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Como trabalhar um dos maiores desafios das nossas maternidades: a mortalidade de leitões na lactação

Escrito por: Djane Dallanora - AtualTech Consultoria e Instrutoria

Quando falamos sobre mortalidade de lactação, sempre frisamos que além de exercer impacto sobre o fluxo de suínos no sistema, a perda neonatal de leitões é uma das condições mais dolorosas para as equipes da suinocultura. Estamos falando da fase onde o suíno tem seu aspecto mais vulnerável pelo seu pequeno tamanho e sua alta dependência do cuidado humano e não tenho dúvidas em afirmar que carregar leitões mortos para o seu destino de descarte é uma das tarefas mais impactante emocionalmente para pessoas comprometidas com o bem-estar animal e a produtividade.

Como estamos diante de um tema recorrente na rotina das granjas, o meu objetivo com este conteúdo é discutir com você os pontos que não podem ser negligenciados na construção de um plano consistente de redução da morte de leitões na fase de lactação, através de um raciocínio lógico e aplicável.

Da discussão do sentimento à análise dos números 

Quando pergunto nas granjas qual seria o número que traria sensação de dever cumprido, é frequente a resposta: “Próximo de 8% me deixaria muito satisfeito e quando passa de 10%, muito preocupado”. Independentemente da escala de produção, buscamos uma mortalidade que não alcance dois dígitos.

As principais causas de morte registradas nos softwares de dados são o esmagamento, a fome/hipoglicemia/hipotermia e a diarreia, na maioria das vezes com uma relação muito forte de causa e efeito entre elas.

Quando aprofundamos um pouco mais a análise, é frequente que 50-60% das perdas aconteça nas primeiras 72h de lactação e, quando há uma distribuição de mortes ao longo de toda a lactação, em geral, há causas sanitárias envolvidas como a diarreia.

Aqui, já podemos deixar nossas primeiras reflexões dentro de um cenário comum:

 

A mortalidade de lactação é maior que a soma de toda a mortalidade do restante do ciclo do suíno até o abate: até 10% na lactação e aproximadamente 4-5% do desmame ao abate.

 

A maior causa de morte de suínos do mundo não é uma doença, é um acidente: o esmagamento.

 

A maior parte da morte acontece em um período de 72h após o nascimento, ou seja, temos um período concentrado para agir.

 

 Foco na solução 

Para tornar este texto útil e prático para sua rotina, vamos construir juntos umraciocínio em torno dos dois cenários mais frequentes.

Cenário 1 – mortalidade de leitões nas primeiras 72h de vida sem presença de fatores sanitários

Há algum tempo, fomentamos dentro das granjas a prática de fazer necropsia dos leitões que morrem as primeiras 48h de vida com o objetivo de monitorar o volume de conteúdo estomacal de colostro/leite. Em geral, este é um bom indicador de qualidade de colostragem e do procedimento de uniformização pós-parto. De forma geral, quando há mais de 70% dos leitões mortos com estômago vazio ou com pouco conteúdo, entendemos que há oportunidades nos manejos iniciais.

O estômago vazio é um indicador visual de fome e hipoglicemia, o que faz o leitão permanecer perto da porca nos intervalos entre as mamadas e aumenta o risco de esmagamento.

Desde os primeiros segundos de vida, o cuidado em torno do leitão visa prevenir a perda de calor corporal e a realização da primeira mamada o mais rápido possível. Para isso, a figura apresenta os principais manejos necessários.

Uma sugestão interessante para o momento do parto é utilizar papelão forrando o chão próximo do aparelho mamário e uma fonte de calor, para que o leitão não perca calor corporal para o ambiente e mantenha-se ativo para mamar o colostro (Figura 1 e 2).

A quantidade de colostro que deve ser ingerida pelos leitões individualmente é de aproximadamente 250 mL para que a função nutricional e imunológica seja alcançada, resultando em maior taxa de sobrevivência e menor ocorrência de doenças. Quando não há nenhum tipo de intervenção na organização das mamadas, a variabilidade de ingestão pode ser imensa, com alguns trabalhos indicando uma variação de 0 a 800 g entre os leitões da mesma leitegada.

A organização das mamadas através do revezamento de leitões no aparelho mamário durante o parto auxilia principalmente em condições de hiperprolificidade, para que não exista a formação de subgrupos com baixa ingestão de colostro.

Após cumprida essa fase, o procedimento de uniformização (classificação, padronização) dos leitões de acordo com a capacidade de amamentação de cada fêmea é também decisivo para a mortalidade. Quanto maior o número de nascidos da granja, mais desafiador se torna esse manejo, pois é preciso conciliar a premissa de deixar o máximo de leitões com a mãe biológica e realocar os leitões excedentes nas mães-de-leite. Para os nascidos com peso menor, é fundamental organizar leitegadas e manejos adequados para sua sobrevivência, o que pode incluir suplementação de colostro via sonda orogástrica.

A partir deste ponto, uma boa estrutura de escamoteador e a temperatura da sala regulada para o conforto térmico da mãe, fornecimento adequado de água e alimento para alta produção de leite, a maternidade seguirá seu ritmo normalmente.

A figura abaixo traz um exemplo recente de uma maternidade (granja de 6.500 matrizes) que apresentava um índice de mortalidade de maternidade acima de 10% há alguns meses e, com o retreinamento da equipe nos cuidados citados neste tópico, apresentou uma redução bastante significativa, voltando a ficar dentro da meta estabelecida para o sistema.

Mesmo com uma equipe experiente, a discussão dos dados, revisão dos principais manejos e a elaboração conjunta de um plano de ação mostram-se como ferramentas essenciais para retomar o desempenho.

Cenário 2 – mortalidade de leitões ao longo de toda a lactação com presença de diarreia.

Quando há diarreia entre as causas relevantes de mortalidade, é preciso revisar fatores mais amplos e buscar apoio diagnóstico laboratorial, com atenção especial a resultados de histopatologia, os quais tendem a ser uma excelente ferramenta para casos entéricos de maternidade. Porém, independentemente do patógeno que será encontrado, há uma sequência de pontos que precisam ser conferidos a fim de resolver o problema em sua causa raiz. É importante mapear exatamente o momento do início da refugagem que está ligada à mortalidade para investigar suas causas.

Um quadro comum nas granjas é a refugagem que acontece já nos dias que seguem ao parto, devido a presença de diarreia neonatal. Então, será necessário investigar com mais profundidade os tópicos descritos no quadro abaixo.

É fundamental incluir na rotina dos líderes de maternidade a revisão da qualidade da lavagem/desinfecção, auditando desde as especificações dos equipamentos utilizados, passando pela qualidade do processo e, quando não houver conformidade, refazendo os procedimentos (Figuras 4 e 5). 

 

Algumas vezes, a refugagem pode acontecer a partir do 4º e 5º dia de lactação, com o desenvolvimento abaixo do esperado de alguns leitões por leitegada.

 Então, a oportunidade pode estar no manejo de classificação pós-parto, sendo a falha mais comum a superestimação da capacidade de amamentação das matrizes (principalmente das mais velhas). Nesse caso, é importante reavaliar quantos leitões efetivamente podem ser deixados ao pé em cada fêmea. (Figuras 6, 7 e 8). 

Outro fator importante que pode desencadear o aparecimento de diarreia e refugagem ao longo de toda a lactação são as alterações da produção de leite das matrizes. Maternidades que enfrentam disgalactia precisam inicialmente entender as causas deste problema nas mães, para depois enfrentar as consequências dos filhos. O consumo de leite abaixo do esperado gera subnutrição e estresse, prejudicando a nutrição dos enterócitos e disbiose, o que resulta em patologia entérica.

Infecções uterinas puerperais, fêmeas com escore corporal elevado, protocolos inadequados de alimentação pós-parto causando mastites, consumo de ração abaixo do recomendado por falta de estímulo adequado, problemas no fornecimento de água em quantidade e qualidade são pontos importantes de inspeção, pois são as causas frequentes de disgalactia.

Além de corrigir tudo o que estiver relacionado aos tópicos do quadro acima, a implantação de medicação injetável individual eficiente e terapia de suporte aos leitões acometidos auxiliará na redução das perdas. Porém, para resultados duradouros, as medidas não podem estar ligadas somente ao uso de antimicrobianos.

E no final, é importante voltar a acreditar!

Um dos grandes desafios da alta mortalidade de lactação é a cronificação do problema e o sentimento de indolência que é gerado nas pessoas. Quando as análises de causas-raiz são superficiais e as medidas tomadas não são abrangentes o suficiente para solucionar o problema no curto prazo, o peso emocional da necessidade de alta medicação, o aspecto da caquexia dos leitões e a mortalidade alta fazem com que as pessoas envolvidas percam a esperança na solução e se acostumem com a situação.

O envolvimento da equipe no plano de solução e a contrapartida da granja em garantir as ferramentas necessárias para implantar a estratégia escolhida são fundamentais e o resultado positivo aparecerá.

 

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