16 set 2026

Javali: quem responde quando o problema passa da porteira?

Fórum na FAESP colocou em discussão uma estratégia que vai além do abate: regionalização, equipes, dados, participação do produtor e integração entre agricultura, meio ambiente, sanidade e segurança

Javali: quem responde quando o problema passa da porteira?

Javalis no Brasil: quem responde pelo controle da espécie?

Por redação suínoBrasil.

O desafio do javali no Brasil pode ser resumido em uma pergunta simples, mas difícil de responder: quem age quando o problema passa da porteira?

Foi essa questão que ganhou força no Fórum Faesp/Senar – Javalis e javaporcos: impactos, estratégias e ações coordenadas, realizado nesta terça-feira (15), na sede da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (FAESP), em São Paulo.

Mais do que repetir o diagnóstico sobre os prejuízos às lavouras e os riscos ambientais e sanitários, o encontro avançou para uma discussão operacional: como transformar informações, controladores, produtores, órgãos públicos, universidades e tecnologia em uma estrutura permanente de controle?

A resposta construída ao longo do debate aponta para uma estratégia multissetorial, territorial e adaptativa.

O próximo passo não é apenas contar javalis

Uma das principais conclusões do fórum foi que o número de animais abatidos, isoladamente, não demonstra se o controle está funcionando. A proposta discutida por especialistas é começar com uma estimativa da população e da densidade em determinada área, aplicar as medidas de controle e depois medir novamente os resultados. “Quantos tinha antes, quantos tinha depois” é a lógica que deve orientar a avaliação.

A mudança parece simples, mas altera completamente o indicador de sucesso. Em vez de perguntar apenas quantos javalis foram abatidos, a pergunta passa a ser: a população diminuiu? A área de ocorrência foi reduzida? O dano caiu? O risco foi controlado?

Cada território pode exigir uma resposta diferente

O fórum também reforçou que não existe uma única realidade de javali no Brasil. 

A discussão chegou à proposta de trabalhar com áreas prioritárias, considerando critérios econômicos, ambientais, sociais e sanitários. Para a suinocultura, isso significa que propriedades e regiões de produção de suínos poderiam receber atenção diferenciada, assim como áreas ambientalmente sensíveis ou com espécies nativas ameaçadas.

“A gente precisa saber quantos animais tinha antes do controle e quantos animais ficaram depois. Não adianta simplesmente ir a campo, fazer o controle e contar quantos animais foram retirados sem saber qual era a população”, Júlio Daniel do Vale, especialista da CNA

A erradicação, nesse contexto, não foi tratada como uma meta uniforme para todo o território brasileiro, mas como um objetivo a ser perseguido onde houver viabilidade técnica.

O produtor precisa entrar no centro da estratégia

Talvez uma das falas mais contundentes do encontro tenha sido justamente sobre quem ainda aparece pouco nas capacitações: o produtor rural. Um dos participantes relatou ter realizado dezenas de capacitações para controladores, mas nenhuma especificamente voltada aos produtores.

“A gente pretende construir em colaboração com o produtor, ouvindo o produtor, mapeando a ocorrência da espécie”, Artur Felício, responsável pelo Programa Estadual de Sanidade Suídea.

O painel de microfone aberto ao público levantou um novo ponto de reflexão sobre a tentativa de controle populacional de Espécies Exóticas Invasoras (EEI), não adianta profissionalizar o controle se o proprietário não sabe quem está entrando em sua propriedade, quais são os procedimentos, quais os riscos envolvidos e qual é o papel de cada agente.

A proposta apresentada é aproximar produtores, sindicatos rurais, controladores, assistência técnica e órgãos públicos. O produtor deixaria de ser apenas o proprietário que sofre o prejuízo e passaria a integrar a própria estrutura de gestão do problema.

São Paulo pode virar um laboratório de controle

Outro encaminhamento apresentado durante o fórum, apresentado por Ariel Mendes, presidente da FACTA e membro do Conselho Consultivo da ABPA, foi a possibilidade de criar um projeto-piloto em São Paulo. A ideia aproveita a capilaridade dos sindicatos rurais e a experiência acumulada pelo Estado em estruturas de resposta coordenada a incidentes.

A proposta é testar regionalmente uma metodologia que possa responder a perguntas práticas: quem coordena, quem é acionado, quais equipes estão disponíveis, quais informações precisam ser compartilhadas e como o resultado será medido. Se funcionar, o modelo poderia servir de referência para outras regiões.

O controlador não trabalha sozinho

Outra mudança de conceito discutida foi a profissionalização das equipes. O controlador continua sendo peça fundamental, mas o controle populacional não deveria depender exclusivamente da pessoa que realiza a captura ou o abate.

A proposta debatida prevê equipes capazes de reunir diferentes competências, incluindo profissionais para estimar densidade populacional, avaliar resultados, orientar biossegurança e adaptar as estratégias conforme a resposta observada no território. Também foi defendida a criação de um catálogo nacional de equipes e redes de controle, permitindo localizar rapidamente profissionais capacitados quando uma região precisar de apoio.

 

Quando a responsabilidade não fica para ninguém

A dificuldade de enfrentar o problema também passa pela divisão de responsabilidades entre os órgãos públicos. Na avaliação apresentada no fórum, não basta atribuir ao Ibama ou ao Ministério da Agricultura a tarefa de resolver a expansão dos suínos asselvajados. O desafio exige participação dos diferentes elos envolvidos.

“Nós temos visto inúmeros projetos de lei passarem pela manifestação do Ministério da Agricultura e também do Ministério do Meio Ambiente, em que a responsabilidade não fica para ninguém”, afirmou uma representante do Ibama de SP, acompanhada da representante do Ibama nacional, Lívia Martins.

O problema dos dados. Quem conecta tudo?

O fórum colocou ainda um obstáculo menos visível, mas decisivo: existem informações, aplicativos e sistemas, porém eles nem sempre conversam entre si.  A ideia de criar um hub de informações ganhou espaço justamente para integrar diferentes fontes e transformar dados em decisão. Mas surgiu uma pergunta fundamental: quem hospeda, administra, mantém e protege essas informações? 

Sanidade não começa depois do foco

Para a suinocultura, esse ponto é especialmente importante. O controle do javali não deve ser confundido com a resposta a um eventual foco de doença. O Brasil já possui estruturas de contingência sanitária para enfermidades de importância veterinária. O desafio é fazer com que os atores envolvidos conheçam os protocolos e que a gestão do javali consiga dialogar com essa estrutura quando necessário.

O javali pode ser um problema ambiental, mas para a suinocultura o risco é sanitário.

O avanço dessa espécie invasora no Brasil exige uma resposta que vá além do controle populacional. Para a produção de suínos, a presença de javalis também representa um desafio de biosseguridade, vigilância epidemiológica e defesa sanitária.

Durante o segundo ciclo de debates sobre javalis promovido pela FAPESP, o especialista Júlio Daniel do Vale, consultor ambiental, destacou a importância de uma estratégia regionalizada para enfrentar o problema.

A proposta é dividir grandes territórios em unidades menores de atuação, permitindo organizar um ciclo contínuo de:

🔹 diagnóstico;
🔹 classificação das áreas;
🔹 definição de prioridades;
🔹 intervenção;
🔹 monitoramento;
🔹 reclassificação.

No Oeste de Santa Catarina, por exemplo, foi citado um modelo baseado na divisão da região em 10 subunidades de aproximadamente 2 mil km². E onde entra a sanidade dos suínos?

O controle do javali precisa estar conectado à vigilância sanitária. A identificação de carcaças, alterações de comportamento ou sinais clínicos pode ser determinante para uma resposta rápida diante de uma suspeita sanitária.

Ao mesmo tempo, propriedades e equipes de campo precisam reforçar medidas de biosseguridade, uso de equipamentos de proteção e controle da movimentação, além de manter canais ágeis de comunicação com o Serviço Veterinário Oficial. Para a suinocultura, portanto, a discussão não termina na fauna silvestre.

O desafio é construir uma estratégia integrada entre meio ambiente, defesa agropecuária, produtores e vigilância, capaz de reduzir riscos e responder rapidamente a eventuais ocorrências sanitárias.

 

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