14 set 2026

Enriquecimento ambiental para leitões: da teoria à aplicação nas granjas

Lucas Rocha Valfré; Thiago Bernardino;  Aline Cristina Sant’Anna.  Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal (ETCO), Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Jaboticabal, SP, Brasil.   Introdução  A suinocultura moderna evoluiu significativamente nas últimas décadas, e o bem-estar animal passou a ocupar papel central […]

Enriquecimento ambiental para leitões: da teoria à aplicação nas granjas

Lucas Rocha Valfré; Thiago Bernardino;  Aline Cristina Sant’Anna. 

Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal (ETCO), Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Jaboticabal, SP, Brasil. 

 Introdução 

A suinocultura moderna evoluiu significativamente nas últimas décadas, e o bem-estar animal passou a ocupar papel central nos sistemas de produção. Nesse contexto, o enriquecimento ambiental deixou de ser uma prática complementar e tornou-se uma estratégia essencial para permitir a expressão dos comportamentos naturais dos suínos e promover comportamentos e emoções positivas. 

No Brasil, a Instrução Normativa nº 113/2020 do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) estabelece a oferta de materiais manipuláveis ou outras formas de enriquecimento ambiental nas granjas comerciais (Brasil, 2020). Entretanto, sua eficácia depende da escolha dos materiais, da forma de disponibilização e da renovação periódica, fatores fundamentais para manter o interesse dos suínos (Beaudoin et al., 2019; Clark et al., 2023; Valfré et al., 2026). 

 Essa estratégia é especialmente importante no período pós-desmame, quando os leitões enfrentam mudanças na alimentação, no ambiente e na composição social, tornando-se mais suscetíveis ao estresse e aumentando a manifestação de comportamentos indesejáveis.  

Estudos demonstram que programas de enriquecimento bem planejados estimulam a exploração, reduzem agressões e mordeduras, favorecem a adaptação dos animais e promovem melhorias consistentes no bem-estar (Luo et al., 2020; Oliveira et al., 2023; Lee et al., 2025; Hasan et al., 2026). 

Neste artigo, reunimos as principais evidências científicas recentes e apresentamos recomendações práticas para auxiliar produtores, técnicos, médicos-veterinários e zootecnistas na implementação de programas de enriquecimento ambiental para leitões em granjas comerciais. 

O QUE JÁ SABEMOS SOBRE O ENRIQUECIMENTO PARA LEITÕES ? 

Por que alguns objetos funcionam melhor que outros? 

Nem todo material utilizado como enriquecimento desperta o mesmo interesse dos leitões. Objetos manipuláveis, mastigáveis, deformáveis e parcialmente destrutíveis estimulam melhor o comportamento exploratório e permanecem atrativos por mais tempo, enquanto materiais rígidos ou pouco interativos tendem a perder rapidamente sua eficácia (Beaudoin et al., 2019). Isso ocorre porque os suínos, em condições naturais, exploram o ambiente principalmente com o focinho e a boca, manipulando e modificando os materiais durante a interação (Kuczaj, 2002). 

Entre os diferentes tipos de enriquecimento, a palha é considerada o padrão-ouro para suínos, pois permite que os animais expressem um amplo repertório de comportamentos naturais, como fuçar, mastigar, revirar e manipular o material, mantendo o interesse por longos períodos. Entretanto, seu uso em granjas comerciais ainda é limitado por questões relacionadas ao manejo, à higiene, ao sistema de piso ripado e ao manejo dos dejetos, tornando necessária a utilização de alternativas mais compatíveis com a realidade da produção intensiva. 

Além das características do material, fatores como altura de instalação, facilidade de acesso, limpeza, quantidade de objetos disponíveis e renovação periódica também influenciam diretamente a utilização do enriquecimento pelos leitões (Beaudoin et al., 2019). A Tabela 1 resume as principais características dos materiais mais utilizados como enriquecimento ambiental, destacando atributos que influenciam sua atratividade e potencial para estimular o comportamento exploratório. 

Fonte: Adaptada de Beaudoin et al. (2019); Hasan et al. (2026). 

Como evitar que os animais percam o interesse? 

Disponibilizar um objeto de enriquecimento é apenas o primeiro passo. Com o tempo, os leitões podem se habituar aos materiais, reduzindo gradativamente o interesse e a interação e, consequentemente, os benefícios do enriquecimento ambiental. Esse processo ocorre porque o caráter de novidade diminui, assim como a motivação para explorar o ambiente e os objetos (Kuczaj, 2002). 

Estudos em sistemas comerciais mostram que objetos mantidos continuamente na baia tendem a perder atratividade, enquanto a renovação ou alternância periódica dos materiais prolonga o interesse dos animais e estimula a exploração (Vargas et al., 2021; Clark et al., 2023). Assim, além da escolha de objetos adequados, o sucesso do enriquecimento depende de um manejo que mantenha os estímulos atrativos ao longo do período de creche. 

O que priorizar, a diversidade de itens ou a quantidade de um mesmo item? 

Uma dúvida frequente é se é mais interessante para os animais oferecer muitos objetos iguais ou diferentes tipos de enriquecimento. As evidências indicam que a diversidade de estímulos é mais eficiente do que aumentar a quantidade de um único material, pois amplia as possibilidades de exploração, reduz a monotonia e mantém o interesse dos leitões por mais tempo (Beaudoin et al., 2019). Além disso, materiais apresentam diferentes níveis de atratividade e desgaste, tornando necessária sua renovação periódica para preservar a eficácia do programa (Clark et al., 2023). Na prática, a combinação de objetos também favorece uma distribuição mais homogênea da interação entre os animais e reduz disputas pelo mesmo recurso. 

Como o enriquecimento melhora o bem-estar dos leitões? 

O enriquecimento ambiental promove benefícios que vão além da ocupação dos animais. Programas bem planejados estimulam a expressão de comportamentos naturais, reduzem agressões, mordeduras e outros comportamentos prejudiciais, além de favorecerem uma melhor adaptação dos leitões ao período pós-desmame (Beaudoin et al., 2019; Hasan et al., 2026). Como consequência, os animais passam mais tempo explorando o ambiente e menos tempo realizando comportamentos associados à frustração, ao estresse e às interações agonísticas, contribuindo para um ambiente social mais estável e com menor prevalência de lesões (Lee et al., 2025; Oliveira et al., 2023; Luo et al., 2020). 

Além do comportamento, o que mais pode haver de benefícios para os leitões? 

Os benefícios do enriquecimento ambiental vão além da redução de comportamentos indesejáveis. Evidências científicas mostram que programas bem planejados podem favorecer a adaptação dos leitões ao período pós-desmame, reduzir a ocorrência de lesões decorrentes de agressões, estimular comportamentos positivos, como a brincadeira, e contribuir para uma melhor qualidade de vida dos animais (Steinerova et al., 2024). Em algumas situações, esses efeitos também podem refletir em melhores condições de saúde e desempenho produtivo, embora os resultados dependam das características do sistema de produção e da estratégia de enriquecimento adotada. 

Essas evidências reforçam que o enriquecimento ambiental deve ser encarado como uma ferramenta de manejo capaz de promover benefícios para os animais e também para a granja, contribuindo para sistemas de produção mais sustentáveis e alinhados às exigências atuais de bem-estar animal. 

Quais os benefícios do enriquecimento para a granja como um todo? 

Os benefícios do enriquecimento ambiental vão além do bem-estar dos leitões. Ao reduzir comportamentos indesejados, contribui para diminuir lesões, melhorar a uniformidade dos lotes e reduzir perdas associadas a problemas comportamentais. Além disso, sua adoção reforça o compromisso da granja com práticas sustentáveis e com os padrões de bem-estar exigidos por consumidores e mercados (Brasil, 2020). Assim, o enriquecimento ambiental deve ser visto não como um custo, mas como um investimento na qualidade ética, na sustentabilidade e na eficiência da produção, sendo esses requisitos fundamentais para a produção animal contemporânea. 

 

Se há diversos benefícios, por que a implementação do enriquecimento nas granjas ainda é desafiadora? 

Apesar dos benefícios do enriquecimento ambiental, sua implementação em granjas comerciais ainda enfrenta desafios práticos. O uso de materiais orgânicos, como palha e feno, considerados o padrão-ouro para suínos, é limitado em sistemas com piso ripado, pois pode obstruir a drenagem de dejetos, dificultar o manejo e aumentar a necessidade de manutenção das instalações (Beaudoin et al., 2019; Hasan et al., 2026). 

Outro desafio é a rotina operacional da granja. Programas eficientes exigem inspeção, limpeza e substituição periódica dos materiais para evitar a habituação e manter o interesse dos leitões. Além disso, objetos contaminados por fezes ou urina perdem rapidamente sua atratividade e podem comprometer a biossegurança quando não são manejados adequadamente (Clark et al., 2023; Vargas et al., 2021). 

Por isso, o sucesso do enriquecimento ambiental depende da escolha de materiais compatíveis com a infraestrutura da granja e de um manejo que equilibre bem-estar animal, viabilidade operacional e custo-benefício. Mais do que oferecer objetos, é essencial manter os estímulos atrativos e seguros ao longo de todo o período de creche (Beaudoin et al., 2019; Clark et al., 2023). 

RECOMENDAÇÕES PRÁTICAS PARA IMPLANTAÇÃO NAS GRANJAS 

O sucesso de um programa de enriquecimento ambiental depende da qualidade do planejamento e do manejo, e não apenas da quantidade de objetos disponíveis. A escolha de materiais adequados, sua correta distribuição, a manutenção da atratividade e o monitoramento contínuo do comportamento dos leitões são fundamentais para garantir resultados duradouros (Beaudoin et al., 2019; Clark et al., 2023). Além disso, a renovação periódica dos estímulos reduz a habituação, enquanto a combinação de diferentes materiais amplia as oportunidades de exploração e favorece o bem-estar dos animais (Kuczaj, 2002; Vargas et al., 2021; Hasan et al., 2026). 

Alguns exemplos de tipos de itens e materiais que podem ser usados  como enriquecimento na fase de creche são: (Tabela 2). 

Cinco passos para implantar um programa eficiente de enriquecimento ambiental 

  1. Escolha materiais apropriados: priorize objetos manipuláveis, mastigáveis, deformáveis, seguros e acessíveis aos leitões (Beaudoin et al., 2019).  
  1. Ofereça diversidade: combine diferentes materiais para ampliar a exploração e reduzir a monotonia (Hasan et al., 2026).  
  1. Mantenha os materiais limpos: objetos sujos ou desgastados perdem rapidamente sua atratividade ((Beaudoin et al., 2019; Clark et al., 2023).).  
  1. Renove periodicamente os estímulos: alterne ou substitua os objetos para reduzir a habituação e manter o interesse dos animais (Vargas et al., 2021; Clark et al., 2023).  
  1. Observe o comportamento dos leitões: a interação frequente com os objetos é o principal indicador da eficiência do programa e orienta possíveis ajustes. 

Na prática, diferentes materiais podem ser utilizados como enriquecimento ambiental, desde que sejam seguros, acessíveis e capazes de estimular a exploração dos leitões. A Figura 1 apresenta alguns exemplos de dispositivos empregados em sistemas comerciais. 

Figura 1. Implantação prática do enriquecimento ambiental na creche. ( A ) Corrente ramificada; ( B ) Dispositivo de PVC com mangueiras; ( C ) Corda de sisal. Fonte: Valfré et al. (2026). 

Erros mais comuns na utilização do enriquecimento ambiental 

Embora o enriquecimento ambiental seja de fácil implementação, alguns equívocos comprometem sua eficácia. O uso de materiais pouco atrativos reduz o interesse exploratório dos leitões (Beaudoin et al., 2019), enquanto a permanência do mesmo objeto por longos períodos favorece a habituação e diminui sua utilização ao longo do tempo (Vargas et al., 2021; Clark et al., 2023). Além disso, a oferta insuficiente de objetos pode aumentar a competição entre os animais, podendo aumentar comportamentos agonísticos e lesões nos animais. Por isso, o enriquecimento deve ser continuamente monitorado e ajustado de acordo com a resposta comportamental dos leitões. 

Perspectivas futuras 

A avaliação do enriquecimento ambiental tem evoluído, incorporando indicadores comportamentais, cognitivos, fisiológicos e produtivos que permitem uma compreensão mais ampla do bem-estar animal. Esse avanço tem fortalecido o desenvolvimento de programas cada vez mais baseados em evidências científicas, capazes de promover sistemas de produção mais sustentáveis, eficientes e éticos, alinhados às crescentes demandas da sociedade. 

 Conclusão 

O enriquecimento ambiental é uma estratégia fundamental para promover o bem-estar de leitões em sistemas intensivos de produção, indo além do cumprimento das exigências legais. Quando planejado com materiais adequados, diversidade de estímulos e renovação periódica, o uso do enriquecimento ambiental favorece a expressão dos comportamentos naturais, reduz comportamentos indesejáveis e melhora a adaptação dos animais no período pós-desmame, um período conhecidamente estressante para os leitões. Portanto, a adoção de tal estratégia contribui para um ambiente de criação mais compatível com as necessidades da espécie. 

Na prática, programas de enriquecimento bem estruturados devem fazer parte da rotina de manejo das granjas, com escolha criteriosa dos materiais, monitoramento contínuo da interação dos animais e renovação periódica dos estímulos para evitar a habituação. Dessa forma, o enriquecimento deixa de ser apenas uma exigência normativa e passa a representar um investimento em bem-estar animal, sustentabilidade e eficiência produtiva, trazendo benefícios tanto para os leitões quanto para a produção. 

 Referências 

BEAUDOIN, J.-M.; BERGERON, R.; DEVILLERS, N.; LAFOREST, J.-P. Growing pigs’ interest in enrichment objects with different characteristics and cleanliness. Animals, v. 9, n. 3, art. 85, 2019.  

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa nº 113, de 16 de dezembro de 2020. Estabelece as boas práticas de manejo e bem-estar animal nas granjas de suínos de criação comercial. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 18 dez. 2020. 

CLARK, G. B.; DÍEZ-LEÓN, M.; MEAGHER, R. K. Diversity and novelty in environmental enrichment increases enrichment use in juvenile American mink (Neogale vison). Frontiers in Animal Science, Lausanne, v. 4, 2023. 

HASAN, M. K. et al. Environmental enrichment and agonistic behavior in post-weaning pigs: a pilot study using artificial intelligence. Biology, v. 15, n. 3, art. 255, 2026.  

KUCZAJ, S.; LACINAK, T.; FAD, O.; TRONE, M.; SOLANGI, M.; RAMOS, J. Keeping Environmental Enrichment Enriching. International Journal of Comparative Psychology, v. 15, n. 2, p. 127-137, 2002.  

LEE, J.; OH, S.; KIM, M. Impact of environmental enrichment on growth, behavior, and welfare of weanling piglets from pre-weaning to 6 weeks of age. Journal of Animal Science and Technology, v. 67, n. 1, p. 152-163, 2025.  

LUO, L.; REIMERT, I.; MIDDELKOOP, A.; KEMP, B.; BOLHUIS, J. E. Effects of early and current environmental enrichment on behavior and growth in pigs. Frontiers in Veterinary Science, v. 7, art. 268, 2020. 

OLIVEIRA, R. F.; SOARES, R. T. R. N.; MOREIRA, R. H. R.; ANDRADE, R. P.; ROSENFIELD, D. A.; PIZZUTTO, C. S. Effects of the environmental enrichment on pigs’ behavior and performance. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 52. 

STEINEROVÁ, K.; PARKER, S. E.; BROWN, J. A.; SEDDON, Y. M. The promotion of play behaviour in grow-finish pigs: The relationship between behaviours indicating positive experience and physiological measures. Applied Animal Behaviour Science, v. 275, art. 106263, 2024. 

VALFRÉ, L. R.; BUCHINI, J. L. C.; BRAZ, J. M.; MALINI, Y.; BRAGA, C. S.; SILVA, M. A.; CARDOSO, A. C. M.; PAZ, I. C. L. A.; BURBARELLI, M. F. C.; GARCIA, R. G.; SANT’ANNA, A. C.; SANTOS, L. S.; COSTA, L. B.; CALDARA, F. R. Resilience Metrics in Pigs: How Novelty and Environmental Complexity Shape Affective State and Neurobiological Outcomes. Animals, v. 16, art. 1742, 2026. 

VARGAS, L. B.; CALDARA, F. R.; LIPPI, I. C. C.; OLIVEIRA, G. F.; ODAKURA, A. M.; BURBARELLI, M. F. C.; GARCIA, R. G.; PAZ, I. C. L. A.; SANTOS, L. S. Environmental enrichment strategies for weaned pigs: Welfare and behavior. Journal of Applied Animal Welfare Science, 2021. 

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