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Leitão leve ou sistema mal interpretado? Os indicadores que antecipam as perdas do fluxo

Leitão leve ou sistema mal interpretado? Os indicadores que antecipam as perdas do fluxo

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Um grupo de leitões leves ao desmame, mas com alto consumo de ração, iniciou a creche 870 gramas abaixo do grupo de peso intermediário e consumo médio, segundo dados trazidos pelo professor Vinícius Cantarelli, da UFLA, na abertura do 6º Encontro Técnico da ABRAVES-SP, realizado nesta quarta-feira (9/09) em Pirassununga (SP).

O mesmo estudo apresentado por Cantarelli, mostrou que, após sete dias, essa diferença caiu para 210 gramas e, aos 42 dias, havia praticamente desaparecido. O resultado, segundo ele, indica que a resposta na primeira semana, especialmente o consumo de ração, pode ser mais relevante para a trajetória posterior do que o peso ao desmame analisado isoladamente.

Vinícius Cantarelli, da UFLA

O resultado, coloca em discussão uma das leituras mais comuns dentro das granjas, de que o peso, isoladamente, seria suficiente para antecipar o destino produtivo do leitão. Mais do que confirmar que animais leves representam um desafio, a palestra mostrou que parte deles pode estar sendo interpretada de maneira incompleta.

A questão estratégica deixa de ser apenas como recuperar leitões leves, passando a ser quais indicadores permitem diferenciar, o mais cedo possível, os animais que demonstram capacidade de recuperação, daqueles que continuam acumulando perdas antes que o, denominado pelo professor como “efeito dominó” avance pelo sistema.

Antes de Cantarelli abordar os leitões leves na creche, o professor Caio Abércio da Silva, da UEL (Universidade Estadual de Londrina), voltou o olhar para a fêmea e para as decisões tomadas antes do desmame. Juntas, as apresentações mostraram que o animal recebido pela creche não carrega apenas determinado peso, mas uma trajetória formada pela gestação, parto, acesso ao colostro, lactação, ambiente, manejo e atuação da equipe.

Caio Abércio da Silva, da UEL (Universidade Estadual de Londrina)

O sistema pode estar medindo tarde demais

Ao apresentar o tema “A base do fluxo: como a fêmea define a sustentabilidade do sistema”, Caio propôs que a matriz seja analisada para além dos indicadores reprodutivos tradicionais. Ela condiciona a quantidade de animais produzidos, mas também interfere no peso, na uniformidade, na sobrevivência e na capacidade de resposta dos leitões nas etapas posteriores.

“Matriz = base do fluxo”, sintetizou o professor em seu slide de encerramento. O argumento foi sustentado por uma análise que, segundo Caio, reuniu aproximadamente 150 granjas, cerca de 138 mil matrizes, mais de 110 variáveis e dois anos de acompanhamento.

O levantamento foi realizado por volta de 2015 e, como advertiu o palestrante, seus valores absolutos não devem ser tratados como retrato atual da suinocultura. Sua contribuição está nas relações encontradas entre características das granjas e resultados produtivos.

Essas relações contrariam a procura por uma causa única para a perda de desempenho. Número de matrizes por funcionário, características das dietas de gestação e lactação, idade ao primeiro parto, taxa de parição, duração da lactação, acompanhamento dos partos, mortalidade das fêmeas e condições ambientais apareceram entre os componentes associados aos resultados.

No modelo estatístico apresentado por Caio, cada dia adicional de lactação esteve associado a uma estimativa de 0,18 quilo a mais no peso ao desmame. A presença de ventilação ou umidificação na maternidade, conforme a classificação utilizada no estudo, foi associada a uma diferença estimada de 0,23 quilo.

Os resultados não autorizam concluir que uma mudança isolada produzirá automaticamente o mesmo efeito em qualquer granja, mas revelam algo mais importante para a gestão. Decisões aparentemente pequenas se acumulam e modificam o animal entregue à fase seguinte.

A mesma lógica apareceu na conversão alimentar da matriz. No modelo apresentado, o resultado variou de acordo com fatores como piso da gestação, número de tratos na lactação, nascidos vivos, duração da lactação e quantidade de matrizes atendidas por funcionário. Consideradas as demais variáveis incluídas na análise, o aumento do número de matrizes atendidas por trabalhador esteve associado à piora da conversão alimentar da fêmea.

A informação retira a mão de obra da condição de simples despesa operacional. Segundo Caio, a maternidade concentra aproximadamente 60% a 65% do tempo da equipe, especialmente nas primeiras 72 horas após o parto. A gestação responderia por outros 30% a 35%, com atividades críticas ligadas à preparação das leitoas, detecção de cio e inseminação.

A leitura proposta pelo professor indica que limitações na disponibilidade, no treinamento ou na organização da equipe podem se manifestar posteriormente em indicadores atribuídos à maternidade ou à creche. Acompanhar o parto, favorecer a mamada, reconhecer animais vulneráveis e executar os manejos no momento correto integram, portanto, a construção do resultado entregue à fase seguinte.

Mais nascidos não significam necessariamente mais eficiência

O aumento da prolificidade ajuda a explicar por que essa leitura integrada se tornou mais necessária. Cantarelli mostrou que leitegadas maiores podem trazer maior competição uterina, redução do peso médio ao nascimento e aumento da variabilidade entre os leitões. Cresce a produção potencial, mas também aumenta a proporção de animais que exigem assistência e precisão de manejo. A relação entre fêmeas hiperprolíficas e peso ao nascimento já foi aprofundada pela suínoBrasil.

Cantarelli alertou que o aumento do número de leitões nascidos não representa, necessariamente, maior eficiência do sistema e defendeu a revisão dos indicadores empregados para avaliar o desempenho das granjas.

Animais menores tendem a apresentar reservas energéticas mais baixas, menor vigor, maior dificuldade para manter a temperatura corporal e menor capacidade de disputar o acesso aos tetos. Isso amplia o risco de ingestão insuficiente de colostro e compromete as condições metabólicas e imunológicas com as quais o leitão iniciará sua trajetória.

Cantarelli apresentou resultados que relacionaram o peso ao nascimento inferior a um quilo e a ingestão de menos de 160 gramas de colostro por quilo de peso corporal ao aumento do risco de mortalidade. Segundo o palestrante, o risco também se eleva à medida que aumenta o intervalo entre o nascimento e a primeira mamada.

A literatura citada na apresentação sustenta a relação entre baixo peso, dificuldade de termorregulação, menor vigor e menor capacidade de buscar alimento. Também associa a ingestão adequada de colostro à sobrevivência e ao desenvolvimento posterior. Isso não significa, contudo, que o peso ao nascimento determine sozinho o destino do animal.

Essa foi uma das principais provocações da palestra: o peso ao nascimento mostra onde o leitão começou, mas possui poder limitado para prever, isoladamente, onde ele terminará.

O peso ao desmame conta uma história, mas não conta tudo

O peso ao desmame é mais informativo porque reúne os efeitos ocorridos entre o nascimento e a saída da maternidade. Incorpora, ainda que indiretamente, o acesso ao colostro, o consumo de leite, a competição dentro da leitegada, o estado sanitário, o ambiente e a qualidade do manejo. Esses componentes são detalhados no artigo Fatores que afetam o peso ao desmame, publicado pela suínoBrasil.

Cantarelli apresentou um estudo que separou os animais em quatro trajetórias: leitões que nasceram e desmamaram leves; que nasceram leves e desmamaram pesados; que nasceram pesados e desmamaram leves; e que permaneceram pesados nos dois momentos.

Nos resultados apresentados, o grupo de animais leves ao nascimento e ao desmame precisou de 14,2 dias adicionais para atingir o peso de abate, prolongamento com implicações sobre ocupação das instalações e custo de produção. Em contrapartida, animais que nasceram leves, mas ganharam peso adequadamente durante a lactação, demonstraram que o baixo peso inicial não constitui uma condenação automática.

“Nem todo leitão que nasce leve está condenado a permanecer leve. Nem todo leitão que desmama leve está condenado a terminar leve”, ressaltou Cantarelli.

Essa distinção tem consequência econômica direta. Quando todos os leitões leves são tratados como uma única categoria, o sistema deixa de separar animais com capacidade de recuperação daqueles com restrições mais profundas. Pode descartar precocemente animais viáveis, prolongar o alojamento de animais sem resposta compatível ou aplicar o mesmo investimento nutricional a grupos com potenciais muito diferentes.

O indicador que surge nos primeiros sete dias

Mesmo o peso ao desmame não encerra a avaliação. Em um conjunto de dados com 932 leitões apresentado por Cantarelli, o peso ao final da creche mostrou correlação mais forte com o peso obtido sete dias após o desmame do que com o peso de entrada. O ganho na primeira semana, por sua vez, apresentou forte correlação com o consumo de ração no mesmo período.

É nesse ponto que surge um indicador com potencial para mudar a rotina de acompanhamento: a proporção de leitões que efetivamente começam a consumir nas primeiras 24 horas.

De acordo com Cantarelli, as primeiras 72 horas formam uma janela crítica. O especialista organizou esse período como uma adaptação progressiva: localizar água e alimento, iniciar o consumo e aumentar sua frequência até estabelecer uma ingestão mais consistente. A demora nesse processo amplia a vulnerabilidade metabólica, intestinal e sanitária do leitão.

Por isso, na avaliação do especialista, o primeiro objetivo da creche não deveria ser simplesmente maximizar o ganho de peso. Antes disso, é preciso fazer o leitão comer.

“A melhor dieta não funciona se o leitão não consumir ração”, resumiu Cantarelli.

A afirmação questiona a tentativa de resolver o problema apenas com dietas mais complexas, sucedâneos ou tecnologias nutricionais. Esses recursos podem contribuir, mas não corrigem sozinhos uma trajetória comprometida desde a maternidade nem substituem o consumo efetivo do alimento. No estudo apresentado pelo especialista, a intervenção com leite suplementar e dieta de maior complexidade não foi suficiente para eliminar a diferença de desempenho dos leitões leves.

A importância dessa janela também aparece em conteúdo técnico já publicado pela suínoBrasil sobre o impacto do desempenho durante a fase de creche sobre o peso ao abate. O artigo destaca que o baixo consumo nos primeiros dias pós-desmame reduz a ingestão de energia e nutrientes, prejudica a estrutura intestinal e pode repercutir nas fases seguintes.

Creep feeding exige consumo, não apenas fornecimento

O mesmo raciocínio se aplica ao creep feeding. Avaliar apenas se a dieta foi fornecida pode esconder a informação decisiva: quantos leitões de fato consumiram.

No estudo apresentado durante a palestra, 24,5% dos animais foram identificados como consumidores de creep feed na maternidade. Cantarelli mostrou, em seguida, que esses animais iniciaram mais cedo o consumo após o desmame: 29% já haviam consumido ração no primeiro dia e 83%, no segundo. Entre os leitões classificados como não consumidores na maternidade, 41% haviam iniciado o consumo no segundo dia e aproximadamente 25% ainda não haviam se alimentado no terceiro.

Na comparação apresentada, os consumidores de creep feed também registraram 18,3% mais consumo de ração e 22% mais ganho de peso no período avaliado.

O benefício, portanto, não decorre apenas da presença da ração na maternidade. Depende de exposição, acesso, manejo e consumo individual. O próprio registro da prática precisa evoluir: marcar que a granja fornece creep feeding é muito diferente de medir a proporção dos leitões que aprenderam a consumir.

Essa distinção é aprofundada no artigo O uso do creep feeding e o desafio de se criar leitões saudáveis e produtivos, da suínoBrasil. O conteúdo ressalta que duração do fornecimento, acesso ao comedouro, localização, frequência de oferta e consumo efetivo influenciam a resposta, evitando que a estratégia seja reduzida à simples presença da ração na baia.

Da classificação por peso à gestão da trajetória

As duas palestras da manhã do 6º Encontro Técnico da ABRAVES-SP convergiram em um ponto de decisão: a granja não pode esperar o resultado final para interpretar o que aconteceu no fluxo.

Caio mostrou que o animal entregue à creche é resultado de um sistema multifatorial e que intervenções na fêmea, no ambiente e na equipe repercutem muito além da maternidade. Cantarelli demonstrou que o peso identifica risco, mas não determina sozinho a capacidade de recuperação. Entre o nascimento, o desmame e os primeiros dias de creche existem janelas capazes de mudar a trajetória, desde que sejam acompanhadas por indicadores suficientemente precoces.

Para o médico-veterinário e para o gestor, isso significa substituir a fotografia do peso pela leitura da trajetória. Além de saber quanto o leitão pesa, é preciso compreender como chegou àquele peso, se recebeu colostro adequadamente, como cresceu durante a lactação, quanto demorou para consumir água e ração depois do desmame e como respondeu nos primeiros sete dias.

Sem essa leitura, o sistema corre o risco de subestimar animais com possibilidade de recuperação, manter investimentos sem resposta compatível ou atribuir à creche perdas construídas muito antes dela. O leitão leve continua sendo um sinal de alerta. Mas a qualidade da decisão dependerá de saber se o problema está no animal ou na forma como o sistema o está interpretando.

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