Fim da escala 6×1 preocupa suinocultores com custos
Por redação suínoBrasil
Gerente de granja relata dificuldades para organizar equipes em uma atividade que exige cuidados diários com os animais; ABPA prevê impactos sobre a capacidade produtiva e os custos da proteína animal

Fim da escala 6×1 preocupa suinocultores com custos
Por redação suínoBrasil
A mudança na jornada de trabalho no Brasil coloca em discussão um desafio para a suinocultura: como reorganizar as equipes sem comprometer a rotina de manejo dos animais? A redução da jornada semanal e a adoção de dois dias de descanso exigirão adaptações das atividades produtivas, incluindo aquelas que precisam funcionar todos os dias.
Na avaliação de produtores ouvidos pela suínoBrasil, a disponibilidade de mão de obra, especialmente nos fins de semana, já representa uma dificuldade para a organização das granjas. A mudança na jornada pode ampliar essa necessidade de reorganização, com possíveis reflexos sobre a contratação de trabalhadores e os custos operacionais.
Aline Sanguino, médica-veterinária e gerente de uma granja de suínos Sanguino, relata que a dificuldade para preencher as escalas de fim de semana já interfere na capacidade de ampliar a atividade.
“Essa escala acaba atrapalhando a gente um pouco, porque, no fim de semana, a gente já não estava conseguindo pessoas para trabalhar. E aí a gente fica limitado de crescer por conta de mão de obra, muitas vezes”, afirma.
Segundo Aline, a rotina da granja exige trabalhadores disponíveis para atividades que não podem ser simplesmente transferidas para outro dia. Entre elas estão o fornecimento de ração e os manejos relacionados ao parto das matrizes.
“O suíno e algumas outras produções não têm descanso. Ele não tem dia para parir, ele come todos os dias, tem uma rotina ali, e não são todos os manejos que dá para evitar de fazer”, explica.
A gerente acrescenta que a organização das escalas precisa considerar tanto as necessidades dos animais quanto a rotina dos funcionários.
“Está muito difícil de arrumar pessoas para trabalhar no fim de semana, principalmente para fazer o arraçoamento. Manejos como o parto também não dá para prever, e acaba atrapalhando a gente nessa questão”, diz.
Edson Luiz Sanguino, proprietário da Granja Sanguino, suinocultor e agricultor, chama a atenção para os possíveis efeitos econômicos da redução da jornada. Em sua avaliação, a diminuição de 44 para 40 horas semanais representa uma redução de aproximadamente 9,1% nas horas trabalhadas por funcionário, caso a comparação seja feita entre as duas jornadas semanais.
“Se levarmos em consideração, a semana cai de 44 horas para 40 horas. É uma queda de produção e serviço de aproximadamente 9%. Para que não aconteça isso, teremos que pagar horas extras ou contratar mais funcionários”, afirma.
O produtor avalia que, para manter o volume de trabalho, as granjas poderão precisar ampliar o quadro de funcionários ou recorrer a horas extras, alternativas que, segundo ele, aumentariam os custos da atividade.
“Não existe outro resultado nesta nova situação que não seja o aumento do custo de produção”, diz Edson.
Ele também projeta possíveis reflexos sobre o preço da carne suína e o consumo. Na avaliação do produtor, caso os custos adicionais sejam repassados aos preços, o consumidor poderá perder poder de compra se a renda permanecer inalterada.
“O consumidor vai comprar menos, pois seu ganho será o mesmo, mas seu poder de compra diminuirá diante do aumento de custo para produzir a carne”, afirma.
Edson ressalta que os efeitos não seriam imediatos e que o mercado passaria por um período de ajustes entre produção, preços e consumo.
“Depois de um tempo tudo se equilibra, mas, para este equilíbrio acontecer, a produção diminui, o preço sobe e o consumo cai. E isso significa que o país ficou um pouco mais pobre”, avalia.
A projeção apresentada pelo produtor reflete sua interpretação sobre os possíveis efeitos econômicos da mudança. A evolução dos custos, dos preços e do consumo dependerá, entre outros fatores, da capacidade de adaptação das granjas, da disponibilidade de mão de obra e dos ganhos de produtividade.
Em posicionamento sobre a mudança na jornada de trabalho, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) informou que o setor de proteína animal cumprirá a nova legislação.
A entidade afirma que as empresas já enfrentavam dificuldades para preencher seus quadros de funcionários sob as regras anteriores, situação que, segundo a associação, levou inclusive à adoção de mão de obra imigrante. A ABPA avalia que a mudança exigirá adaptações na organização do trabalho e poderá afetar a capacidade produtiva do setor.
“Com o novo quadro, a capacidade produtiva será impactada, ocasionando a adaptação ao novo sistema com eventuais reduções na oferta de alguns produtos e aumento do custo médio produtivo, com o inevitável repasse ao consumidor final”, afirma a entidade.
O posicionamento da associação converge com as preocupações apresentadas pelos produtores quanto à disponibilidade de trabalhadores e aos custos operacionais. Os efeitos efetivos sobre a oferta de carne suína, entretanto, dependerão das adaptações realizadas pelas empresas e granjas, das condições de contratação e da evolução da produtividade.
A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019 trata da redução da jornada de trabalho e da mudança no modelo de descanso semanal. O texto aprovado pelo Senado Federal em 14 de outubro de 2026 prevê a transição para uma jornada semanal de 40 horas, com dois dias de descanso remunerado e sem redução salarial.
A implementação está prevista em duas etapas:
A transição completa está prevista para ocorrer em 14 meses após a promulgação. A situação legislativa e os prazos devem ser confirmados com base no texto efetivamente promulgado antes da publicação.
Na suinocultura, a mudança coloca em discussão a necessidade de conciliar a organização das equipes com atividades que não podem ser interrompidas, como a alimentação dos animais e o acompanhamento dos partos. Para os produtores ouvidos pela suínoBrasil, o desafio está em manter a continuidade dos manejos e a viabilidade econômica da atividade diante das novas regras.
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