23 out 2026

Sua granja está repondo matrizes ou antecipando o próximo descarte?

Craig Lewis mostra como a pressão por reposição pode comprometer a seleção de leitoas e por que ampliar a vida produtiva exige integrar genética, nutrição e manejo.

Sua granja está repondo matrizes ou antecipando o próximo descarte?

Longevidade em matrizes suínas depende da seleção de leitoas

A matriz que Craig Lewis gostaria de encontrar em todas as granjas quase passava despercebida na criação de seu pai. Entrava no plantel, era coberta, paria uma boa leitegada, desmamava e repetia esse desempenho por cinco ou seis ciclos, sem precisar de tratamentos. 

Ao chamá-la de “matriz invisível”, o geneticista descreveu uma fêmea que sustentava a produção sem as intercorrências que mobilizam a equipe e encurtam a permanência no rebanho. Segundo ele, para ter mais dessas matrizes, a granja precisa conseguir escolher quais leitoas entram na reprodução.

Quando faltam candidatas para cumprir as metas de cobertura, a seleção pode ceder à necessidade de preencher vagas, permitindo a entrada de fêmeas sem as condições físicas ou reprodutivas adequadas. A pressão por reposição pode, assim, alimentar o próprio problema: animais admitidos para completar o lote saem precocemente e precisam ser substituídos.

Lewis, diretor comercial da PIC para o Norte da Europa, discutiu essa relação durante o World Nutrition Forum 2026, organizado pela dsm-firmenich em Kuala Lumpur (Malásia). A suínoBrasil acompanha o evento em cobertura exclusiva do grupo editorial agriNews Brasil.

A reposição precisa dar espaço à seleção

O exemplo que levou ao palco veio da propriedade da família. Seu pai colocava dez leitoas na recria e esperava cobrir as dez. “Isso não é seleção”, afirmou, em tradução do inglês. Ao planejar a reposição sem margem para excluir candidatas, a granja perde a capacidade de rejeitar animais que não deveriam ingressar no plantel.

O custo dessa escolha aparece nos ciclos seguintes. No trabalho publicado nos anais, Lewis, S. Shevchenko e P. Magallon relacionam a baixa longevidade à maior demanda por leitoas, ao aumento dos dias não produtivos e ao maior custo de alimentação por leitão desmamado. Quando a matriz permanece saudável e produtiva por mais tempo, o investimento em seu desenvolvimento e reposição é distribuído por um número maior de leitões desmamados.

Na seleção, essa perspectiva exige olhar além do índice genético. Lewis destacou que uma leitoa com claudicação pode ter um excelente índice e, ainda assim, não apresentar condições de produzir sucessivas leitegadas. A avaliação dos aprumos e da locomoção, associada à aptidão reprodutiva, ajuda a identificar se aquela candidata tem estrutura para permanecer no rebanho.

Atingir o peso não basta para iniciar a reprodução

A maior velocidade de crescimento dos animais torna essa avaliação ainda mais importante. Uma leitoa pode atingir peso elevado antes de estar fisiologicamente preparada para a cobertura, e o excesso de peso também aumenta a carga sobre sua estrutura. Lewis defendeu que a decisão considere, em conjunto, idade, peso, manifestação de cio e condição corporal, acompanhando as mudanças que o melhoramento genético introduz nos animais.

Isso exige ajustar o desenvolvimento das leitoas e o programa alimentar às recomendações da genética utilizada. Ao longo dos ciclos, a atenção se estende ao consumo na lactação e à mobilização das reservas corporais, para que a fêmea consiga voltar à reprodução e sustentar o parto seguinte. Lewis destacou o caliper como ferramenta prática para avaliar a condição corporal com maior objetividade e orientar o manejo alimentar.

Nas granjas que visita, o geneticista também encontra uma limitação que dificulta corrigir as perdas: mortes registradas como “outras causas”. Sem distinguir problemas locomotores, doenças e outros motivos, a equipe dispõe de pouca informação para decidir onde agir. Ele associou a qualidade dos registros à capacitação dos funcionários para reconhecer alterações e intervir antes que os problemas se agravem.

“Não subestime o componente humano”, ressaltou, em tradução do inglês.

A vida na granja comercial precisa orientar o melhoramento

Para selecionar animais que permaneçam mais tempo em produção, os programas genéticos precisam acompanhar o que acontece nas granjas comerciais. Nos núcleos, a elevada renovação necessária para acelerar o progresso genético limita a observação da vida produtiva completa das matrizes. As condições sanitárias e de manejo também diferem daquelas enfrentadas pelas fêmeas nos sistemas de produção.

Lewis explicou como o acompanhamento de matrizes cruzadas em granjas comerciais, combinado com informações de DNA para estabelecer parentesco, permite levar esses resultados à seleção nos núcleos. Ao identificar famílias cujas descendentes permanecem mais tempo no plantel, o programa passa a incorporar uma informação que antes era difícil de obter. Registrar por que as fêmeas saem também ajuda a direcionar o melhoramento para as causas das perdas.

A análise de imagens amplia a precisão desse trabalho. Câmeras e inteligência artificial permitem avaliar aprumos e locomoção com critérios mais consistentes entre animais e granjas, reduzindo a variação dos escores atribuídos por diferentes avaliadores. Nos resultados apresentados por Lewis, a nova abordagem elevou em três vezes a herdabilidade estimada dos escores de aprumos. A mensuração mais precisa permite distinguir melhor a contribuição genética para a característica e favorece a seleção de animais estruturalmente adequados.

O que os dados mostram sobre prolificidade e longevidade

A discussão também exige cuidado ao atribuir as saídas precoces ao aumento do tamanho das leitegadas. Lewis apresentou um estudo que assina com Pieter Knap e Justin Holl, baseado em 371.343 matrizes PIC Camborough de 329 granjas comerciais. Embora a longevidade tenha diminuído ao longo do período analisado, os pesquisadores não encontraram associação consistente que explicasse essa tendência pelo aumento do número total de nascidos naquela população.

Os autores observam que os resultados não devem ser generalizados para outras populações e que mudanças na genética, na nutrição e no manejo podem ter compensado parte dos desafios biológicos. Para a granja, a investigação precisa alcançar as condições em que a fêmea produz e os motivos de sua retirada. Isso inclui revisar a decisão que a colocou no plantel: havia candidatas suficientes para escolher ou a meta de cobertura determinou quais leitoas seriam aproveitadas?

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