Expansão territorial dos suídeos asselvajados, risco de doenças, circulação entre áreas livres e não livres e dificuldade para medir a população colocam o controle do javali no centro da agenda sanitária brasileira; São Paulo começa a testar respostas mais estruturadas

O Brasil já sabe que os javalis não respeitam fronteiras. O que ainda não está claro é se o país consegue transformar o conhecimento sobre sua distribuição em redução efetiva da população e, principalmente, em uma barreira capaz de proteger a sanidade dos rebanhos comerciais.
A questão ganhou dimensão nacional no Fórum sobre Javalis realizado pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (FAESP), nesta terça-feira (15), ao reunir representantes do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Embrapa, governo paulista e setor produtivo.

O problema deixou há muito tempo de ser apenas ambiental ou relacionado à fauna invasora. Os suídeos asselvajados passaram a integrar a vigilância sanitária brasileira justamente porque circulam entre ambientes naturais, propriedades rurais e criações comerciais e podem participar da dinâmica de diferentes agentes infecciosos.
Para a suinocultura, a preocupação mais imediata está na possibilidade de uma enfermidade de impacto econômico atingir uma população de animais que não está submetida ao mesmo nível de controle sanitário dos rebanhos comerciais.
A expansão do javali pelo território brasileiro não pode ser analisada isoladamente. Segundo Lia Coswig, chefe da Divisão de Sanidade de Suídeos do Departamento de Saúde Animal do MAPA, a presença de suídeos asselvajados já é observada também na Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile.
A própria história da introdução ajuda a explicar o cenário atual. Parte dos animais chegou ao Brasil por vias oficiais, em uma época em que o javali era associado à produção de carne, rusticidade e criação. Também houve entrada a partir de países vizinhos, onde animais haviam sido introduzidos para caça.
O MAPA realizou um primeiro levantamento nacional sobre a percepção da presença de suídeos asselvajados em 2019 e repetiu o questionário entre o final de 2025 e o início de 2026. O segundo levantamento ampliou a cobertura das respostas e mostrou uma presença territorial mais ampla.
O resultado chamou atenção inclusive pela ocorrência relatada em estados distantes das áreas historicamente associadas ao problema, como Roraima e Amapá. Para Coswig, a distribuição também levanta uma questão sobre a participação humana na dispersão desses animais.
Mais do que descobrir novos pontos no mapa, o desafio agora é entender como a população se desloca, qual é sua densidade e onde estão as interfaces de maior risco com a produção comercial.
A razão para essa vigilância é sanitária. O Brasil mantém status sanitários que são fundamentais para sua inserção no mercado internacional de proteína animal. A peste suína africana (PSA), por exemplo, já esteve presente no país, mas o Brasil foi declarado livre da doença em 1984. Hoje, a manutenção desse status é uma das principais preocupações da cadeia. A relação com o javali é particularmente sensível porque PSA e peste suína clássica (PSC) afetam suídeos, incluindo os animais asselvajados e os suínos domésticos.

Como resumiu Lia Coswig durante o fórum, diante de uma doença de impacto comercial, não importa se o foco está no javali ou no suíno doméstico: o efeito sobre o mercado pode ser imediato.
Isso muda a maneira de olhar para o animal. O javali não precisa estar dentro de uma granja para representar um problema para a suinocultura. Basta existir uma interface entre a população de vida livre, propriedades rurais, pessoas, equipamentos, cães, veículos ou produtos de origem animal que permita a circulação de agentes infecciosos. É justamente por isso que a vigilância dos suídeos asselvajados foi incorporada aos programas de vigilância das doenças dos suínos.
O risco sanitário, entretanto, vai muito além da PSA e da PSC. Pesquisadora da Embrapa Suínos e Aves, Virginia Santiago Silva explicou que a população de javalis funciona como uma espécie de ponto de observação de agentes que circulam no ambiente e que podem alcançar diferentes espécies.
Um exemplo citado durante o fórum foi a detecção de Trichinella em javalis. O diagnóstico chamou atenção porque não havia registro da doença nas populações domésticas brasileiras e a identificação no ciclo silvestre alterou o status do país perante a Organização Mundial de Saúde Animal.
Também foram apresentados dados envolvendo outros agentes, como brucelose, Senecavírus, influenza A, hepatite E, toxoplasma e diferentes parasitos.
No caso do Senecavírus, a preocupação é ainda mais complexa porque o agente já circula na suinocultura brasileira e foi detectado também em javalis. Isso levanta uma questão de mão dupla: o que a produção pode levar para a população de vida livre e, depois, o que essa população pode devolver ao ambiente produtivo.

Artur Felício e Virgínia Santiago (Embrapa).
Para Virginia, esse cenário reforça que a biosseguridade não termina nos limites da propriedade.
“O que quer dizer isso aqui? Isso não estava lá. Isso é falha de biosseguridade da suinocultura.”
A frase resume um dos pontos centrais da discussão: o controle do javali também depende do controle das interfaces entre produção, ambiente e fauna de vida livre.
Existe, porém, uma dificuldade anterior ao controle: saber exatamente o tamanho e a distribuição das populações. A vigilância atual depende, em grande medida, de animais capturados por controladores autorizados e treinados pelos serviços veterinários. Esses animais permitem a coleta de material para exames, mas a distribuição das amostras não é uniforme.
Virginia chamou atenção para esse problema ao mostrar que, em um dos ciclos de vigilância, São Paulo teve 109 amostras e, no ciclo seguinte, 75. Isso pode produzir pistas importantes, mas não permite, sozinho, definir o perfil sanitário de todo o território. A mesma limitação aparece quando se tenta comparar resultados entre estados.
Se uma unidade da federação coleta 20 amostras e outra coleta 400, a segunda naturalmente terá maior probabilidade de detectar determinado agente. Portanto, encontrar mais casos em um território não significa necessariamente que ele tenha uma população mais infectada.
Quantos javalis existem? Onde estão os maiores agrupamentos? Qual é a densidade? Quanto a população diminuiu depois de uma ação de controle?
Sem essas respostas, torna-se difícil saber se uma estratégia está realmente funcionando.
É nesse ponto que a experiência paulista ganha relevância para o restante do país. Durante o fórum, representantes do Estado apresentaram uma estrutura que combina notificações, treinamento de controladores, coleta de amostras e formação de uma rede de vigilância ativa e passiva. O trabalho também busca mapear ocorrências e aproximar a Defesa Agropecuária de produtores, controladores, sindicatos rurais e outras instituições.
A lógica é territorial: saber onde o animal está, onde houve contato com propriedades, onde existem suínos, quais áreas apresentam maior risco e onde os recursos públicos devem ser concentrados.
O Estado também trabalha na estruturação de núcleos especializados de controle e na construção de projetos-piloto que possam testar métodos de redução populacional. É uma mudança importante de enfoque. Como resumiu o secretário executivo de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, Diógenes Kassaoka, durante o fórum:
“Eu já fiz muito plano, porque tem plano pra caramba, eu preciso que os javalis morram, eu preciso que a população diminua, e é isso que a sociedade espera.”
Essa talvez seja uma das principais conclusões técnicas apresentadas no encontro. Virginia reforçou que controle não é caça.
A caça pode integrar uma estratégia, inclusive como fonte de animais para vigilância sanitária, mas não deve ser confundida com uma política de controle populacional.
A própria experiência brasileira aponta para a necessidade de uma abordagem com diferentes métodos, combinando vigilância, controle, conhecimento ecológico, biosseguridade, fiscalização, comunicação e participação dos produtores.
A pesquisadora também demonstrou cautela em relação à possibilidade de erradicação. Experiências internacionais mostram que eliminar completamente uma espécie invasora dessa natureza é um processo longo e caro. Nas condições atuais do Brasil, a prioridade deveria ser controlar a população e proteger os rebanhos.
“O que a gente tem realmente é que focar no controle e preservar os nossos rebanhos.”
Por isso, a estratégia precisa ser adaptativa, diferentes territórios podem exigir diferentes combinações de métodos.
Outro ponto que amplia a dimensão do problema é o consumo da carne de javali. A possibilidade de aproveitamento do animal abatido é uma realidade entre controladores e consumidores. Mas, do ponto de vista sanitário, a carne de caça não passa pelos mesmos mecanismos de inspeção aplicados à carne comercial.
Virginia chamou atenção para o risco de produtos como salames e carnes curadas provenientes de animais de áreas com circulação de agentes infecciosos. O alerta é particularmente importante porque determinados agentes podem sobreviver a processos de cura, salga ou defumação.
A preocupação também envolve zoonoses. Durante o fórum foram apresentados achados de toxoplasma, hepatite E, parasitos e outros agentes em animais de diferentes regiões.
Isso não significa que todo javali represente automaticamente risco à saúde humana. Significa que a origem do animal, o processamento da carne e as condições de preparo precisam ser considerados antes que o consumo seja tratado como uma prática sem risco.
No fim, a discussão sobre javalis revela um problema de governança:
O MAPA tem responsabilidade sanitária.
O Ibama possui atribuições relacionadas ao controle da espécie invasora.
Os estados atuam na vigilância e no controle dentro de suas competências.
Produtores precisam proteger as propriedades.
Controladores participam da coleta de animais e amostras.
Pesquisadores produzem dados sobre ecologia e sanidade.
Mas nenhum desses atores consegue resolver sozinho o problema.
Lia Coswig foi direta ao tratar da responsabilidade compartilhada:
“O suíno asselvajado, ele não é responsabilidade do IBAMA. Ele não é responsabilidade do Ministério da Agricultura.”
Para ela, o problema também envolve produtores, representantes do setor e agentes políticos. É justamente aí que a experiência paulista pode ser observada pelo restante do país. Ao tentar integrar dados de ocorrência, vigilância sanitária, controladores e ações territoriais, São Paulo começa a experimentar uma resposta para uma questão que não é paulista.
O desafio brasileiro agora é maior do que descobrir onde o javali está. É saber onde a população está crescendo, onde ela representa maior risco sanitário, quais métodos realmente reduzem sua presença e como medir esse resultado ao longo do tempo. Se o país já sabe que o javali chegou a diferentes regiões, o próximo passo não pode ser apenas produzir um mapa cada vez mais completo.
A pergunta que a suinocultura precisa responder é outra. o Brasil está controlando o javali ou apenas aprendendo, cada vez melhor, onde ele está?
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