Poder de compra reage, mas margem segue pressionada
Por Redação suínoBrasil
Cepea registra avanço de até 30,3% na relação de troca com insumos frente a setembro, mas indicador ainda está distante do nível de 2025; suinocultores alertam para os limites da tecnificação quando a receita não cobre os custos.

Poder de compra reage, mas margem segue pressionada
Por Redação suínoBrasil
A recuperação das cotações do suíno vivo em outubro trouxe algum alívio ao suinocultor paulista, após meses de deterioração do poder de compra. O movimento, porém, ainda não representa uma retomada das condições observadas em 2025. Na avaliação de produtores, a melhora dos indicadores zootécnicos e os investimentos em tecnologia são importantes, mas não compensam indefinidamente uma relação desfavorável entre o preço recebido pelo animal e o custo de produção.
Levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) mostra que, na parcial de outubro, até o dia 15 de outubro de 2026, o poder de compra do suinocultor paulista avançou 30,3% frente ao milho e 20,4% frente ao farelo de soja, na comparação com setembro. A recuperação interrompeu uma sequência de retrações mensais iniciada em meados do ano.
O principal fator foi a valorização do suíno vivo. Na praça SP-5, que abrange Bragança Paulista, Campinas, Piracicaba, São Paulo e Sorocaba, o animal posto na indústria registrou média de R$ 6,29/kg na parcial de outubro, alta de 24,3% sobre os R$ 5,06/kg de setembro.
Apesar da reação, a comparação anual revela a dimensão da pressão enfrentada pelo setor. Em relação a outubro de 2025, o poder de compra caiu 29,8% frente ao milho e 46,7% frente ao farelo de soja. Em termos reais, o suíno vivo está 31% abaixo do valor registrado um ano antes, considerando a correção pelo IGP-DI de setembro de 2026.
A reação recente das cotações também está relacionada a ajustes na oferta. Segundo o Cepea, a redução do peso médio dos animais abatidos no mercado independente contribuiu para diminuir a disponibilidade de carne suína e favorecer a valorização do animal vivo.
Em São Paulo, o peso médio passou de 122,4 kg em setembro para 119,7 kg na parcial de outubro, queda de 2,2%. No Rio Grande do Sul, recuou de 129 kg para 127,7 kg, enquanto, no Paraná, passou de 116,2 kg para 115,1 kg.
Além da menor oferta de animais em peso ideal para abate desde a segunda quinzena de setembro, a intensificação dos embarques em outubro ajudou a reduzir a disponibilidade interna de carne. O Cepea também aponta o reforço sazonal do consumo das famílias no início do mês e a maior atividade industrial na formação de estoques para as festas de fim de ano.

Imagem: iStock.
O ajuste, contudo, ocorre após um período de oferta elevada. Ao longo de 2026, o crescimento da produção superou a capacidade de absorção dos mercados interno e externo, pressionando as cotações durante boa parte do ano. O ritmo forte das exportações ajudou a limitar esse desequilíbrio, mas não impediu a deterioração dos preços recebidos pelos produtores.
A experiência do suinocultor e agricultor Edson Luiz Sanguino, da Granja Sanguino, ilustra a diferença entre desempenho produtivo e rentabilidade. Segundo ele, 2025 foi um ano favorável em sua propriedade, beneficiada pela relação entre os preços dos insumos e os do suíno. Embora o plantel não tenha aumentado, mudanças genéticas elevaram o número de leitões desmamados e, consequentemente, a produção.
O cenário mudou no início de 2026. “O preço do suíno vivo caiu muito e as commodities não mudaram. Aí o setor passou a trabalhar no vermelho”, relata.
Para Edson, existe um limite para a redução dos custos por meio de melhorias genéticas, instalações e tecnificação.
“Tem momento que, por mais que você faça, o preço do suíno não cobre nem o custo da ração”, afirma.
Nessa situação, a capacidade de atravessar o período deficitário depende também da disponibilidade de caixa para sustentar a operação.
A médica-veterinária e gerente da granja, Aline Sanguino, destaca que elevar o número de leitões por matriz não garante, isoladamente, maior resultado econômico. O aumento da prolificidade pode vir acompanhado de menor peso ao nascimento, maior demanda de mão de obra e perdas ao longo da criação.
“Não é só número de animais”, pondera. Para ela, o objetivo deve ser encontrar um ponto de equilíbrio entre desempenho, custos e resultado final. “Tem que ficar até o ponto que isso traga o equilíbrio e lucro.”
Para as próximas semanas, o comportamento do milho e, principalmente, do farelo de soja será decisivo para avaliar se a recuperação do preço do suíno vivo se traduzirá em melhora mais consistente da margem. O Cepea alerta que a demanda interna por carne suína costuma perder força na segunda quinzena do mês, o que pode reduzir a procura da indústria por novos lotes e favorecer a estabilidade das cotações.
O desafio para o produtor, portanto, vai além de acompanhar o preço por quilo do animal. A relação de troca com os insumos, o peso de abate, a eficiência alimentar, as perdas produtivas e a capacidade financeira de suportar períodos de margem negativa precisam ser avaliados em conjunto.
Em um mercado no qual a oferta elevada limitou a valorização durante boa parte do ano, produzir mais só representa vantagem quando o ganho de produtividade se converte em resultado econômico.
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