JOSÉ ANTÔNIO RIBAS JR – Presidente do Sindicato das Indústrias da Carne e Derivados no Estado de Santa Catarina (SINDICARNE)
Mesmo com excelência sanitária e alta eficiência produtiva, cadeia catarinense enfrenta déficit de milho, infraestrutura deficiente, crédito caro e incertezas regulatórias.

JOSÉ ANTÔNIO RIBAS JR – Presidente do Sindicato das Indústrias da Carne e Derivados no Estado de Santa Catarina (SINDICARNE)
Santa Catarina construiu uma das mais eficientes, modernas e competitivas cadeias agroindustriais de aves e suínos do mundo. Temos produtores tecnificados, indústrias de padrão internacional, rigor sanitário, capacidade de inovação e presença consolidada nos mercados mais exigentes. Somos uma ilha de sanidade reconhecida pelo mercado internacional. Essa excelência, porém, já não basta para assegurar competitividade diante da sucessão de custos, deficiências estruturais e incertezas regulatórias que se acumulam fora das propriedades e das plantas industriais.
O produtor catarinense faz a sua parte. Adota a metodologia da melhoria contínua, é eficiente, produtivo e incorporou tecnologia em níveis comparáveis aos melhores sistemas de produção do planeta. O problema está, cada vez mais, fora da porteira.
A infraestrutura é um exemplo evidente. Rodovias federais, estaduais e vicinais deterioradas encarecem o transporte de insumos, animais e produtos acabados. Aeroportos apresentam limitações, o fornecimento de energia elétrica carece de maior segurança e capacidade, falta oferta adequada de gás para uso industrial e persistem deficiências no abastecimento de água e na conectividade rural. Cada uma dessas fragilidades representa custo e reduz a capacidade de Santa Catarina competir com estados e países que oferecem melhores condições estruturais.
Há ainda um problema particularmente grave: o déficit de milho. Santa Catarina precisa buscar aproximadamente 7 milhões de toneladas do cereal, principalmente no Centro-Oeste, para alimentar seus vastos plantéis de aves e suínos. Apenas o deslocamento dessa matéria-prima representa dispêndio superior a R$ 6,5 bilhões em fretes. É dinheiro que não melhora granjas, não amplia indústrias, não gera tecnologia e não aumenta produtividade. É um custo logístico imposto pela distância e agravado pela precariedade da infraestrutura nacional.
Enquanto isso, outros estados avançam na oferta de melhores condições de transporte, energia, logística e parcerias entre Poder Público e setor privado. A disputa por investimentos industriais tornou-se intensa, e novos projetos procuram ambientes com segurança jurídica e custos competitivos. O Paraná é um exemplo de apoio ao setor: graças aos incentivos estatais, ultrapassou Santa Catarina na liderança da produção de aves e vem avançando velozmente na expansão da cadeia da suinocultura industrial.
O crédito é outro obstáculo. Uma agroindústria intensiva em capital precisa de instrumentos financeiros compatíveis com investimentos de longo prazo em inovação, modernização industrial, armazenagem, logística, sustentabilidade e biosseguridade. Crédito escasso e caro limita investimentos justamente quando a competição internacional exige atualização permanente. O Brasil assiste um aumento preocupante em recuperações judiciais no setor. Isso cobrará um preço amargo em empregos e na balança comercial.
No comércio exterior, também são necessárias atenção e firmeza institucional. Santa Catarina fornece carne de frango ao mercado europeu há mais de quatro décadas e construiu uma reputação baseada em qualidade, sanidade e confiabilidade. Por isso, o Estado deveria estar entre os estabelecimentos previstos para visitas de missão técnica europeia programada para outubro. Santa Catarina poderia ser o cartão de visitas da missão europeia, por sua experiência e excelência no atendimento àquele exigente mercado.
As preocupações aumentam quando olhamos para 2027. O debate sobre o fim da escala 6×1 precisa considerar as particularidades da produção de alimentos. Animais necessitam de alimentação, manejo e cuidados todos os dias. Granjas, incubatórios, unidades industriais e operações logísticas não podem simplesmente interromper suas atividades. Em um setor que já enfrenta severa escassez de mão de obra, mudanças sem medidas que compensem seus efeitos ampliarão custos, comprometerão escalas produtivas e reduzirão competitividade.
A reforma tributária também inspira apreensão. A verdadeira reforma exige reduzir o custo da máquina pública, pois nem o setor, nem o trabalhador suportam mais a carga tributária. Precisamos aumentar eficiência e produtividade do setor publico. O que deveria significar simplificação não pode resultar em mais burocracia, aumento do custo de conformidade, insegurança operacional ou maior carga efetiva sobre cadeias longas e complexas como as de aves e suínos.
A agroindústria catarinense compete com empresas de outros estados e com gigantes internacionais. Não é razoável exigir que a extraordinária eficiência conquistada dentro das propriedades e das indústrias compense indefinidamente todas as ineficiências acumuladas fora delas.
Sem infraestrutura adequada, energia confiável, logística competitiva, crédito acessível, segurança regulatória, política comercial eficiente e regras trabalhistas e tributárias construídas com conhecimento da realidade produtiva, haverá um limite para aquilo que a eficiência privada conseguirá suportar.
Competitividade não se decreta. Ela se constrói. E não pode continuar sendo responsabilidade exclusiva de quem produz.
Agroindústria de SC enfrenta desafios para manter competitividade
Inscreva-se agora para a revista técnica de suinocultura
AUTORES

Saúde da matriz suína: uma visão sistêmica
Carlos Carrijo
Leitegadas cada vez maiores: ate onde pode chegar o potencial da fêmea suína?
Guilherme Brant
Da exigência ao comedouro: nutrição de precisão na suinocultura
Luiz Fernando de Souza Alves
Leitegadas maiores, leitões menores: onde está o próximo ganho da suinocultura?

STREPTOCOCCUS SUIS SOROTIPO 9: Desafios e estratégias de controle
Huillian Zecchin
Estreia do porciFÓRUM consolida a força da suinocultura no SIAVS

Panorama da organização da suinocultura mundial
Lisa Le Clerc Marcelo Miele Nobert Potori Robert Hoste
Lactação em foco: como a condição corporal das fêmeas ativas determina a produção de leite e o sucesso da leitegada
Bruno Bracco Donatelli Muro César Augusto Pospissil Garbossa Erich Herzogenrath Cavaca Flavia Stievano de Souza Tavares Iris Alves de Jesus Rafaella Fernandes Carnevale
Enriquecimento ambiental para leitões: da teoria à aplicação nas granjas
Aline Cristina Sant'Anna Lucas Rocha Valfré Thiago Bernardino
Saúde locomotora de matrizes suínas: fatores de risco, nutrição e manejo
Clarice Speridião Silva Neta
Papo de granja: a sua granja está pronta para trabalhar em bandas?
Antônio Leomar EugênioTo provide the best experiences, we use technologies like cookies...