Atualmente na suinocultura industrial brasileira os leitões são desmamados em média aos 21 dias de idade, no entanto, as granjas têm até 1 de janeiro de 2045 para adaptarem suas instalações para desmamarem os leitões com média de 24 dias de idade, de acordo com instrução normativa 113 do MAPA publicada em 2020. Apesar do benefício sobre o número de partos por porca ao ano e, consequentemente, maior número de leitões nascidos, o desmame dos leitões nessa faixa de idade ainda é considerado um gargalo na suinocultura moderna, pois são identificados problemas de ordem social, ambiental e nutricional, que impactam a vida do animal ao longo do ciclo produtivo.

No aspecto nutricional, a mudança na forma física da dieta, que geralmente passa a ser seca após o desmame, além de ser rica em ingredientes de origem vegetal, é um dos principais desafios encontrados, pois o estresse e a nova dieta podem provocar perturbações negativas na função da barreira intestinal, atrofia das vilosidades intestinais e aumento dos níveis de fator de liberação de corticotrofina e cortisol séricos. Tais fenômenos levam a redução na ingestão de ração e na digestibilidade de nutrientes, penalizando o desempenho dos animais.

Nesse sentido, estratégias e ferramentas têm sido utilizadas na fase de creche, principalmente na primeira semana pós-desmame, buscando contornar parte desses problemas, como o uso de rações com alta digestibilidade e a adição de aditivos nas dietas, visando torná-las mais atrativas e, consequentemente, promover maior ingestão, amenizando assim o impacto negativo do manejo do desmame.

Dentre os principais aditivos utilizados para essa finalidade, os palatabilizantes são destacados. De acordo com a instrução normativa 13 do MAPA publicada em 2004, os palatabilizantes são aditivos classificados na categoria de aditivos sensoriais, enquadrando-se aqueles produtos naturais obtidos mediante processos físicos, químicos, enzimáticos ou microbiológicos apropriados, a partir de materiais de origem vegetal ou animal, ou de substâncias definidas quimicamente, cuja adição aos alimentos aumenta sua palatabilidade e aceitabilidade.

Considerando que a maioria dos mamíferos jovens possui preferência inata por alimentos doces, os adoçantes (naturais ou artificiais) são os palatabilizantes mais comuns utilizados em dietas de leitões, como açúcar ou sacarina. Os adoçantes artificiais, também chamados de edulcorantes, possuem alta capacidade de adoçar, mesmo em pequenas quantidades, tornando-os interessantes substitutos da sacarose (açúcar), uma vez que, dependendo do composto, seu poder edulcorante pode ser superior.

Apesar do emprego de adoçantes nas dietas ser amplamente difundido com objetivo de minimizar a latência para o início de ingestão de ração pelos leitões logo após o desmame, tornado as dietas mais atrativas e beneficiar o desempenho zootécnico (consumo de ração, ganho de peso e conversão alimentar), estudos indicam que esses aditivos atuam além dos parâmetros macro da produção animal.

Para tal, é preciso compreender que não apenas a densidade energética da dieta determina o consumo de ração dos leitões, outro fator importante é a palatabilidade. A palatabilidade é o resultado da integração do paladar e de sinais do estado interno do sistema nervoso central, associados com instruções oriundas de experiências anteriores, podendo ser uma resposta mensurável.

A língua e a cavidade oral dos suínos possuem aproximadamente 15 mil papilas gustativas (6 mil a mais que humanos), e nessas estruturas estão localizados os botões gustativos (compostos por 50 a 150 células cada), responsáveis por identificar o sabor. Sabor, por sua vez, tem como definição biológica as sensações medidas por um sistema especializado anatomicamente e fisiologicamente definido como sistema quimiossensorial gustativo (que vai além das papilas e botões gustativos.

Toda a informação gerada por determinado sabor, provavelmente serve para integrar as respostas cerebrais como saciedade, fome, apetite, visão, olfação, somatossensação, bem como gerar respostas comportamentais ao estímulo a determinados sabores. Quando processado por completo, a percepção do sabor resulta em diversos aspectos como a qualidade, intensidade, localização, persistência e aspectos hedônicos (prazer ou desagrado) de um. O valor hedônico de um alimento altamente palatável pode substituir os mecanismos fisiológicos relacionados à homeostase energética.

Nesse contexto, a percepção de sabor de alguns carboidratos na língua é dependente de receptores (famílias tipo 1, membros 2 e 3 – T1R2 e T1R3) que estão acoplados a proteínas G, que por suas vezes respondem as concentrações de glicose e uma série de edulcorantes artificiais, ativando outra proteína G especializada, denominada gustducina, que comunica ao cérebro os sinais químicos gerados por determinados alimentos. Muito além dos receptores na cavidade oral, estudos indicam a presença desses receptores de sabor doce no intestino delgado, podendo influenciar a liberação de hormônios relacionados a saúde intestinal, bem como modularem a absorção de carboidratos.

Ao serem estimulados, é desencadeado uma série de eventos celulares e neurais que promovem a liberação de determinados hormônios, como o peptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP), peptídeo semelhante a glucagon 1 (GLP-1), peptídeo semelhante a glucagon 2 (GLP-2) e a serotonina.

O GIP-1 atua na liberação de insulina (dependente de glicose), que com estímulos dos receptores do intestino, aumenta a atividade da lipase lipoproteica e lipogênese, juntamente com a insulina no tecido adiposo, além de aumentar a expressão da proteína inibidora de apoptose e inibir a expressão de proteínas pró-apoptose. O GLP-1 e GLP-2 são hormônios que suprimem a apoptose celular e proteólise, estimulam a proliferação celular, exercem efeito trófico específico sobre o trato gastrintestinal, promovendo aumento da massa e da espessura da mucosa e melhorando a altura dos vilos. Os estímulos nutricionais que afetam a secreção desses hormônios, além de carboidratos, incluem compostos não nutritivos presentes nas dietas, como palatabilizantes.

Por fim, os mecanismos de absorção de monossacarídeos como glicose, galactose e frutose, que são essenciais para o metabolismo energético dos suínos, são mediados por proteínas localizadas na porção apical dos enterócitos, responsáveis por transferir a molécula de carboidrato do lúmen intestinal para o interior da célula. A proteína co-transportadora de glicose 1 sódio dependente (Na+/glucose co-transporter 1), abreviada como SGLT1, possui papel central nesse processo. A regulação da expressão da SGLT1 pode sofrer modulação pelos monossacarídeos presentes no lúmen intestinal, bem como de formas análogas à glicose.

Os sensores presentes nas membranas das células no lúmen do intestino, responsáveis por detectar os compostos carboidratos (T1R2 + T1R3), também são responsáveis por modular a expressão de SGLT1 em função de açúcares da dieta.

Entretanto, estudos demonstraram que palatabilizantes artificiais também podem desempenhar esse papel. Em um estudo publicado na Inglaterra foi avaliado o efeito da adição de sacarina sódica e neoespiridina sobre a expressão do SGLT1 nas vilosidades intestinais de leitões recém-desmamados, e observou-se aumento de 2 vezes a abundância de RNAm SGLT1, de 1,6 vezes a abundância de proteína SGLT1 e de 1,8 vezes a taxa inicial de transporte de glicose sódio dependente de animais que receberam os palatabilizantes em comparação aos animais que consumiram dietas sem os edulcorantes.

Tais estudos não só elucidam parte de diversos resultados encontrados na literatura sobre melhoria do desempenho de leitões alimentados com dietas contendo palatabilizantes, seja pelo aumento no consumo de ração e no ganho de peso, mas mostram uma nova abordagem a ser explorada na ciência da nutrição animal, direcionando por meio da nutrição de precisão e molecular os caminhos da suinocultura do futuro.

As referências pode ser consultadas com os autores.

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