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Caudofagia: entendendo o comportamento para prevenir perdas

Escrito por: Natalia Sitanaka - Coordenadora Técnica e Comercial da suínoBrasil

Produtor: Olá, tenho uma dúvida. Os suínos da minha granja começaram a morder a cauda uns dos outros. O que, normalmente, causa isso?

Técnica: A caudofagia é um problema multifatorial e, normalmente, está ligada a situações de estresse dentro da granja. Os principais fatores envolvidos são calor, ventilação inadequada, alta lotação, mistura de lotes, falha no acesso à água, competição no comedouro e problemas nutricionais. O suíno acaba redirecionando esse desconforto para os outros animais, iniciando as mordidas de cauda. Muitas vezes, a lesão é apenas o sinal visível de que algo no ambiente ou no manejo não está funcionando adequadamente.

Produtor: Como eu identifico o problema logo no começo?

Técnica: Os primeiros sinais são animais inquietos, mordendo grades, orelhas ou perseguindo outros animais. Depois aparecem rabos úmidos, avermelhados ou pequenas lesões. Em muitos casos, os animais passam a manter a cauda baixa, demonstrando desconforto. Se não agir rapidamente, o quadro evolui para sangramento, infecção e até abscessos de coluna, causando prejuízo produtivo e condenação no frigorífico.

Produtor: Quando aparece um animal mordendo, qual a primeira medida que devo tomar para sanar o problema?

Técnica: O ideal é separar imediatamente o agressor e os animais lesionados. Quanto mais tempo permanecerem na mesma baia, maior a chance do comportamento se espalhar para o restante do lote. Mas apenas retirar os animais não resolve o problema. É fundamental investigar a causa do estresse naquele ambiente: temperatura, ventilação, água, alimentação ou excesso de lotação. Se a origem do problema não for corrigida, a caudofagia volta rapidamente.

Produtor: Existe alguma fase em que a caudofagia é mais comum?

Técnica: Sim, normalmente os maiores desafios aparecem na creche e na terminação. Na creche, os leitões enfrentam desmame, troca de ambiente e mistura de animais, o que gera muito estresse. Já na terminação, o aumento do peso e da densidade favorece disputa por espaço e recursos. Nessas fases, qualquer falha de manejo pode desencadear rapidamente o problema.

Produtor : A densidade na baia interfere muito?

Técnica: Sim, a alta lotação aumenta competição por água, alimento e espaço de descanso. Isso gera estresse social constante. Muitas vezes o produtor percebe melhora apenas ajustando densidade e acesso ao comedouro. O excesso de animais também prejudica a ventilação da baia e aumenta a temperatura, criando um ambiente ainda mais favorável para o aparecimento da caudofagia.

Produtor: Tenho percebido que piora nos dias mais quentes, a temperatura tem relação com o problema?

Técnica:  O desconforto térmico deixa os animais mais irritados e inquietos. Além disso, reduz o consumo de ração, altera o comportamento social e aumenta a disputa por espaço nas áreas mais confortáveis da baia. Em situações de calor excessivo, os suínos passam mais tempo em pé, ficam mais agitados e aumentam os comportamentos exploratórios. Ambiência ruim é um dos principais gatilhos de caudofagia dentro das granjas.

Produtor : Alimentação também pode desencadear isso?

Técnica : Sim, dietas desbalanceadas aumentam bastante o risco. Falta de aminoácidos, minerais, erro na granulometria, baixa fibra e dificuldade de acesso ao alimento geram frustração nos animais. Outro ponto importante é garantir espaço adequado de comedouro para reduzir competição durante o consumo.

Produtor: E as micotoxinas?

Técnica: Micotoxinas podem afetar intestino, imunidade e até comportamento dos animais. Elas aumentam irritabilidade, desconforto e estresse fisiológico. Muitas vezes vemos queda de desempenho acompanhada por aumento de lesões de cauda. Dependendo da contaminação, também pode ocorrer redução do consumo de ração e maior desuniformidade do lote. Por isso é importante avaliar qualidade das matérias-primas, condições de armazenamento e uso correto de adsorventes na dieta.

Produtor: A qualidade da água pode influenciar também?

Técnica: Comumente, o produtor olha apenas para a ração e esquece da água. Não apenas a qualidade, mas também, baixa vazão ou bebedouros mal posicionados aumentam irritação e competição entre os animais. Em dias quentes, qualquer dificuldade de acesso à água piora bastante o estresse do lote.

Produtor: Colocar brinquedo ou corrente na baia realmente ajuda?

Técnica:  Ajuda bastante, pois o suíno tem necessidade natural de explorar e manipular objetos. Quando oferecemos enriquecimento ambiental, como correntes, cordas ou madeira, reduzimos o tédio e desviamos o foco da mordedura de cauda. É uma ferramenta simples, de baixo custo e muito eficiente no manejo preventivo. Além disso, o enriquecimento ajuda a diminuir o estresse e melhora o bem-estar dos animais.

Produtor : Ainda é permitido realizar o corte na cauda? Resolve o problema?

Técnica: Hoje o corte de cauda ainda é permitido no Brasil, mas não deve ser tratado como solução principal para caudofagia. Inclusive, existe uma pressão crescente relacionada ao bem-estar animal para reduzir essa prática. O corte pode diminuir a gravidade das lesões, porque reduz a área de interesse para mordedura, mas ele não elimina a causa do problema.

Se o ambiente continuar estressante, os animais vão continuar expressando comportamento agressivo — muitas vezes migrando para mordedura de orelha ou flanco. Atualmente, a discussão é muito mais voltada para prevenção: melhorar ambiência, manejo, nutrição, qualidade da água e controle de micotoxinas, ao invés de depender apenas da caudectomia.

Produtor: Então, qual seria o principal ponto para prevenir caudofagia, na prática?

Técnica: O principal é reduzir os fatores de estresse. Boa ambiência, espaço adequado, água de qualidade, dieta equilibrada, controle de micotoxinas e enriquecimento ambiental fazem toda a diferença.

A caudofagia é um reflexo de desequilíbrio dentro do sistema de produção. Quando o produtor entende que o problema vai muito além da cauda, o controle se torna mais eficiente e preventivo, reduzindo perdas produtivas e melhorando o bem-estar animal dentro da granja.

 

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