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11 mar 2026
Na ABRAVES-PR, Evandro Damasio expõe a raiz da resistência à inovação no agro
Na palestra “Raízes que movem resultados: a cultura do agro que sustenta a inovação”, consultor mostra que a dificuldade de inovar no campo não nasce de falta de oferta tecnológica, mas de uma lógica produtiva moldada por pressão, responsabilidade e medo de errar.
Na abertura de uma discussão que tocou num dos pontos mais sensíveis do agro, o consultor Evandro Damasio levou ao XX Encontro Regional da ABRAVES-PR a provocação de que a resistência à inovação no setor não pode ser lida apenas como conservadorismo ou atraso. Segundo a linha central apresentada pelo palestrante, ela nasce de uma cultura construída sob pressão por resultado, risco constante e pouca margem para erro, ambiente em que mudar não é apenas testar o novo, mas assumir possíveis perdas em sistemas que já operam no limite.
Ao desenvolver a palestra “Raízes que movem resultados: a cultura do agro que sustenta a inovação”, Damasio defendeu que o agro carrega uma lógica de sobrevivência que ajuda a explicar por que, mesmo cercado por novas ferramentas, soluções e promessas de eficiência, o setor tende a adotar mudanças mais tarde do que poderia. A inovação, nesse contexto, não esbarra simplesmente em desinteresse, mas na responsabilidade concreta de quem responde por sanidade, eficiência, nutrição, ambiência, logística e desempenho produtivo.
Um dos pontos mais fortes da apresentação foi justamente a explicação de que, em setores de risco, a régua para experimentar é naturalmente mais dura. Damasio comparou essa realidade ao ambiente das startups e de outros segmentos em que testar, falhar e corrigir faz parte do processo.
No agro, sustentou, essa lógica encontra limites mais estreitos, porque uma decisão mal calibrada pode comprometer resultados, ampliar prejuízos e pressionar ainda mais operações que já convivem com exigências altas. Por isso, a inovação muitas vezes é empurrada para depois e, quando finalmente chega, pode já existir em versões mais avançadas do que aquela que o campo ainda tenta absorver.
A palestra também deslocou o debate para um terreno prático, ou seja, o problema não está apenas em criar tecnologia, mas em garantir que ela seja incorporada à rotina. Damasio argumentou que inovação não gera valor por si só.
Para produzir resultado, segundo ele, ela precisa ser ajustada ao modo como as pessoas trabalham, testada em escala pequena, comparada ao padrão já existente e acompanhada com disciplina. Sem protocolo, sem critério de análise e sem adesão real da equipe, a tendência é que a novidade permaneça na vitrine e não se converta em ganho consistente.
Outro eixo abordado pelo palestrante foi o uso de dados. O consultor afirmou que muitas empresas acreditam não ter informação suficiente, quando na prática convivem com dados dispersos, subutilizados ou analisados de forma fragmentada entre áreas que não se conversam.
Nessa leitura, parte da resistência à inovação também passa pela dificuldade de transformar informação disponível em inteligência de uso. Mais do que adquirir novas estruturas, o desafio estaria em organizar padrões mínimos de leitura, comparação e decisão.
O ponto central da palestra de Evandro Damasio ao público da à ABRAVES-PR foi que o agro não resiste à mudança por ignorância do novo, mas porque foi treinado para proteger resultado. E é justamente aí que a inovação deixa de ser uma bandeira abstrata e passa a exigir método, comunicação, teste e confiança.