12 mar 2026

Maior risco da era digital é desaprender a escolher, diz criador do Café Brasil na ABRAVES-PR

Em palestra no 20º Encontro Regional da ABRAVES-PR, comunicador sustenta que o problema não está na juventude em si, mas na perda de autonomia, profundidade e senso crítico em um ambiente moldado para capturar atenção e entregar tudo pronto.

Maior risco da era digital é desaprender a escolher, diz criador do Café Brasil na ABRAVES-PR

A era digital e seus efeitos sobre a autonomia intelectual estiveram no centro da palestra de Luciano Pires, criador do Café Brasil, no 20º Encontro Regional da ABRAVES-PR. Em vez de repetir a crítica à “juventude de hoje”, o palestrante defendeu que o problema mais profundo não está na idade de quem consome conteúdo, mas na postura de quem se acostuma a receber tudo pronto, sem investigar, comparar ou buscar profundidade.

Foi a partir dessa tese que ele construiu uma das provocações mais fortes da programação. Segundo ele, o maior risco contemporâneo não é exatamente a nova geração, mas o enfraquecimento da capacidade de escolha em um ambiente desenhado para prender atenção e substituir autonomia por consumo automático.

Ao longo da apresentação, Luciano Pires desmontou a ideia de que o conflito entre gerações seria novidade. Segundo ele, a reclamação de que os jovens estariam menos preparados, mais dispersos ou mais superficiais atravessa décadas.

O que muda agora, segundo ele, é a escala e a potência do ambiente em que esse comportamento se desenvolve. Na leitura de Luciano, a era digital elevou a outro patamar a disputa pela atenção humana e tornou mais difícil preservar algo que antes parecia natural, que era o impulso de ir além da superfície.

Foi nesse ponto que ele apresentou o conceito de Geração T”, uma formulação que não se limita a faixa etária. Para Luciano, faz parte dessa geração quem ainda mantém a disposição de procurar mais, de seguir uma referência até a fonte, de investigar um tema por conta própria e de não se contentar apenas com o recorte que aparece na tela.

A diferença, segundo ele, está menos na idade e mais na atitude. Em sua visão, quem desenvolve repertório, profundidade e pensamento próprio é quem resiste à lógica da entrega instantânea e da passividade intelectual.

A palestra ganhou ainda mais força quando deixou o campo do comportamento geracional e entrou na lógica das plataformas digitais. Luciano argumentou que, no ambiente contemporâneo, a disputa não acontece apenas pela informação, mas pela permanência do usuário diante da tela.

Quanto mais atenção retida, mais valor esse sistema gera. O resultado, em sua avaliação, é uma engrenagem que empurra as pessoas para ciclos de estímulo constante, recompensa rápida e pouca reflexão.

Nesse cenário, o sujeito acredita estar escolhendo, quando muitas vezes apenas responde ao que foi previamente selecionado para ele. Essa foi uma das ideias mais contundentes da apresentação.

Ao sugerir que boa parte das escolhas chega embalada por algoritmos, tendências, notificações e mecanismos de retenção, Luciano Pires levou o debate além da crítica cultural e tocou numa questão central da vida contemporânea, chamada por ele de erosão da autonomia.

Segundo Pires, a liberdade, nesse ambiente, passa a conviver com formas de condução cada vez mais sofisticadas. O usuário desliza, clica, reage, compartilha e consome, mas nem sempre decide de fato.

Ao discutir esse processo, o palestrante também chamou atenção para a sobrecarga produzida pelo excesso de informação. Em sua análise, a era digital oferece volume, velocidade e acesso como nunca antes, mas isso não significa necessariamente mais compreensão.

Muitas vezes, significa mais ruído, mais ansiedade e menos discernimento. Pires enfatizou que, em vez de aprofundar, a abundância pode dispersar; em vez de formar, pode fragmentar; e a mente passa a operar sob pressão contínua, entre vídeos curtos, alertas, mensagens, promessas de recompensa imediata e a sensação de que sempre algo acontecendo em outro lugar.

Foi nesse contexto que Luciano aproximou sua fala de um alerta mais amplo sobre o esgotamento cognitivo. Segundo ele, a sucessão permanente de estímulos, segundo ele, enfraquece a capacidade de concentração, reduz a tolerância ao esforço e torna menos atraente tudo aquilo que exige tempo, disciplina e elaboração.

Pensar com profundidade passa a competir, em desvantagem, com aquilo que distrai, diverte e conforta rapidamente. A consequência é uma experiência de mundo cada vez mais superficial, em que o prazer imediato tende a ocupar o lugar do pensamento crítico.

A defesa do caminho mais difícil apareceu, assim, como parte essencial da mensagem levada à ABRAVES-PR. Luciano associou amadurecimento, construção de repertório e crescimento real à disposição de enfrentar processos menos fáceis, menos rápidos e menos sedutores.

Em sua argumentação, não formação sólida sem esforço, nem autonomia verdadeira sem desconforto intelectual. Ao tentar eliminar toda fricção, toda frustração e todo desafio, a sociedade corre o risco de enfraquecer justamente as competências que mais importam para escolher bem.

Em um encontro voltado à suinocultura, a reflexão ultrapassou o universo das telas e dialogou diretamente com o ambiente profissional. Num setor pressionado por velocidade, excesso de dados, transformação tecnológica e demanda constante por resposta, a fala de Luciano Pires tocou num ponto estratégico para lideranças, técnicos e empresas:

Continuará em vantagem quem conseguir preservar profundidade, senso crítico e capacidade real de julgamento. Mais do que demonizar a tecnologia, sua palestra propôs uma pergunta incômoda, mas necessária: em meio a tantos estímulos e facilidades, quantas das nossas escolhas ainda são, de fato, nossas?


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