Por Marcelo Miele1; Lisa Le Clerc2; Norbert Potori3; Robert Hoste4
Por Marcelo Miele1; Lisa Le Clerc2; Norbert Potori3; Robert Hoste4 As relações dos suinocultores com os demais elos da cadeia de suprimentos são dimensões-chave para compreender a organização e o desempenho das empresas e dos países produtores de carne suína. O objetivo deste estudo é apresentar um panorama da organização na suinocultura mundial, com foco […]

Por Marcelo Miele1; Lisa Le Clerc2; Norbert Potori3; Robert Hoste4
As relações dos suinocultores com os demais elos da cadeia de suprimentos são dimensões-chave para compreender a organização e o desempenho das empresas e dos países produtores de carne suína. O objetivo deste estudo é apresentar um panorama da organização na suinocultura mundial, com foco nas formas de coordenação vertical mais representativas em 21 países a partir da opinião de especialistas das redes InterPIG (http://interpig.org/#) e agri benchmark Pig (https://agribenchmark.org/pig/).
Segundo a literatura sobre governança da cadeia de suprimentos, a coordenação vertical diz respeito à forma como produtores e empresas legalmente independentes alinham e governam suas atividades. Isso envolve um conjunto de formas que varia de transações de mercado spot ou à vista (independente) em um extremo à integração vertical plena (propriedade total dos ativos) no outro, passando por diversas formas híbridas, como os contratos de comercialização, de produção e com cooperativas (Figura 1).

Figura 1. Formas de coordenação vertical. Fonte: adaptado pelos autores a partir da bibliografia consultada com uso do NotebookLM.
A publicação completa com todos os resultados, metodologia, bibliografia e a lista de profissionais e instituições participantes está disponível no portal da Embrapa ou no QR code a seguir (Figura 2).

Figura 2. Acesse aqui a publicação completa.
Participação das formas de coordenação vertical
O mercado spot (independente) é a forma mais comum de coordenação da transação entre suinocultores e agroindústrias (Figura 3), ocorrendo em todos os países estudados, exceto em um, sendo que em nove representa 50% ou mais da produção. A suinocultura na Áustria e na República Tcheca é essencialmente baseada no mercado spot (75% ou mais), enquanto na África do Sul, Bélgica, China, Holanda, Hungria, Irlanda e Vietnã ele representa a maior parcela (entre 50% e 75%).

Figura 3 – Participação das formas de coordenação vertical na produção de suínos Fonte: autores, baseados na opinião de membros das redes InterPIG e agri benchmark Pig. * Chamados de “contratos de integração”, o que não deve ser confundido com integração vertical plena.
Os contratos estão presentes em todos os 21 países, mas geralmente com uma participação de até 25%. No entanto, em cinco países eles representam 50% ou mais. Nos Estados Unidos e na Suécia predominam os contratos de comercialização, enquanto que no Canadá, Espanha e Itália predominam os contratos de produção (chamados de “contratos de integração”). O cooperativismo e a integração vertical plena não são relevantes em um terço dos países; no entanto, em quatro países representam 50% ou mais da suinocultura.
Na Dinamarca, Finlândia e França, a produção baseia-se essencialmente em cooperativas, enquanto em Portugal ela se fundamenta na integração vertical plena, onde a agroindústria é proprietária das granjas de suínos.
Embora os países apresentem uma grande variedade de padrões de coordenação vertical, a maioria possui uma ou duas formas predominantes. Alemanha, Brasil e Polônia se destacam com pelo menos quatro formas distintas de coordenação vertical, sendo que nenhuma atinge 50% da produção. A suinocultura nesses países “mistos” se baseia principalmente em contratos de comercialização no primeiro caso, e em contratos de produção nos outros dois (chamados de “contratos de integração”). Entretanto, é significativa a participação de transações ocorridas no mercado spot e no cooperativismo nos três países.
Tendências esperadas nos próximos 10 anos
Em geral, os especialistas consultados esperam que a participação do mercado spot (independente) diminua ou permaneça estável, que os contratos (de comercialização e produção) aumentem ou permaneçam estáveis, que o cooperativismo permaneça estável ou diminua e que a integração vertical plena (propriedade total) aumente (Figura 4).

Entre os nove países onde predomina o mercado spot, a maioria espera uma diminuição na participação dessa forma de coordenação (Áustria, Bélgica, China, Hungria e Vietnã), juntamente com um aumento na participação dos contratos e da integração vertical. A tendência apontada é de estabilidade nos outros quatro países deste grupo (África do Sul, Holanda, Irlanda e República Tcheca).
Entre os três países com coordenação vertical “mista” e os cinco países onde os contratos representam 50% ou mais do mercado, apenas um deverá reduzir a participação dos contratos (Estados Unidos), enquanto nos demais a mesma deverá aumentar (Alemanha, Brasil, Canadá, Itália e Suécia) ou permanecer estável (Espanha e Polônia). Em quase todos esses oito países, prevê-se uma redução na participação do mercado spot e um aumento na integração vertical plena, com exceção da Itália e da Suécia. A maioria desses países prevê estabilidade no cooperativismo, exceto a Suécia (redução) e o Brasil e a Alemanha (aumento).
Nos três países onde as cooperativas representam 50% ou mais do mercado, prevê-se estabilidade (Finlândia e França) ou declínio (Dinamarca) dessa forma de coordenação vertical. Por fim, em Portugal, é esperado um aumento na integração vertical plena, que é a forma predominante naquele país, juntamente com estabilidade das transações no mercado spot e nos contratos e uma diminuição das cooperativas.
Considerações finais
As transações no mercado spot (independente) e os contratos são as formas mais comuns de coordenação vertical nos países pesquisados, seguidos pelo cooperativismo e a integração vertical plena. Do ponto de vista dos suinocultores, o tipo de organização da cadeia de suprimentos implica em diferenças claras na magnitude e composição dos custos da granja, na exposição ao risco, na necessidade de capital de giro e, sobretudo, na sua capacidade de influenciar as decisões técnicas e gerenciais.
Embora existam configurações específicas de organização em cada país – dependendo das características nacionais, da legislação, da estrutura agrária, da organização industrial e do desenvolvimento histórico – as formas de coordenação vertical não são mutuamente exclusivas e podem ocorrer simultaneamente na mesma região ou até na mesma empresa ou cooperativa. Muitos países apresentam modelos de coordenação combinados, com cooperativas, integração vertical plena e contratos interligados na mesma cadeia de suprimentos. Portanto, uma diversidade de situações subjaz à visão geral qualitativa deste estudo.
Além disso, a coordenação pode ter diferentes definições entre países e dentro deles, com terminologia semelhante usada para descrever formas distintas. Os contratos abrigam duas formas fundamentalmente diferentes. Os contratos de comercialização complementam as transações no mercado spot para gerenciar riscos, enquanto os de produção são uma extensão das agroindústrias para organizar a produção.
A integração vertical plena e os contratos de produção também são formas distintas; no entanto, na prática cotidiana, ambos são frequentemente chamados de “integração vertical” ou “integração” pelos participantes do mercado ou mesmo na própria legislação voltada a essa temática (ver no Brasil as definições na Lei da Integração, n.º 13.288).
Em contrapartida, os contratos com cooperativas em muitos países são quase idênticos aos contratos de comercialização ou de produção com empresas, com a diferença de que os produtores têm maior influência através do direito a voto. É importante destacar também que, neste estudo, a integração vertical se refere a uma cadeia de suprimentos de propriedade total de uma empresa (ração-granja-abate-processamento), mas suinocultores independentes de ciclo completo também podem ser considerados “integrados verticalmente” a montante quando dispõem de produção de grãos e fábrica de ração, ou a jusante quando realizam o próprio abate em agroindústrias rurais ou comercializam diretamente com o consumidor em açougues e casas de carnes próprias.
De um modo geral, os especialistas preveem um aumento nos contratos e na integração vertical plena em detrimento do mercado spot nos próximos dez anos, juntamente com a relativa estabilidade do cooperativismo. Há certa lógica por trás da transição para uma coordenação mais formal na cadeia de suprimentos, tendo em vista que a volatilidade das commodities forçou produtores e indústrias a buscarem estabilidade e resiliência.
Além disso, outros fatores se destacam, como a crescente complexidade dos padrões de qualidade e rastreabilidade e as limitações de recursos humanos e financeiros em estabelecimentos rurais de menor escala.
Por fim, é importante destacar que países e cadeias de suprimentos caracterizados pela predominância das transações no mercado spot (independente) não necessariamente carecem de coordenação, que também pode assumir formas horizontais, como associações de produtores bem organizadas, normativas e regulamentos públicos e privados, relações de longo prazo baseadas em reputação e instituições atuantes na regulação da concorrência.
Os produtores austríacos e alemães cooperam horizontalmente, resultando em um mecanismo de fixação de preços mais equilibrado do que em outros países com predominância do mercado spot. Isso também ocorre em estados brasileiros onde a suinocultura independente promove bolsas de suínos e ações colaborativas.
Agradecimentos
Aos especialistas das redes InterPIG e agri benchmark Pig que contribuíram com informações e a Mariël Benus, da Wageningen University & Research, e Joseane Padilha da Silva, da Embrapa Suínos e Aves, por suas contribuições na elaboração do questionário e na metodologia.
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