans, desenvolvido para atuar sobre o ambiente intestinal.
Segundo os resultados apresentados, trabalhos realizados em leitões identificaram efeitos relacionados à modulação da microbiota, com redução da presença de bactérias potencialmente patogênicas, incluindo E. coli, além de resultados relacionados a Clostridium. Foram avaliados indicadores como escore de fezes e presença dos microrganismos nas fezes.
No campo, entretanto, nem sempre há disponibilidade para análises laboratoriais. Por isso, indicadores simples continuam sendo fundamentais para o acompanhamento das estratégias: ocorrência e intensidade de diarreia, ganho de peso, conversão alimentar e uniformidade dos animais.
A proposta é estabelecer uma conexão entre aquilo que é observado no laboratório e aquilo que acontece efetivamente dentro da granja. A tecnologia precisa apresentar uma resposta que seja percebida pelo produtor.
Prevenção como estratégia
A discussão sobre saúde intestinal também está diretamente relacionada ao uso racional de antimicrobianos. Mudanças regulatórias, exigências de mercados e decisões estratégicas dos próprios produtores vêm estimulando a busca por ferramentas que permitam reduzir intervenções sem comprometer a saúde e o desempenho dos animais.
A proposta, conforme ressaltado durante a entrevista, não é eliminar o uso de antibióticos, mas trabalhar com racionalidade, estratégia e prevenção. O princípio defendido é que o desafio sanitário deve ser enfrentado antes que ele provoque perdas de desempenho.
Nesse sentido, a avaliação de uma tecnologia precisa ir além de seu custo de inclusão. O que importa é o resultado econômico gerado por ela.
Renato reforça que produtos desenvolvidos ou introduzidos no mercado precisam ser testados nas condições brasileiras, pois os desafios encontrados em diferentes regiões podem variar significativamente. Um resultado obtido em outro país nem sempre representa a realidade encontrada em uma granja brasileira.
Essa validação local também ganha importância quando se considera a diversidade da produção brasileira. Os desafios encontrados no Sul podem ser diferentes daqueles observados em São Paulo, Minas Gerais ou no Nordeste. Por isso, a tecnologia precisa ser adaptada à realidade de cada sistema.
Colostro: um suporte adicional para os primeiros dias
Quando o assunto são leitões pequenos, os primeiros dias de vida assumem importância ainda maior. É nesse período que o animal precisa superar desafios relacionados à imunidade, desenvolvimento intestinal e capacidade de aproveitar os nutrientes disponíveis.
Na entrevista, Murilo apresentou também o Bimulac® Pré, produto composto por colostro bovino em pó, microminerais orgânicos, pré e probióticos e ovo em pó.
É importante destacar que a proposta não é substituir a colostragem materna, mas atuar como complemento nos primeiros dias de vida. As imunoglobulinas podem oferecer suporte à proteção contra determinados desafios, enquanto os fatores de crescimento estão relacionados ao desenvolvimento do epitélio intestinal.
A composição também contempla pré e probióticos e microminerais orgânicos, buscando oferecer suporte simultâneo à saúde intestinal e ao desenvolvimento dos tecidos. O ovo em pó acrescenta uma fonte nutricional e de lecitina, relacionada ao suporte à digestão das gorduras presentes no colostro e no leite materno.
Os resultados apresentados na entrevista incluem redução de diarreia e de intervenções com medicamentos, além da busca por maior uniformidade e viabilidade ao desmame.
O indicador final é o suíno produzido
Em meio a tantas possibilidades tecnológicas, uma pergunta permanece essencial: como saber se determinada estratégia realmente vale a pena?
A resposta passa por indicadores zootécnicos e econômicos. Na maternidade, mortalidade, peso e uniformidade ao desmame são importantes. Na creche, diarreia, ganho de peso e conversão alimentar ajudam a mostrar se o leitão conseguiu transformar o investimento realizado no início da vida em desempenho.
Mas a análise não deve terminar na fase em que a tecnologia foi aplicada. Como destacou Renato, o resultado precisa ser acompanhado ao longo da cadeia. O objetivo final é entregar um suíno com bom desempenho e rendimento adequado ao frigorífico.
Por isso, o retorno sobre investimento, ou ROI, aparece como um dos principais critérios para a adoção de novas soluções. Em um cenário de margens apertadas e alta competitividade, uma tecnologia precisa apresentar resultado suficiente para justificar sua permanência no programa nutricional ou sanitário.
O próximo salto é transformar potencial em resultado
A suinocultura já mostrou que é capaz de produzir leitegadas cada vez maiores. O próximo desafio é fazer com que esse potencial genético seja convertido em mais leitões viáveis, uniformes e preparados para as etapas seguintes.
Isso exige olhar para a cadeia de maneira integrada. A preparação da matriz, a nutrição, a ambiência, a saúde intestinal, a imunidade e os manejos da maternidade não podem ser tratados como estratégias isoladas.
Também exige uma mudança de perspectiva sobre tecnologia. Em vez de buscar apenas produtos que aumentem determinado indicador, a tendência é trabalhar com soluções que contribuam para a estabilidade do sistema e reduzam perdas ao longo do ciclo.
No fim, a pergunta deixa de ser simplesmente “quantos leitões nasceram?” e passa a ser “quantos leitões chegaram ao desmame com qualidade para continuar produzindo?”
