14 set 2026

STREPTOCOCCUS SUIS SOROTIPO 9: Desafios e estratégias de controle

Huillian Zecchin, Médico veterinário, Mestre em Produção e Nutrição animal.      Streptococcus suis é um dos agentes de maior importância sanitária na produção intensiva de suínos, especialmente pela capacidade de provocar quadros de rápida evolução, aumento de mortalidade, perdas de desempenho e necessidade frequente de intervenções terapêuticas.  Nos últimos anos, o sorotipo 9 vem adquirindo […]

STREPTOCOCCUS SUIS SOROTIPO 9: Desafios e estratégias de controle

Huillian Zecchin, Médico veterinário, Mestre em Produção e Nutrição animal.   

 

Streptococcus suis é um dos agentes de maior importância sanitária na produção intensiva de suínos, especialmente pela capacidade de provocar quadros de rápida evolução, aumento de mortalidade, perdas de desempenho e necessidade frequente de intervenções terapêuticas. 

Nos últimos anos, o sorotipo 9 vem adquirindo maior relevância nos sistemas de produção, com ocorrência de surtos principalmente em leitões na fase de creche. Na região Oeste do Paraná, a experiência de campo demonstra a importância desse agente, sobretudo em sistemas com elevada concentração de animais, múltiplas origens e maior pressão sanitária. 

A presença de S. suis no rebanho, entretanto, não significa obrigatoriamente ocorrência de doença clínica. A expressão da enfermidade depende da interação entre diferentes fatores relacionados ao microrganismo, ao animal e ao ambiente. Situações de estresse, mistura de lotes, falhas de fluxo, alta densidade, variações de temperatura, ventilação inadequada, mudanças nutricionais, coinfecções, com destaque para a influenza e redução da imunidade dos leitões podem favorecer/agravar a manifestação clínica da doença. 

Do ponto de vista microbiológico, Streptococcus suis é um coco Gram-positivo, encapsulado, frequentemente disposto em cadeias e de metabolismo facultativamente anaeróbio. Entre os fatores associados à sua patogenia destaca-se a cápsula polissacarídica (CPS), importante para a evasão da resposta imune e determinante para a diferenciação sorológica, além da suilisina (SLY), uma citotoxina hemolítica relacionada à interação com células do hospedeiro e à virulência de determinadas cepas. Proteínas como MRP e EF também têm sido utilizadas como marcadores associados à virulência, embora sua distribuição e importância possam variar entre diferentes sorotipos. 

 Outros componentes de superfície e proteínas envolvidas na interação com estruturas do hospedeiro contribuem para adesão, colonização e disseminação bacteriana, favorecendo, em determinadas condições, a ocorrência de doença sistêmica e o comprometimento do sistema nervoso central. 

Além disso, Miguélez-Pérez et al. (2024) demonstraram elevada capacidade de formação de biofilme in vitro em isolados de S. suis pertencentes ao sorotipo 9. O estudo também evidenciou que a interação com outros patógenos bacterianos associados ao complexo respiratório suíno pode modificar e, em determinadas combinações, intensificar a formação desses biofilmes, condição potencialmente relacionada à maior persistência do agente no hospedeiro. 

Clinicamente, os quadros relacionados a S. suis tipo 9 podem apresentar diferentes formas de manifestação. Em muitos casos, observa-se uma evolução aguda e grave durante o surto, com presença de hipertermia, apatia, redução do consumo, claudicação e artrite séptica. Nos animais com comprometimento do sistema nervoso central podem ocorrer ataxia, incoordenação, decúbito lateral, nistagmo, movimentos de pedalagem e opistótono.  

Casos septicêmicos podem apresentar evolução bastante rápida, inclusive com morte antes do aparecimento de sinais clínicos característicos e sem tempo para intervenções medicamentosas efetivas. 

A apresentação clínica não segue necessariamente uma sequência padrão. Alguns animais apresentam inicialmente alterações locomotoras, enquanto outros desenvolvem sinais neurológicos ou septicêmicos.  

Na necropsia, animais com evolução hiperaguda podem apresentar poucas alterações macroscópicas. Nos demais casos podem ser observadas pericardite, pleurite e peritonite fibrinosas, artrite fibrinossupurativa e alterações inflamatórias envolvendo o sistema nervoso central. Esses achados, associados ao histórico e aos sinais clínicos, auxiliam no direcionamento do diagnóstico, porém não devem substituir a confirmação laboratorial sempre que ela for possível, pois são lesões compatíveis também com outras enfermidades.  

Entre os principais diagnósticos diferenciais devem ser considerados Glaesserella parasuis, doença do edema associada a Escherichia coli produtora de Stx2e, desbalanços nutricionais e outras condições capazes de produzir quadros neurológicos, locomotores ou septicêmicos. A interpretação deve considerar principalmente a idade dos animais, o padrão de mortalidade, as lesões encontradas e a evolução do problema dentro do lote. 

Para aumentar a possibilidade de um diagnóstico confiável, sempre que possível, devem ser selecionados leitões em fase aguda da doença e ainda não submetidos ao tratamento antimicrobiano. Para bacteriologia, devem ser priorizadas amostras do sistema nervoso central, líquido articular, serosas afetadas e órgãos parenquimatosos. Para histopatologia, o envio do encéfalo e de fragmentos representativos dos principais órgãos auxilia na caracterização das lesões e na exclusão de diagnósticos diferenciais. 

Outro cuidado importante está na interpretação dos resultados laboratoriais. Como S. suis pode ser encontrado em animais clinicamente saudáveis, especialmente no trato respiratório superior e nas tonsilas, a simples detecção do agente nesses locais não confirma sua participação como causa exclusiva do problema. Por isso, o resultado laboratorial deve sempre ser interpretado em conjunto com os sinais clínicos, as lesões e o local de isolamento. 

O controle de S. suis sorotipo 9 não deve estar baseado em uma única ferramenta. Trata-se de um problema multifatorial e, portanto, exige uma abordagem integrada. O trabalho deve começar ainda na maternidade, garantindo adequada ingestão de colostro pelos leitões, bom estado sanitário e nutricional das matrizes, correta execução dos manejos neonatais, higiene das instalações e redução de procedimentos que possam aumentar portas de entrada para infecções. 

Na creche, a biosseguridade e a organização dos fluxos assumem papel ainda mais importante. Sistemas todos-dentro/todos-fora, quando possíveis, adequada limpeza e desinfecção, vazio sanitário, redução da mistura entre diferentes origens e controle do fluxo de pessoas e animais contribuem para reduzir a pressão de infecção. Em integrações que trabalham com múltiplas origens, a organização de fluxos ou pirâmides sanitárias também pode facilitar a rastreabilidade e permitir a identificação de determinadas origens ou combinações de lotes relacionadas a maior risco. 

A ambiência deve ser considerada parte da estratégia sanitária. Oscilações térmicas, temperatura inadequada, ventilação insuficiente, excesso de gases, elevada densidade e competição por água e alimento aumentam o estresse e reduzem a capacidade dos leitões de responder aos desafios infecciosos. Pequenas falhas de manejo podem se tornar importantes quando associadas a elevada pressão de infecção. 

Da mesma forma, a nutrição deve ser entendida não apenas como ferramenta de desempenho, mas também como componente da resiliência sanitária. O período pós-desmame provoca mudanças importantes no trato gastrointestinal e na composição da microbiota intestinal. Uma dieta adequadamente formulada auxilia na manutenção da integridade da barreira intestinal, no equilíbrio da microbiota e na modulação da resposta imune. Alterações nessa relação entre dieta, microbiota e imunidade podem comprometer a capacidade do leitão de enfrentar desafios sanitários. Dessa forma, estratégias nutricionais voltadas à saúde intestinal devem fazer parte do conjunto de medidas utilizadas na prevenção, sem serem interpretadas isoladamente como solução para a doença. 

Essa relação entre nutrição, microbioma e imunidade também reforça a importância do uso criterioso de antimicrobianos. Embora sejam ferramentas fundamentais diante de infecções bacterianas, tratamentos repetitivos ou mal direcionados podem interferir na microbiota e favorecer a seleção de resistência. Assim, a antibioticoterapia deve ser empregada de maneira racional, baseada na avaliação clínica e, sempre que possível, em isolamento bacteriano e teste de suscetibilidade. 

Nos animais clinicamente acometidos, a intervenção precoce continua sendo um dos fatores mais importantes para melhorar a resposta terapêutica. Animais identificados nas fases iniciais geralmente apresentam melhor possibilidade de recuperação do que aqueles já em decúbito ou com sinais neurológicos avançados. Medidas de suporte podem ser adotadas conforme o quadro clínico, incluindo antitérmicos e polivitamínicos para melhorar o conforto dos animais e estimular o consumo de água e alimento. 

As vacinas autógenas têm participação importante no controle da enfermidade. Entretanto, sua eficácia pode variar entre granjas e depende de diversos fatores, incluindo as cepas utilizadas, o método de produção, o adjuvante, o protocolo de vacinação, a categoria imunizada e a situação epidemiológica do rebanho. Outro desafio relevante no controle de Streptococcus suis 9 está relacionado à elevada diversidade antigênica e genética existente entre os isolados. Essa variabilidade contribui para diferenças na resposta às estratégias de prevenção e controle entre os sistemas de produção. Dessa forma, conhecer os isolados envolvidos nos quadros clínicos e acompanhar sua dinâmica ao longo do tempo torna-se fundamental para direcionar medidas preventivas mais assertivas. 

Outro ponto fundamental é compreender que os programas sanitários devem ser constantemente reavaliados. Mudanças na origem dos animais, no perfil dos isolados, na suscetibilidade antimicrobiana, na ambiência, na alimentação ou na pressão de outros agentes podem alterar de forma significativa o comportamento da doença dentro de uma integração. Estratégias que apresentaram bons resultados em determinado período podem perder eficiência à medida que a realidade epidemiológica se modifica. 

A experiência observada em sistemas intensivos de produção demonstra que os melhores resultados são obtidos quando diagnóstico, manejo, biosseguridade, ambiência, nutrição, vacinação e uso racional de medicamentos são conduzidos de forma conjunta.  

O controle efetivo depende principalmente da capacidade de identificar os fatores que permitem a expressão da doença dentro de cada sistema. Quanto melhor for o entendimento da origem dos animais, do momento em que os casos começam, das condições ambientais, do status imunológico, da alimentação, dos agentes concomitantes e do perfil dos isolados circulantes, maior será a possibilidade de desenvolver uma estratégia eficiente e sustentável. 

Diante da crescente importância do sorotipo 9 na produção intensiva de suínos, o diagnóstico precoce, a vigilância epidemiológica e a revisão constante dos programas sanitários tornam-se cada vez mais importantes. Mais do que combater o agente após o aparecimento dos casos, o desafio está em construir sistemas capazes de reduzir a pressão de infecção e aumentar a capacidade dos animais de enfrentar os desafios sanitários.  

Considerando sua ampla disseminação e capacidade de persistência nos rebanhos, a perspectiva mais realista é de que S. suis 9 permaneça presente nos sistemas de produção, tornando seu controle, e não sua erradicação, o principal objetivo sanitário. Nesse contexto, a combinação entre prevenção, monitoramento e intervenção precoce permanece como a estratégia mais consistente para reduzir os impactos produtivos e econômicos associados à enfermidade. 

Referências 

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GOYETTE-DESJARDINS, G.; AUGER, J. P.; XU, J.; SEGURA, M.; GOTTSCHALK, M. Streptococcus suis, an important pig pathogen and emerging zoonotic agent: an update on the worldwide distribution based on serotyping and sequence typing. Emerging Microbes & Infections, v. 3, e45, 2014. DOI: 10.1038/emi.2014.45. 

HAMMERSCHMITT, M. E.; SCHWERTZ, C. I.; LOPES, B. C.; PEREIRA, P. R.; FRANDOLOSO, R.; DRIEMEIER, D. Clinical and pathological aspects of an outbreak of Streptococcus suis serotype 9 infection in pigs. Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 42, e07004, 2022. 

JEFFERY, A. et al. Immune response induced by a Streptococcus suis multi-serotype autogenous vaccine used in sows to protect post-weaned piglets. Veterinary Research, v. 55, art. 57, 2024. DOI: 10.1186/s13567-024-01313-x.  

LIAO, S. F.; JI, F.; FAN, P.; DENRYTER, K. Swine gastrointestinal microbiota and the effects of dietary amino acids on its composition and metabolism. International Journal of Molecular Sciences, v. 25, n. 2, art. 1237, 2024. DOI: 10.3390/ijms25021237. 

MIGUÉLEZ-PÉREZ, R. et al. Biofilm formation in Streptococcus suis: in vitro impact of serovars and assessment of coinfections with other porcine respiratory disease complex bacterial pathogens. Veterinary Research, v. 55, n. 1, art. 157, 2024. DOI: 10.1186/s13567-024-01412-9. 

MU, C.; BIAN, G.; SU, Y.; ZHU, W. Differential effects of breed and nursing on early-life colonic microbiota and immune status as revealed in a cross-fostering piglet model. Applied and Environmental Microbiology, v. 85, n. 9, e02510-18, 2019. DOI: 10.1128/AEM.02510-18. 

OBRADOVIC, M. R.; SEGURA, M.; SEGALÉS, J.; GOTTSCHALK, M. Review of the speculative role of co-infections in Streptococcus suis-associated diseases in pigs. Veterinary Research, v. 52, art. 49, 2021. DOI: 10.1186/s13567-021-00918-w.  

RIECKMANN, K.; PENDZIALEK, S.-M.; VAHLENKAMP, T.; BAUMS, C. G. A critical review speculating on the protective efficacies of autogenous Streptococcus suis bacterins as used in Europe. Porcine Health Management, v. 6, art. 12, 2020. DOI: 10.1186/s40813-020-00150-6.  

WILLEMSE, N. et al. Clonal expansion of a virulent Streptococcus suis serotype 9 lineage distinguishable from carriage subpopulations. Scientific Reports, v. 9, art. 15429, 2019. DOI: 10.1038/s41598-019-51576-0. 

 

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