22 jun 2026

Sanidade, bem-estar e gestão: os pilares práticos da sustentabilidade na suinocultura moderna

A sustentabilidade tornou-se um dos conceitos mais presentes nas discussões sobre o futuro da produção animal. Emissões de gases de efeito estufa, uso eficiente da água, preservação dos recursos naturais e economia circular ocupam espaço crescente nas estratégias empresariais, nas exigências dos mercados e nas expectativas da sociedade. Sem dúvida, todos esses temas são fundamentais. […]

Sanidade, bem-estar e gestão: os pilares práticos da sustentabilidade na suinocultura moderna

A sustentabilidade tornou-se um dos conceitos mais presentes nas discussões sobre o futuro da produção animal. Emissões de gases de efeito estufa, uso eficiente da água, preservação dos recursos naturais e economia circular ocupam espaço crescente nas estratégias empresariais, nas exigências dos mercados e nas expectativas da sociedade. Sem dúvida, todos esses temas são fundamentais.

No entanto, existe uma dimensão igualmente importante da sustentabilidade que nem sempre recebe a mesma atenção: a necessidade de produzir alimentos de forma eficiente, segura e resiliente para garantir a Segurança Alimentar.

Na  suinocultura moderna, a sustentabilidade começa muito antes dos indicadores ambientais. Ela nasce da capacidade de transformar recursos em alimento de forma eficiente, reduzindo perdas e preservando a produtividade dos sistemas. E, nesse contexto, poucos fatores são tão determinantes quanto a sanidade e o bem-estar animal sob uma gestão eficiente.

Costumo definir esse conceito como a “sustentabilidade invisível”.

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Cada suíno produzido representa meses de trabalho e um conjunto significativo de recursos investidos ao longo da cadeia produtiva. Há investimento em genética, alimentação, água, energia, medicamentos, infraestrutura, tecnologia, assistência técnica e mão de obra especializada. Quando uma enfermidade compromete o desempenho produtivo ou leva à perda de animais, todos esses recursos foram consumidos sem gerar o resultado esperado: a produção de alimentos para a sociedade.

Sob essa perspectiva, as perdas sanitárias também podem ser compreendidas como perdas ambientais.

Um animal que apresenta pior conversão alimentar, crescimento reduzido ou mortalidade precoce exige mais recursos para produzir menos alimento. Portanto, melhorar a sanidade significa não apenas elevar a produtividade, mas também aumentar a eficiência no uso dos recursos naturais e reduzir a intensidade ambiental da produção.

Essa  visão torna-se ainda mais relevante diante dos desafios globais que se apresentam para as próximas décadas.

Segundo  estimativas internacionais, a população mundial deverá alcançar aproximadamente 9,7 bilhões de pessoas até 2050. Grande parte desse crescimento ocorrerá na Ásia e na África, regiões que também deverão registrar avanços econômicos e aumento do consumo de proteína animal. Ao mesmo tempo, os recursos naturais continuarão limitados, ampliando a necessidade de sistemas produtivos capazes de produzir mais utilizando menos recursos.

Produzir mais com eficiência não será apenas uma vantagem competitiva. Será uma necessidade para garantir a segurança alimentar global.

Nesse cenário, a sanidade animal assume papel central.

As enfermidades representam um dos principais fatores de perda de eficiência dos sistemas produtivos em todo o mundo. Estima-se que as doenças animais gerem perdas econômicas superiores a US$ 300 bilhões por ano. Esses impactos vão muito além dos prejuízos observados dentro das propriedades.

Os custos  mais visíveis incluem mortalidade, gastos com medicamentos, vacinas, assistência veterinária e redução de desempenho produtivo. Entretanto, existe uma parcela significativa de perdas que permanece menos perceptível.

Redução da fertilidade, pior conversão alimentar, atraso no crescimento dos animais, aumento do tempo necessário para atingir o peso de abate, menor aproveitamento tecnológico, restrições comerciais e perda de competitividade fazem parte dos chamados custos ocultos das enfermidades.

Esses impactos afetam não apenas os produtores, mas toda a cadeia de abastecimento de alimentos.

Por isso, a sanidade animal precisa ser encarada como investimento estratégico. Ela protege a produtividade, preserva recursos, reduz desperdícios e contribui diretamente para a sustentabilidade econômica, ambiental e social da atividade.

Essa relação torna-se ainda mais evidente quando observada sob a ótica da Saúde Única (One Health), conceito que reconhece a interdependência entre saúde animal, saúde humana e saúde ambiental.

Atualmente, cerca de 60% das doenças infecciosas emergentes notificadas mundialmente têm origem animal. Além disso, aproximadamente 75% dos novos patógenos identificados nas últimas décadas surgiram a partir de animais domésticos ou silvestres.

 

Esses  números demonstram que biosseguridade, vigilância epidemiológica e prevenção de enfermidades produzem benefícios que vão muito além da produção animal. São ações que contribuem para a saúde pública, para a estabilidade dos sistemas alimentares e para a proteção da sociedade.

Nesse  contexto, o bem-estar animal ocupa posição igualmente estratégica.

Durante  muito tempo, o tema foi associado principalmente às expectativas dos consumidores e às exigências de determinados mercados. Hoje, existe amplo reconhecimento de que o bem-estar também é um importante fator de eficiência produtiva.

Animais submetidos a condições adequadas de manejo, conforto térmico, nutrição equilibrada e redução de fatores estressantes apresentam melhor resposta imunológica, menor susceptibilidade a enfermidades e maior capacidade de expressar seu potencial produtivo.

Bem- estar e sanidade não são agendas independentes. São elementos complementares que atuam de forma integrada para promover produtividade, eficiência e sustentabilidade.

A gestão  constitui o terceiro pilar dessa equação.

Não existe programa sanitário eficiente sem gestão eficiente. A crescente complexidade da produção animal exige monitoramento constante de indicadores, rastreabilidade, análise de dados, capacitação de equipes, protocolos estruturados de biosseguridade e avaliação permanente de riscos.

A gestão é o elo que conecta conhecimento técnico à execução prática. É ela que permite identificar vulnerabilidades, corrigir desvios, medir resultados e garantir a implementação consistente das melhores práticas sanitárias e produtivas.

Esse conjunto de fatores torna-se ainda mais relevante quando observamos a inserção internacional da proteína animal brasileira.

O Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de proteína animal do mundo. Somente os setores de aves e suínos geram mais de quatro milhões de empregos e abastecem consumidores em mais de 150 mercados internacionais.

Essa posição de destaque traz consigo uma responsabilidade adicional.

Os mercados globais avaliam não apenas os produtos exportados, mas também a robustez dos sistemas sanitários, a qualidade dos processos de certificação, a capacidade de vigilância epidemiológica, os mecanismos de rastreabilidade e a transparência das informações fornecidas pelas autoridades competentes.

Em outras palavras, a sanidade tornou-se um ativo estratégico de competitividade.

Não por acaso, costumo afirmar que a sanidade animal é o verdadeiro passaporte para os mercados mais competitivos do mundo.

Para um país exportador, produzir com eficiência é fundamental. Mas preservar a confiança dos parceiros comerciais é igualmente importante.

A experiência internacional recente demonstra isso de forma bastante clara.

Enquanto dezenas de países convivem com desafios relacionados à Influenza Aviária de Alta Patogenicidade e à Peste Suína Africana (PSA), o Brasil mantém um patrimônio sanitário construído ao longo de décadas de investimentos em biosseguridade, pesquisa, assistência técnica e coordenação institucional.

No caso específico da suinocultura, o país permanece livre de PSA há mais de quatro décadas, enquanto diversos países continuam enfrentando seus impactos produtivos, econômicos e comerciais. Apenas entre janeiro e abril de 2025, 27 países registraram mais de 3.200 ocorrências da doença.

Esse  cenário demonstra que o status sanitário não deve ser encarado como uma condição permanente. Trata-se de um patrimônio construído e preservado diariamente por meio de investimentos contínuos em prevenção, vigilância epidemiológica e gestão de riscos.

Os efeitos  das enfermidades ultrapassam os limites das propriedades rurais.

Restrições sanitárias podem comprometer cadeias inteiras de abastecimento, reduzir a disponibilidade de alimentos, pressionar preços e afetar empregos. Experiências recentes em diferentes regiões do mundo demonstram que interrupções nos fluxos comerciais de proteína animal geram impactos que alcançam produtores, indústrias, varejo e consumidores, especialmente aqueles de menor renda.

Por isso, a prevenção continua sendo a estratégia mais eficiente.

Cada protocolo de biosseguridade implementado, cada treinamento realizado, cada auditoria conduzida e cada investimento em vigilância sanitária representam mecanismos de proteção da capacidade produtiva do setor.

Representam também proteção da renda dos produtores, da estabilidade das cadeias produtivas e da segurança alimentar.

Ao longo  das próximas décadas, a sustentabilidade será cada vez mais associada à capacidade de produzir mais com menos recursos, reduzindo perdas e aumentando a eficiência dos sistemas produtivos.

Nesse cenário, sanidade, bem-estar animal e gestão deixam de ser temas restritos à produção e passam a integrar o centro da estratégia de sustentabilidade da suinocultura.

Não existe produção sustentável sem animais saudáveis.

Não existe eficiência ambiental sem eficiência produtiva.

Não existe segurança alimentar sem biosseguridade.

E não existe competitividade duradoura sem credibilidade

Em um mundo que precisará produzir mais alimentos para uma população crescente, utilizando recursos cada vez mais limitados e enfrentando desafios sanitários cada vez mais complexos, a sustentabilidade não poderá ser medida apenas pelos indicadores ambientais.

Ela dependerá da capacidade dos sistemas produtivos de prevenir enfermidades, preservar a saúde dos animais, promover o bem-estar, utilizar recursos de forma eficiente e garantir a produção contínua de alimentos seguros.

Nesse contexto, a sanidade animal deixa de ser apenas uma ferramenta de gestão da produção. Ela se consolida como um dos principais pilares da sustentabilidade, da segurança alimentar e da competitividade da suinocultura moderna.

 

 

 

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