A suinocultura é uma das principais atividades agropecuárias no Brasil e no mundo, sendo a produção nacional a quarta maior do mundo (ABPA, 2025).
A eficiência reprodutiva do plantel tem impacto direto na produtividade e na rentabilidade do sistema de produção, sendo o tamanho da leitegada um dos parâmetros reprodutivos de maior importância (Camargo et al., 2020).
Assim, os programas de melhoramento genético têm selecionado fêmeas hiperprolíficas, com o objetivo de aumentar o número de leitões nascidos e desmamados (Patterson et al., 2020).
Entretanto, com a hiperprolificidade, houve diminuição do peso ao nascimento, com leitegadas mais desuniformes, comprometendo a viabilidade e vitalidade dos leitões e, consequentemente, o número de animais desmamados (Yuan et al., 2015).
Os partos também tornaram-se mais longos, com maior número de natimortos e distocias e menor ingestão de colostro pelos leitões (Li et al., 2020). Além disso, o catabolismo durante a lactação é intenso em matrizes com leitegadas maiores (Bortolozzo et al., 2023).
Além disso, a capacidade da fêmea de fornecer colostro para todos os leitões pode ser limitada, visto que o número de leitões tem sido igual ou até superior que o número de tetas funcionais (Spinka, Illmann., 2015).
Além do número e do peso dos leitões nascidos, a longevidade é um indicador importante da rentabilidade do rebanho de fêmeas reprodutoras (Belkova, Rozkot; 2021), sendo associada ao nível de descarte das matrizes.
Diversos fatores podem influenciar a taxa de descarte, como alojamento, genótipo, manejo, doenças, nutrição e tendências de mercado (Díaz et al., 2015).
Em muitas granjas, as matrizes são descartadas antes de atingir o seu pico de produtividade, que normalmente ocorre entre o terceiro e o quinto ciclo reprodutivo (Lavery et al., 2019).
Garantir que as matrizes tenham condição corporal adequada é essencial para enfrentar esses desafios. Apesar disso, as dietas para matrizes gestantes e lactantes tem sido formuladas com base em um critério geral, desconsiderando variações em seu estado fisiológico e metabólico (Moehn et al., 2009).
Como consequência, a manutenção da condição corporal, a eficiência reprodutiva e a longevidade podem ser comprometidas.
Condição corporal e o impacto na saúde da fêmea e dos leitões
A gestação é um período anabólico dinâmico, em que as exigências nutricionais aumentam devido ao crescimento fetal e desenvolvimento dos tecidos maternos associados (Superchi et al., 2019).
O desenvolvimento fetal depende de diferentes fatores, como o estado nutricional da fêmea, o fornecimento de nutrientes ao feto e a atividade de hormônios metabólicos (Aye et al., 2013). Nesse contexto, fêmeas com condição corporal inadequada podem apresentar baixa eficiência reprodutiva.
Fêmeas gestantes apresentaram relação quadrática entre a espessura de gordura dorsal e o desempenho da leitegada, sendo o nível ideal de 19-20 mm. Fêmeas com espessuras maiores produzem leitegadas mais leves, devido à indução de condições placentárias lipotóxicas (Zhou et al., 2018).
O acúmulo excessivo de gordura corporal (≥ 17 mm) pré-parto também está associado a partos mais longos (Olivero et al., 2010). Níveis elevados de gordura podem interferir nos esteroides lipossolúveis, principalmente a razão progesterona:estrógeno, que influencia a ativação dos receptores de ocitocina (Russell et al., 2003), prejudicando as contrações uterinas. Ademais, pode haver acúmulo de gordura ao redor do canal de parto, o que causa obstrução da passagem dos leitões durante o parto (Muns et al., 2016).
Em contrapartida, fêmeas com baixa condição corporal têm atraso no início da puberdade, alterações na secreção de hormônios reprodutivos e nos ciclos estrais (Barb et al., 2006). Além disso, menor gordura dorsal (≈14,7 mm) está associada ao atraso da puberdade em relação a valores mais elevados (≈17,8 mm) (Rydhmer et al., 1994).
Assim como fêmeas com excesso de gordura corporal, matrizes gestantes com baixas reservas corporais produzem leitegadas menores com animais mais leves e com crescimento intrauterino restrito (Wu et al., 2006).
O fornecimento nutricional inapropriado durante a gestação, como dietas restritas baseadas em milho e farelo de soja, pode resultar em aporte inadequado de aminoácidos e crescimento placentário subótimo (Wu et al., 2017), e favorecer o aumento da produção de espécies reativas de oxigênio, promovendo estresse oxidativo celular (Berchieri-Ronchi et al., 2011). Dessa forma, garantir uma condição corporal ideal é essencial para obter bons resultados reprodutivos e longevidade do plantel, a partir de uma nutrição equilibrada.
Manejo estratégico da condição corporal da fêmea reprodutora
Recria
Apesar das diferenças entre linhagens genéticas, é comumente aceito um peso-alvo para primeira cobertura de 135–160 kg, com espessura de gordura dorsal de 13–15 mm, por volta dos 220–240 dias de idade e mínimo de 180 dias, durante o segundo ou terceiro estro (Theil et al., 2023; Faccin et al., 2022; Bruun et al., 2020).
Para alcançar as metas de peso e espessura de gordura dorsal para primeira cobertura é importante monitorar o peso ao nascimento e ao desmame e a taxa de crescimento das leitoas de reposição (Monteiro et al., 2025). O peso ao nascimento superior a 1 kg e ao desmame superior a 5 kg são indicados para a seleção de leitoas, a fim de promover produtividade e longevidade (Faccin et al., 2022).
Nas fases posteriores, as leitoas não devem ser tratadas como animais de engorda, pois uma maior deposição de gordura corporal é necessária para favorecer o início da puberdade (Kim et al., 2015; Knecht et al., 2020), e o excesso de massa muscular é indesejável, visto que aumenta o custo metabólico ao exigir maior ingestão de energia para manutenção (Klaaborg et al., 2019). Ao reduzir o teor de proteína e manter o nível de energia da dieta, ocorre um favorecimento do depósito de gordura (Gill et al., 2006).
Assim, rações balanceadas em proteína e energia são necessárias para evitar excesso de massa muscular e gordura corporal insuficiente.
Gestação
Ao longo da gestação, o objetivo deve ser manter o escore de condição corporal ideal, sendo os primeiros 30 dias considerados como o melhor período para recuperação das reservas corporais das fêmeas (Solà-Oriol et al., 2017).
Para recuperação do escore de condição corporal das fêmeas (ECC), recomenda-se que as dietas apresentem níveis mais elevados de proteína bruta (PB) em comparação às dietas de manutenção, uma vez que favorecem a síntese proteica e reduzem a mobilização de reservas corporais, principalmente para fêmeas mais jovens (Johannsen et al., 2024).
Recomenda-se um ganho de peso entre 35 a 40 kg durante a primeira gestação, para promover o desenvolvimento materno, dos conceptos e proteger contra os danos da perda de tecido magro durante a lactação (Clowes et al., 2003b).
As fêmeas multíparas são mais pesadas e já atingiram seu peso corporal ideal, ao contrário das primíparas que ainda estão em fase de crescimento (Ampode et al., 2023). De acordo com Carrión-Lópes et al. (2022), o ganho de peso e a perda de gordura são mais acentuados em porcas primíparas em comparação com porcas multíparas.
De acordo com Muro et al. (2022), o objetivo deve ser manter as matrizes e leitoas de reposição dentro de uma faixa de 16–20 mm e 15–19 mm de espessura de gordura dorsal, respectivamente, correspondendo à 12,5–14,0 unidades no calliper e um escore visual de 3–3,5, independentemente da fase do ciclo reprodutivo. Já em relação às medidas de área e profundidade do músculo lombar, ainda não existem estudos suficientes para definir um valor ideal.
Lactação
Durante o período de transição entre gestação e lactação, as fêmeas entram em estado de catabolismo, devido ao crescimento exponencial dos fetos, ao intenso desenvolvimento da glândula mamária, ao comportamento de construção do ninho, ao parto e à produção de colostro (Feyera; Theil., 2017). Somado a isso, na fase de lactação, o consumo voluntário pode ser limitado por fatores metabólicos e hormonais (Eissen et al., 2000).
Se a crescente necessidade energética não pode ser atendida via alimentação, as reservas corporais são mobilizadas, resultando em perda de peso. Quando essa perda é exacerbada há prejuízos à produção de leite e ao desempenho reprodutivo subsequente (Bergsma et al., 2009).
Diante disso, é necessário maximizar o consumo de ração durante a lactação a partir de técnicas de manejo, seleção genética e mudanças nas características do alimento (Noblet et al., 1998).
Do ponto de vista nutricional, a inclusão de fibra dietética na fase de gestação pode favorecer o consumo de ração na lactação (Agyekum et al., 2019). Isso está relacionado à ingestão de maior volume de alimento durante a gestação, que contribui para a adaptação do trato gastrointestinal ao aumento abrupto da ingestão alimentar necessário para atender as elevadas demandas energéticas da lactação (Matte et al., 1994).
Considerações finais
A condição corporal da fêmea suína exerce grande influência no desempenho reprodutivo e na longevidade do plantel. Uma condição corporal inadequada, seja por obesidade ou magreza, está associada a prejuízos reprodutivos, como menor número de leitões nascidos, menores taxas de desmame, redução da produção de leite durante a lactação, falhas reprodutivas subsequentes e maior taxa de descarte de matrizes.
No contexto atual de hiperprolificidade, a condição corporal da fêmea reprodutora deve ser monitorada de forma estratégica e contínua ao longo de todo o ciclo reprodutivo, considerando as particularidades fisiológicas de cada fase.
A utilização de métodos objetivos de avaliação, como a mensuração da espessura de gordura dorsal, permite um manejo nutricional mais preciso, com impacto direto na rentabilidade do sistema produtivo e também na saúde e bem-estar dos animais.
