13 maio 2026

Nutrição de precisão reduz em 11% o custo por quilo de leitão produzido em estudo apresentado no CBNA

Bruno A. N. Silva, da UFMG, usou resultado com matrizes lactantes para mostrar o potencial de modelos dinâmicos capazes de ajustar nutrientes ao consumo real, ao estado fisiológico e às diferenças entre animais.

Nutrição de precisão reduz em 11% o custo por quilo de leitão produzido em estudo apresentado no CBNA

Bruno A. N. Silva apresentou no CBNA estudo com matrizes lactantes em que a nutrição de precisão reduziu em 11% o custo por quilo de leitão produzido.

Nutrição de precisão em suínos reduz em 11% o custo por quilo de leitão produzido em estudo apresentado no CBNA

A nutrição de precisão pode deixar de ser apenas uma promessa tecnológica para se tornar uma ferramenta concreta de eficiência econômica na suinocultura. Durante o painel “Impacto da pesquisa brasileira na produção animal”, realizado na 36ª Reunião Anual do CBNA, Bruno A. N. Silva, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, apresentou um estudo com matrizes lactantes em que o ajuste dinâmico diário da dieta reduziu em 11% o custo por quilo de leitão produzido na maternidade.

A agriNews Brasil acompanhou o evento como media partner. O dado dos 11% foi usado pelo palestrante para sustentar uma discussão mais ampla: a nutrição de suínos precisa avançar de programas baseados em médias e fases fixas para modelos capazes de considerar o animal, o ambiente, o consumo real, a microbiota, a genética, o comportamento e o estado fisiológico em tempo mais próximo da realidade.

  • Segundo Bruno Silva, cerca de 70% a 80% do custo de produção do suíno está ligado à alimentação e à nutrição. Por isso, qualquer avanço capaz de reduzir desperdício, ajustar oferta de nutrientes e melhorar eficiência metabólica tem impacto direto sobre a competitividade da cadeia. O ponto central, no entanto, não é simplesmente reduzir dieta. É entregar o nutriente certo, no momento certo, para o animal que realmente precisa dele.

No estudo apresentado, além da redução de 11% no custo por quilo de leitão produzido, o ajuste dinâmico diário reduziu 12% o consumo de ração, 10% a ingestão de energia, 15% a ingestão de proteína e 13% a ingestão de lisina. Esses resultados foram apresentados como evidência do potencial da nutrição de precisão em matrizes lactantes, e não como uma conclusão universal aplicável a qualquer granja sem validação das condições produtivas.

A crítica do pesquisador recai sobre o uso excessivo de médias. Em sistemas tradicionais, a dieta costuma ser formulada para uma fase, uma categoria ou um lote. O problema é que os animais dentro de uma mesma baia não têm exatamente a mesma exigência, o mesmo consumo, o mesmo peso, o mesmo comportamento e o mesmo grau de competição. Quando a formulação não acompanha essa variabilidade, parte dos animais pode receber nutrientes abaixo da exigência real, enquanto outra parte recebe acima do necessário.

Bruno Silva destacou que a dispersão de peso entre indivíduos pode aumentar de forma expressiva ao longo do ciclo. Animais que começam com diferenças relativamente pequenas podem chegar ao abate com variações muito maiores, evidenciando o chamado “efeito do indivíduo”. Em fêmeas gestantes alojadas em grupos, a hierarquia social, o comportamento alimentar e o nível de atividade também podem alterar as exigências e o acesso ao alimento.

Da dieta estática à dieta dinâmica

A nutrição de precisão apresentada pelo pesquisador parte da ideia de que o suíno não deve ser tratado apenas como uma média populacional, mas como um sistema biológico em interação constante com ambiente, genética, microbiota, dieta e estado sanitário. Nesse modelo, sensores, inteligência artificial, visão computacional, acompanhamento de consumo, peso e comportamento podem ajudar a ajustar nutrientes diariamente.

Na palestra, Bruno Silva apresentou tecnologias como sensores IoT, visão computacional 3D e algoritmos de machine learning aplicados ao monitoramento de temperatura, umidade, comportamento alimentar, condição corporal, peso e níveis diários de aminoácidos e energia. Também citou o laboratório de inteligência artificial da UFMG, estruturado para acompanhar leitões individualmente e registrar crescimento, consumo de água, comportamento alimentar e interações.

Essas ferramentas permitem transformar dados em alertas e indicadores de decisão, como scores de saúde e bem-estar. Para a suinocultura, isso significa aproximar a nutrição da realidade do animal. Em vez de formular apenas para um grupo, o sistema passa a identificar padrões de consumo, risco, desempenho e adaptação.

Microbiota, fibras e saúde intestinal

A palestra também conectou nutrição de precisão a saúde intestinal. Bruno Silva destacou que a retirada de antibióticos e óxido de zinco, quando feita sem suporte sistêmico, pode gerar falhas no eixo intestinal. A resposta, segundo a abordagem apresentada, passa por compreender melhor microbioma, metagenômica, metabolômica e perfis bacterianos associados à resiliência e à eficiência alimentar.

Entre as alternativas discutidas, o pesquisador citou pós-bióticos, fitobióticos, fibras funcionais e estratégias de imprinting de microbiota da porca para o leitão. A ideia é preparar melhor o animal para os desafios da creche e reduzir a dependência de intervenções medicamentosas. Em estudo citado na apresentação, o uso de fibra funcional na gestação foi associado à redução de 8% no índice de medicação na creche.

A fibra foi reposicionada na palestra como nutriente funcional, e não apenas como enchimento ou diluente da dieta. Em matrizes, o tema ganha importância pela relação com saciedade, fermentação, estabilidade metabólica, comportamento e bem-estar. Bruno Silva chamou atenção para dietas nas quais grande parte da energia vem do amido rapidamente digerido, o que pode gerar fome, hipoglicemia e comportamentos agressivos ou estereotipados quando não há fermentação adequada.

Nutrição, genética e ética experimental

Outro eixo da apresentação foi a nutrigenômica. O pesquisador apresentou a dieta como algo capaz de “conversar com o DNA”, modulando rotas ligadas à inflamação, resiliência e eficiência. No horizonte, segundo a palestra, a pesquisa pode avançar para dietas desenhadas por linha genética, considerando perfis voltados a prolificidade, rusticidade ou máxima eficiência.

Bruno Silva também relacionou a nova agenda da pesquisa em suínos à ética experimental. Ao tratar dos princípios dos 3Rs — Replacement, Reduction e Refinement —, defendeu modelos in vitro, organoides intestinais, simulações, delineamentos mais eficientes e procedimentos menos invasivos. O tema foi apresentado como tendência relevante para empresas que desenvolvem e validam soluções nutricionais, especialmente diante de exigências internacionais de bem-estar animal.

Ao final, o pesquisador apontou sustentabilidade, eficiência metabólica, bem-estar e impacto ambiental como eixos centrais para a pesquisa de médio e longo prazo em suinocultura. A mensagem é que a nutrição deixa de ser apenas uma ferramenta de custo ou desempenho e passa a integrar saúde, comportamento, ambiente, dados e validação científica.

Para a suinocultura, a provocação é direta: o próximo salto de eficiência não virá apenas de formular uma dieta melhor para o lote. Virá da capacidade de entender diferenças individuais, reduzir desperdícios, modular microbiota, antecipar riscos, preservar bem-estar e transformar dados em decisão. O estudo com matrizes lactantes apresentado no CBNA mostra um exemplo concreto desse caminho, mas a tese de Bruno Silva é mais ampla: a nutrição de suínos está entrando na era do animal individual.

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